Negociações frustradas

Em Assis, Pizzaballa destaca desafios para a paz na Terra Santa

Patriarca latino de Jerusalém afirmou que a população vive um cenário de “não-guerra, não-paz” e destacou o valor da esperança

Da Redação, com Vatican News

Cardeal Pierbattista Pizzaballa concelebrou a missa presidida pelo Papa Leão na Basílica de Santa Maria dos Anjos, em Assis, Itália /Foto: REUTERS/Yara Nardi

O patriarca latino de Jerusalém, Cardeal Pierbattista Pizzaballa, afirmou nesta quinta-feira, 6, que os cristãos da Terra Santa vivem um profundo desgaste diante das sucessivas tentativas frustradas de negociação pela paz. Em Assis, na Itália, onde participa da visita do Papa Leão XIV e da inauguração da Casa Global da Amizade e da Esperança, o cardeal falou à imprensa vaticana sobre a situação no Oriente Médio, as eleições em Israel e os desafios para reconstruir a confiança entre os povos.

Ao comentar as eleições israelenses, marcadas para 27 de outubro, Pizzaballa afirmou que a expectativa em torno do pleito não será suficiente para resolver os problemas da região. “Todos aguardam as eleições como se fossem a solução para todos os problemas, mas, na realidade, os problemas no Oriente Médio são daqueles que levarão muito tempo para serem resolvidos. Precisamos de faces novas, novas figuras. Caberá aos eleitores decidir.”

O cardeal descreveu Jerusalém como um lugar de grande tensão, marcado por uma violência constante. “Não estamos em tempos de guerra com bombardeios indiscriminados, mas a violência é, de certa forma, um critério geral de leitura das relações em Gaza, na Cisjordânia, em Israel e na Palestina”, pontuou.

Cristãos vivem o cansaço da guerra

Questionado sobre como os cristãos enfrentam a constante frustração diante da falta de acordos, Pizzaballa afirmou que o sentimento predominante é o cansaço, acompanhado por uma crescente desconfiança.

“Infelizmente, isso cria na população uma atitude de crescente desconfiança, porque ninguém mais acredita nas coisas, mesmo naquelas verdadeiras. E quando algo bom acontece, as pessoas não acreditam mais porque não estão mais acostumadas a ver isso. Digamos que é uma situação bastante difícil”, lamentou.

Apesar do cenário, o patriarca ressaltou que ainda existem sinais de esperança porque muitas pessoas ainda estão se arriscando em Gaza, na Cisjordânia e em Israel. Ele contou que constantemente encontra jovens e idosos, professores — em suma, pessoas que têm algo a perder em termos de relações, mas que mesmo assim se arriscam para fazer algo, para se encontrar, para defender. “Nesse mundo, os anticorpos que protegem todo o organismo de ser afetado por esse vírus da violência ainda existem.”

Situação da paróquia da Sagrada Família

Ao falar sobre a comunidade da paróquia da Sagrada Família, em Gaza, atingida por um foguete israelense há alguns meses, Pizzaballa explicou que as 541 pessoas acolhidas no local buscam retomar a vida cotidiana.

“Conhecemos todas, uma por uma. Elas estão tentando, de alguma forma, retomar suas vidas. Estamos tentando reabrir a escola. Abrimos um centro médico, uma espécie de dispensário. Há sacerdotes, mas, sobretudo, religiosas que são muito ativas no oratório para crianças, não apenas cristãs. Nessa situação deteriorada, estamos tentando recriar um ambiente saudável e pacífico possível”, sublinhou.

“Não-guerra, não-paz”

Segundo o patriarca, a maior preocupação neste momento é a permanência de um cenário indefinido, que mina a confiança da população.

“O que mais me preocupa agora é que estamos presos nessa situação de não-guerra, não-paz, nessa situação ambígua. Onde se fala sobre soluções sem de fato criá-las realmente. Tudo isso me preocupa porque cria uma atitude cada vez mais cínica de desconfiança nos corações das pessoas, que é o maior perigo que vejo na população atualmente.”

Jovens e visita do Papa

Durante a entrevista, Pizzaballa também destacou o papel das novas gerações na construção de um futuro de paz. Segundo ele, os idosos são a memória, enquanto os jovens representam a esperança. Por isso, o cardeal defendeu que é preciso olhar para o futuro com confiança.

“Eles são os protagonistas das gerações futuras. Portanto, precisamos investir neles, aprendendo com os nossos erros, porque eles podem construir e propor algo diferente daquilo que lhes transmitimos.”

Ao comentar a relação com o Papa Leão XIV, o purpurado ressaltou a proximidade do Pontífice com a realidade da Terra Santa. “O Papa está muito próximo de nós e muito bem informado sobre o que está acontecendo, o que é muito importante”, destacou. Quanto a uma visita papal à Terra Santa, ele definiu que mais cedo ou mais tarde ela certamente acontecerá, mas deve ocorrer num contexto de serenidade.

Diálogo inter-religioso

Por fim, ao recordar os 40 anos do encontro de oração pela paz promovido por João Paulo II em Assis, em 1986, Pizzaballa defendeu que a data seja ocasião para renovar o compromisso com o diálogo entre as religiões. O cardeal definiu que não pode ser um gesto nostálgico, ou seja, não se deve olhar para trás, mas para frente.

“Muito foi feito nesses 40 anos. Além disso, devido aos conflitos, especialmente no Oriente Médio, estamos num momento decisivo. Portanto, pode ser o recomeço de um novo percurso que leve em consideração as coisas boas que foram feitas e também as dificuldades que enfrentamos agora, para que possa ser um caminho bonito, sincero e autêntico.”

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