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Mês de maio

No Brasil, indígenas venezuelanos aceitam convite do Papa e rezam terço diário

Povo indígena oriundo da Venezuela reza o terço diariamente neste mês; Em Boa Vista, migrantes rezam em língua nativa e são guiados por um missionário queniano, padre Josiah K´Okal

Da redação, com Vatican News

Migrantes do povo Warao em acampamento no Brasil/ Foto: Reprodução – Reuters

A Igreja católica dedica o mês de maio para expressar com particular intensidade seu amor e devoção à Virgem Maria, recordou o Papa Francisco em carta escrita no dia 25 de abril. No texto, o Pontífice afirma que este é um mês em que, tradicionalmente, se reza o terço em casa, com a família. O Santo Padre destacou também a importância da Igreja doméstica neste período de pandemia.

Muitos aderiram ao pedido de Francisco, como os migrantes do povo Warao – originários da foz do rio Orinoco, no estado do Delta do Amacuro, na Venezuela – que, atualmente, estão no Brasil. Grande parte deles vive, hoje, no abrigo Ka-ubanoko, que fica em Boa Vista, capital de Roraima, na fronteira com o país vizinho, onde estão alojados cerca de 700 pessoas.

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O local tem abrigado migrantes que não encontraram lugar nos abrigos da “Operação Acolhida”, coordenada pelo Exército Brasileiro e pela ACNUR, e é organizado por eles mesmos, numa perspectiva de autogerenciamento, para fazer parte da solução e não apenas esperar algum tipo de ajuda. Quem sempre tem apoiado o grupo é a diocese de Roraima, como conta padre Josiah K´Okal.

A missão em favor dos Warao

O missionário da Consolata, padre Josiah, nascido no Quênia, relata que trabalhou na Venezuela por 22 anos e viveu com o povo Warao, no Delta Amacuro, por vários anos. Entre 2007 e 2011, o sacerdote foi coordenador da Pastoral Indígena do Vicariato de Tucupita e, desde janeiro, está em Boa Vista para fazer pesquisas sobre o processo de migração dos indígenas Warao e realizar trabalhos pastorais esse povo.

Padre Josiah conta que, naquela época, foram coletadas e trabalhadas as traduções feitas por missionários, como do Evangelho dominical, do rito do Batismo e do terço. O projeto foi iniciado pela Pastoral Indígena, seguido de reuniões de todo o vicariato, três vezes por ano, para falar sobre as traduções, porque foram feitas nas comunidades, explica o missionário.

O missionário também faz questão de recordar o trabalho realizado especialmente por dois capuchinhos espanhóis, considerados dois pilares nesse processo de tradução: padre Júlio Lavandero e padre Damián del Blanco, já falecidos.

Antes da pandemia, padre Josiah também acompanhava de perto os migrantes do povo Warao que estão no abrigo de Pintolândia. Mas, desde o aparecimento dos primeiros casos da covid-19, a entrada no local, gerenciada pelos militares e pela ACNUR, ficou restrita. O missionário, então, concentrou o trabalho no abrigo Ka-ubanoko, onde vai com frequência, sempre tomando as precauções de segurança.

Abrigo Ka-ubanoko

Nesse alojamento, onde 90% dos Warao são católicos, foi retomado o terço na língua nativa. O missionário da Consolata destaca que é muito interessante ver que em Ka-ubanoko há pessoas que anos atrás participaram diretamente das traduções, como Nilda Moraleda e Fidel Torres.

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Padre Josiah explica que é algo que eles já sabiam, mas, por alguma razão, os padres que seguiram não continuaram nessa linha de enfatizar a liturgia em Warao, de modo que o fio foi perdido. O que está ajudando a retomar a iniciativa, de acordo com o sacerdote, é o fato de todos que estão no Brasil saberem rezar. “Durante este período, traduzimos a Ave-Maria e o Pai-Nosso”, completou.

Os Warao durante a pandemia

As condições dos migrantes venezuelanos no Brasil, especialmente entre os Warao de Boa Vista, pioraram com a chegada da covid-19: são mais de 40 pessoas testadas positivas para o coronavírus e quatro que morreram, vítimas da doença. Nesse contexto, o missionário tem descoberto que o povo procura afirmar mais a sua cultura e a própria língua. “Eu me encontro aqui com pessoas Warao que, por lá, mal falavam a língua nativa; aqui eles falam. Conheço pessoas que moravam em outros lugares e, agora, quando se encontram aqui, querem se reafirmar como Warao, estão aprendendo seu idioma”.

O Sínodo Amazônico

Padre Josiah K´Okal, que participou do Sínodo Amazônico, no Vaticano, fala da importância “de orar em sua própria língua”. Segundo o sacerdote, este é um elemento que ajuda a resgatar a polifonia da Amazônia. “O Delta Amacuro é uma extensão da Amazônia, devido às suas características, mas a Amazônia é muito mais do que uma extensão geográfica que quer resgatar as pequenas coisas dos povos que cuidam da terra em seu pequeno local. Eles também nos dão essa riqueza de polifonia através das diversidades culturais e linguísticas”, afirma o missionário.

Onde quer que estejam os povos indígenas, aqui na diáspora, ou ali, no Delta Amacuro, acrescenta o sacerdote, parece muito importante que o Sínodo, que agora está começando a ser colocado em prática, lute para que a Igreja seja isso. O processo sinodal enfatizou a necessidade de uma Igreja com rosto amazônico e indígena, mas padre. Josiah vai mais longe. Segundo ele, não é apenas uma Igreja com rosto indígena, com rosto amazônico, é também sentimento e pensamento.

O religioso afirma que o rosto representa o físico, por assim dizer, já o sentimento e o pensamento representam o interno, tanto na língua quanto nas pessoas. “Ficar apenas com uma Igreja com rosto indígena é muito pobre”, frisou. Nessa perspectiva, o sacerdote afirma que o Sínodo para a Amazônia foi uma oportunidade para levar todos os católicos ao coração daquela autêntica Igreja indígena.

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“Que seja aquela do coração, do pensamento, do sentimento: se a Igreja está apenas com o rosto, o mais provável é que resgatemos o folclore e deixemos uma riqueza muito profunda, essa riqueza de pensamento indígena, de uma Igreja que deve ser diferente em sua experiência de Deus, em suas expressões”. Pe. Josiah acredita que “O Sínodo precisa nos ajudar como Igreja a ir além do rosto, a alcançar o coração, o pensamento e o sentimento indígena.”

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