Inspirada em São Francisco de Assis, a devoção convida os fiéis ao jejum, à disciplina diária e ao combate espiritual em momentos de aflição
Thiago Coutinho
Da redação

Quarenta dias de jejum e penitência são dedicados, de 15 de agosto a 29 de setembro, durante a Quaresma de São Miguel / Foto: Canva
De 15 de agosto a 29 de setembro, a Igreja celebra um período tradicional de 40 dias de oração, jejum e penitência dedicados a São Miguel Arcanjo. Trata-se de uma tradição forte de combate e renovação espiritual que remonta a São Francisco de Assis.
“A Quaresma de São Miguel é uma tradição muito mais antiga do que nós podemos imaginar”, explica o Padre André de Moraes, pároco da Comunidade Católica Mar a Dentro, em Iturama (MG). “A prática da Quaresma de São Miguel está ligada à vida de São Francisco de Assis, que era muito devoto do arcanjo. Em 1224, ele realiza a sua primeira quaresma de jejum e oração no Monte Alverne. Ali, ele diz sobre isto: ‘Para a honra de Deus, da bem-aventurada Virgem Maria e de São Miguel Arcanjo, príncipe dos anjos e das almas, quero fazer aqui uma Quaresma'”.
Foi durante esses 40 dias que São Francisco recebeu os estigmas de Cristo nos pés, mãos e peito. “Além disso, compreendemos que o deserto é o símbolo mais forte da Quaresma, pois nos leva a um encontro mais profundo com Deus. No deserto não há nada, só Deus, e ali Deus basta. É um período a mais que temos dentro desta devoção para combater o pecado, vencer a nossa fraqueza e renovar a nossa vida espiritual”, explica o sacerdote.
Nas Sagradas Escrituras, São Miguel aparece como o arcanjo que combate o mal e permanece ao lado do Senhor. “Nenhum poder se compara ao seu. Por isso, já o nome do arcanjo nos coloca diante deste grito de invocação, de adoração e de reconhecimento da grandeza de Deus. Nós, então, somos ajudados por Miguel a permanecer firmes na fé, fiéis a Jesus Cristo, na luta contra o pecado”, afirma o padre André.
Rosário da Madrugada
Um dos momentos marcantes, nesses 40 dias de oração, é o Rosário da Madrugada. Rezar e vigiar logo nas primeiras horas da manhã gera um impacto profundo na vida de quem pratica. Mas a verdade é que não há um horário específico para se praticar a Quaresma de São Miguel. “Como é um gesto de devoção, cada um faz de acordo com as suas próprias capacidades”, explica o sacerdote.
As preces durante a madrugada, porém, oferecem um significado diferente — e até mais profundo. “Rezar de madrugada dá um significado de vigilância, de perseverança, e mostra que Deus se torna a prioridade”, explica o sacerdote da Comunidade Católica Mar a Dentro. “Também existe aí uma dimensão de disciplina espiritual. É preciso vencer-se, é preciso criar o hábito, e esse sacrifício educa o coração para a perseverança, para a disciplina; isso é virtude, é vida virtuosa. Por fim, também devemos perceber que existe o sentido da vigilância, da confiança”, acrescenta.
Tempestades modernas
Diante das “tempestades modernas” — como os desafios na família, os conflitos emocionais e as crises de fé —, a espiritualidade de São Miguel oferece aos fiéis as armas necessárias para enfrentar o combate espiritual no dia a dia com firmeza e esperança.
“Toda a espiritualidade que busca a imitação dos santos e também dos anjos, naquilo que conhecemos deles em sua especificidade, nos leva a buscar mais a Deus”, pondera padre André.
“Os santos são para nós como testemunhos vivos do Evangelho”, prossegue o sacerdote. “Eles nos mostram como o Evangelho se torna vivo e atual por meio dos seus gestos, da conversão dos seus corações e da sua vida de fé e caridade.”
Os anjos são, detalha o sacerdote de Iturama, mensageiros que nos trazem recados de Deus e nos conduzem a Ele. “No caso de São Miguel, destacaria muito a virtude da caridade e a virtude da humildade; elas nos levam a buscar a Deus de maneira mais concreta e profunda. Tratando-se, porém, da Quaresma de São Miguel, esse pequeno gesto espiritual e devocional, que podemos cumprir a partir do dia 15 de agosto, nos recorda que não estamos sozinhos nos combates da vida.”
As crises pessoais pelas quais passamos precisam ser enfrentadas com discernimento, parcimônia e, sobretudo, confiança em Deus com muita oração. “Quem nos separará do amor de Deus?”, indaga o Padre André. “Acredito em Deus, mesmo quando as tempestades estão fortes, mesmo quando a noite está escura, eu continuo confiando. Diante das tempestades da vida, devemos, mais uma vez, olhar para São Miguel e deixar que ele nos coloque diante dessa pergunta”, finaliza.




