QUARESMA

Jejum é caminho de restauração da ordem interior do homem, diz frei

Frei Jefferson de Sousa, O.Carmo, explica sentido do jejum e como realizá-lo, enfatizando dimensão da conversão durante tempo da Quaresma

Gabriel Fontana
Da Redação

A imagem ilustra duas fatias de pão e uma faca sobre uma tábua de madeira, com uma pessoa com as mãos juntas logo atrás, em gesto de oração.

Foto: congerdesign por Pixabay

Durante o período da Quaresma, os fiéis buscam viver de forma mais intensa o tripé de práticas penitenciais composto pela oração, pelo jejum e pela caridade. Durante esta vivência, podem surgir dúvidas de como viver cada um para fazer tal ascese neste tempo.

Em relação ao jejum, frei Jefferson Ferreira de Sousa, O.Carmo, explica que ele deve ser vivido como um ato de conversão e união com Cristo, não apenas como privação exterior. O carmelita cita São Basílio, que ensina que o jejum vai além da simples privação do alimento, constituindo um caminho de restauração da ordem interior do homem.

O jejum é o começo da vida espiritual, o companheiro da sobriedade e a mãe da pureza.
– São Basílio

“Segundo este grande Padre da Igreja, quando o homem aprende a moderar o corpo, a alma se torna mais livre. O jejum, portanto, não despreza o corpo, mas o orienta para que ele não domine a vida espiritual. O corpo deixa de ser conduzido apenas pelos impulsos e passa a cooperar com a busca de Deus”, detalha o sacerdote.

Desta forma, prossegue frei Jefferson, o jejum cria uma verdadeira harmonia entre corpo e alma: o corpo aprende a renunciar e a alma aprende a desejar mais intensamente a Deus; abre-se espaço no coração para o Senhor, permitindo que Sua graça transforme a vida.

Espírito de jejum

Para o jejum, a Igreja prevê formas concretas, como o jejum alimentar tradicional, que é obrigatório na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa (Código de Direito Canônico, cân. 1251-1252). Por outro lado, também são reconhecidas outras formas de jejum, como renunciar a certos alimentos, hábitos, prazeres ou comodidades, oferecendo esse sacrifício a Deus.

A imagem ilustra um homem branco de cabelos castanhos e barba e bigode curtos, usando óculos e hábito religioso.

Frei Jefferson de Sousa, O.Carmo / Foto: Arquivo pessoal

“Assim, existem diversas formas de jejum, desde que sejam vividas com espírito de penitência, oração e caridade. Devemos escolher um jejum prudente e sincero, adequado à nossa realidade, que nos ajude verdadeiramente a crescer na liberdade interior, a dominar os próprios desejos e a abrir espaço para Deus e para o amor ao próximo”, afirma o religioso.

No tempo quaresmal, a Igreja convida os fiéis a prolongarem o espírito penitencial. Assim, o jejum pode ser assumido como prática voluntária. Contudo, a Igreja, como mãe, também compreende as realidades e as necessidades de cada um de seus filhos. Por isso, quando alguém está impossibilitado de realizar o jejum por motivos de saúde ou outras limitações, não deixa de participar do espírito penitencial da Quaresma.

“Nesses casos, o fiel pode viver a penitência de outras formas: intensificando a oração, praticando a caridade, realizando pequenas renúncias ou oferecendo a própria limitação a Deus”, pontua frei Jefferson. “Assim, mesmo sem o jejum corporal, permanece o essencial da Quaresma: um coração que busca a conversão e se abre mais profundamente à graça de Deus”, indica.

Práticas de Jejum

No livro Práticas de Jejum, o fundador da Comunidade Canção Nova, Padre Jonas Abib, cita quatro tipos de jejum. O primeiro deles é conhecido como “jejum da Igreja” e especifica que o fiel tome café da manhã normalmente, mas depois faça apenas uma refeição – almoço ou jantar – durante o dia. A terceira refeição pode ser substituída por um lanche simples. Outras guloseimas devem ser evitadas.

A segunda prática de jejum descrita pelo padre Jonas consiste em pão e água. No caso, deve-se comer pão quando sentir fome e beber água quando sentir sede. O terceiro tipo, à base de líquidos, requer que o fiel passe o dia sem comer nada, limitando-se a consumir apenas líquidos, como chás, sucos, água de coco e caldos, além da água.

Por fim, a quarta prática mencionada pelo fundador da Canção Nova é o jejum completo. Neste tipo de jejum, não se come nada, apenas se bebe água. É fundamental que o fiel se hidrate bastante ao longo do dia. Padre Jonas frisa que o objetivo do jejum é refrear a gula e disciplinar o comer.

“Jejum da língua”

Frei Jefferson observa que o espírito do jejum não se limita apenas à comida. “A Quaresma convida o fiel a renunciar a tudo aquilo que pode afastar o coração de Deus, assumindo pequenas privações que favoreçam a conversão interior”, destaca.

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Recordando o convite do Papa Leão XIV aos fiéis para que, nesta Quaresma, abstenham-se de palavras que ferem o próximo, o religioso partilha um ponto importante da espiritualidade carmelitana: vigiar e dosar as palavras. Diz a Regra do Carmo:

“No muito falar não faltará pecado; e quem não se controla no falar acaba por se arruinar. Igualmente, o que fala em demasia prejudica a si mesmo. E diz ainda o Senhor no Evangelho: de toda palavra inútil proferida pelos homens prestarão contas no dia do juízo”. (Regra nº 21)

Tal exortação não é apenas um convite ao silêncio exterior, sinaliza frei Jefferson, mas sobretudo a um silêncio do coração, que educa a pessoa na prudência, na caridade e na justiça fraterna. “A tradição carmelitana sempre compreendeu que a palavra tem peso espiritual: ela pode consolar, edificar e dar vida, mas também pode ferir, dividir e destruir”, comenta.

“O jejum nos ensina a moderar o que consumimos. A abstinência nos ensina a renunciar a algo concreto. Ambos são caminhos que educam o coração, libertam-nos do apego e nos ajudam a caminhar com mais profundidade rumo à Páscoa”, conclui o carmelita.

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