CONFLITO NO ORIENTE MÉDIO

Nuncio Apostólico ao Kuwait: 'a situação só piora a cada dia'

O arcebispo Eugene Nugent, Núncio Apostólico no Kuwait, Bahrein e Catar, fala sobre o desejo da Igreja local de orar e jejuar pela paz, em meio à escalada da violência

Da redação, com Vatican News

Fumaça sobre a área ao redor da embaixada dos EUA no Kuwait / Foto: Reprodução Reuters

Cinco pessoas foram mortas no Golfo Pérsico desde sábado, 28, todas estrangeiras: uma no Kuwait, três nos Emirados Árabes Unidos e uma no Bahrein. Nesta segunda-feira, 2, novas explosões foram ouvidas em Dubai, Abu Dhabi, Doha e Manama. No Kuwait, uma densa fumaça subia da embaixada dos Estados Unidos.

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Os ataques iranianos estão abalando esses países da Península Arábica, há muito considerados refúgios de segurança. Na entrevista a seguir, concedida ao Vatican News, o Arcebispo Eugene Nugent, Núncio Apostólico no Kuwait, Bahrein e Catar, descreve a situação e o desejo da Igreja pela paz.

Vatican News — Qual é a situação atual no Kuwait, onde você está baseado?
Dom Eugene Nugent — A situação é dramática e piora a cada dia. Quase não dormimos na noite passada por causa de uma série de explosões ouvidas a partir das 2h da manhã, seguidas por sirenes incessantes. Esta manhã, soubemos que a embaixada americana aqui no Kuwait foi atacada por um drone. Felizmente, não houve mortos, mas houve danos, incluindo um incêndio dentro da embaixada. Ainda esta manhã, soubemos que duas aeronaves militares americanas foram abatidas perto da base aérea americana “Ali al Salem”, que conheço muito bem porque vou lá regularmente para celebrar missa. Há um contingente italiano bem ao lado. Estamos tentando manter a calma, é claro, mas é um tanto assustador, devo dizer. Ao redor da nunciatura, não vimos nenhum dano. Somos a única embaixada no distrito de Shaab, uma parte tranquila da cidade. O distrito diplomático, que também abriga a embaixada iraniana, fica bem perto, mas nossa vizinhança é calma. As bases militares e os aeroportos são os principais alvos, assim como o Terminal 1 do Aeroporto do Kuwait, que foi atingido por um drone logo no primeiro dia.

Vatican News — O Bahrein e o Kuwait estão sendo afetados pela guerra. Como isso está sendo vivenciado em países que normalmente promovem o diálogo inter-religioso e a coexistência pacífica?
Dom Eugene Nugent — Estamos todos um tanto chocados com o que está acontecendo. Tínhamos esperança de que o diálogo e as negociações em curso dessem frutos. Ficamos verdadeiramente surpresos quando a guerra eclodiu em 28 de fevereiro. Felizmente, a mensagem do Santo Padre neste domingo, no Ângelus, e seu apelo à oração pela paz nesta região, bem como pelo diálogo e pela negociação, foram bem recebidos aqui. Compartilhamos amplamente a mensagem. O mesmo aconteceu com a mensagem do Vigário Apostólico da Arábia do Norte, Bispo Aldo Berardi, convidando as pessoas à oração e à solidariedade neste momento, que também foi bem recebida.

Vatican News — Que voz pode se erguer em um momento em que ataques e represálias evoluem a cada minuto em todas as direções?
Dom Eugene Nugent — Mantemos contato com as autoridades e embaixadores, ao menos para incentivá-los a usar todos os meios possíveis para pôr fim a esta guerra. Infelizmente, uma vez iniciada uma guerra, ninguém sabe quando ela terminará. Tudo está se acelerando, mas ainda precisamos tentar todas as alternativas. Uma guerra longa não beneficia ninguém e não beneficiará ninguém, especialmente em uma região já marcada por muitos conflitos.

Vatican News — Como renovar a diplomacia diante de uma hostilidade tão arraigada?
Dom Eugene Nugent — Neste momento, as armas estão fazendo barulho. Devemos tentar os meios tradicionais de diplomacia e negociação. Esperamos que, com a declaração do Presidente Donald Trump indicando que haverá conversas com o novo regime no Irã, o diálogo possa começar. Esperamos um diálogo razoável com todas as partes. No momento, isso é bastante difícil porque a situação no Irã é muito complexa. Existem muitas facções dentro do país e é difícil entender a dinâmica geopolítica. Devemos tentar o diálogo em todos os níveis. A diplomacia é a única maneira de pôr fim a esta guerra.

Vatican News — Em 2022, no Bahrein, o Papa Francisco descreveu a guerra como “um cenário dramaticamente infantil”, denunciando que “no jardim da humanidade, em vez de cuidarmos do todo, brincamos com fogo com mísseis e bombas”. Como essas palavras ressoam hoje?
Dom Eugene Nugent — Parecem proféticas. São palavras poderosas que falam a todos. Durante séculos, a humanidade se envolveu em muitos conflitos, mas, no fim, devemos buscar a fraternidade e encontrar o que temos em comum. Vivemos nesta região há séculos. Todos os países têm a obrigação de buscar a paz e a harmonia. Rezamos muito por isso. Na semana passada, celebramos a missa na catedral aqui no Kuwait, pelo quarto aniversário da guerra na Ucrânia. Quatro dias depois, a guerra eclodiu aqui. Somente a oração — e, durante a Quaresma, o jejum — são importantes. Também estamos no Ramadã. Cristãos e muçulmanos estão em tempo de jejum e oração. Imploremos a Deus que nos conceda o dom da paz.

Vatican News — Que tipo de apoio você pode oferecer à Igreja local e aos fiéis que estão abalados?
Dom Eugene Nugent — Estou em contato diário com o Bispo Aldo Berardi e com os párocos dos três países pelos quais sou responsável: Kuwait, Bahrein e Catar. Procuro encorajá-los e apoiá-los. Algumas igrejas ainda estão abertas, mas outras estão fechadas, por isso há missas privadas. Na nunciatura, celebramos missa todas as manhãs às 7h30 e, à tarde, às 17h, rezamos o Rosário pela paz. Também temos grupos de oração no WhatsApp. Encorajo a todos a manterem a calma e a rezarem à Virgem por este dom de que todos precisamos.

Vatican News — Qual a importância da devoção a Nossa Senhora da Arábia nesse contexto?
Dom Eugene Nugent — Nossa Senhora da Arábia é fundamental; nossos fiéis têm profunda devoção a ela. Os muçulmanos também têm grande devoção a Maria, que é mencionada diversas vezes no Alcorão. Neste momento dramático, rezamos muito à Virgem, Rainha da Paz. É por sua intercessão junto a seu Filho que a guerra chegará ao fim.

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