No congresso promovido pelo Dicastério das Causas dos Santos, o cardeal elogiou os esforços das comunidades pela busca da paz no Oriente Médio
Da redação, com Vatican News

Cardeal Pizzaballa apresenta mensagem de Natal / Foto: Patriarcado Latino de Jersualém
Uma “força mansa” capaz de resistir à lógica do poder e das armas e de preservar, mesmo em meio à guerra, as relações, as comunidades e a esperança. É esse o testemunho exigido hoje dos cristãos, especialmente em uma Terra Santa marcada por feridas e divisões profundas. O cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, falou sobre isso no Augustinianum, em Roma, ao participar do congresso “O século XXI: uma nova era de mártires?”, promovido pelo Dicastério das Causas dos Santos. Em sua palestra, intitulada “Os cristãos, força mansa em tempos de poder e de armas”, o purpurado alertou contra a tentação de confiar à força a solução dos conflitos. Quando se torna a única linguagem, observou ele, a força se transforma em uma forma de idolatria: nenhuma superioridade militar ou material pode, de fato, isentar da responsabilidade de construir relações.
A vida que resiste entre os escombros de Gaza
A referência é, em primeiro lugar, à realidade da Terra Santa, na Cisjordânia e em Gaza, onde, apesar da devastação, a vida parece prevalecer. “Em meio aos escombros e aos medos em Gaza, surge um anseio pela vida que nenhuma guerra consegue apagar”, afirmou o cardeal Pizzaballa. Para a Igreja, acrescentou ele, o desafio é “manter as comunidades unidas” e encontrar “uma palavra cristã neste conflito”, tarefa que o Patriarca reconhece ser extremamente difícil. Uma dificuldade que se torna ainda mais evidente pela situação particular da diocese de Jerusalém: durante a guerra, lembrou ele, alguns fiéis estavam a serviço de Israel, enquanto outros se encontravam sob fogo israelense. Uma divisão que atravessa a sociedade e que inevitavelmente se estende também ao cotidiano das comunidades cristãs. Em Gaza, ademais, a trégua ainda não se traduz em uma verdadeira reconstrução. A população continua vivendo concentrada em uma parte muito reduzida do território e sem serviços essenciais. No entanto, é justamente aí que o purpurado identifica sinais pequenos, mas concretos, de resistência à destruição. “Reabrimos uma escola com mil alunos, mas ainda não temos carteiras nem lápis, que não são autorizados a entrar; as crianças estudam no chão”. Os professores, porém, estão presentes, utilizam até papel reciclado e “se empenham muito”.
Sozinhos, seria quase impossível
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Falando à mídia vaticana à margem do congresso, o Patriarca Latino de Jerusalém aprofunda o significado concreto da mansidão cristã em um contexto marcado por uma violência que parece não dar trégua. “Não é fácil, nenhum de nós é um marciano”, observa Pizzaballa. Também os cristãos sofrem “as influências, as dificuldades, a dor e até mesmo a raiva geradas por situações profundamente injustas que afetam a todos”. A resposta, explica ele, não pode depender apenas da capacidade individual de resistir: o senso de comunidade é decisivo. “Quando alguém está em dificuldade, outra pessoa pode apoiá-lo e vice-versa. É uma forma muito concreta, muito verdadeira e também muito humana de nos apoiarmos mutuamente”. Uma rede de relações sem a qual suportar o peso da violência se tornaria quase insustentável: “Sozinhos, seria, não digo impossível, mas certamente quase impossível”.
A normalidade como forma de resistência
Em um território onde também os cristãos são vítimas da violência, até mesmo a defesa da vida cotidiana adquire, então, um valor especial. “A vida cotidiana, às vezes, pode se tornar também uma importante prova de força”, ressalta Pizzaballa. Quando as circunstâncias obrigam a viver permanentemente em situação de emergência, recuperar a normalidade torna-se uma forma concreta de resistência. Para conseguir isso, esclarece o purpurado, são necessárias “muita força interior” e “muita unidade entre as pessoas”. Mas é fundamental o papel dos pastores e dos líderes das comunidades, chamados a apoiar as pessoas e, sobretudo, “a estar presentes”.
Uma Igreja que não é étnica nem nacional
É justamente a unidade um dos pontos centrais do testemunho que a Igreja da Terra Santa é chamada a oferecer. O Patriarca não esconde a dolorosa contradição de uma comunidade na qual cristãos israelenses podem servir nas forças armadas, enquanto cristãos palestinos são vítimas da guerra. Uma situação — afirma Pizzaballa — “muito difícil e, ao mesmo tempo, muito real”, que, no entanto, revela algo essencial sobre a identidade eclesial: “Não somos uma Igreja étnica ou nacional”. Por isso, justamente quando o contexto ao nosso redor parece nos empurrar na direção oposta, a tarefa dos cristãos continua sendo a de não se deixarem aprisionar por identidades opostas. “Enquanto tudo aponta para a divisão, devemos, com esforço e dificuldade, fazer de tudo para buscar, ao contrário, a unidade”. Um testemunho que se torna também uma resposta à pergunta levantada pelo congresso sobre os mártires do nosso tempo. Não apenas por meio do sacrifício extremo da vida, mas na fidelidade cotidiana de comunidades que, em meio à violência, continuam a escolher o relacionamento em vez da oposição e a mansidão em vez da força.




