Ao receber membros da Rede Internacional de Legisladores Católicos, Leão XIV destacou desafios éticos e sociais do avanço da inteligência artificial
Julia Beck
Da Redação

Papa Leão XIV /Foto: ALESSIA GIULIANI IPA/Sipa USA via Reuters
O Papa Leão XIV recebeu nesta sexta-feira, 21, membros da Rede Internacional de Legisladores Católicos e destacou a responsabilidade das autoridades diante dos rápidos avanços da inteligência artificial. O encontro integra a reunião anual da organização, que neste ano tem como tema “Dignidade Humana e Inteligência Artificial: Desafios, Oportunidades e Controle”. Ao grupo, o Pontífice ressaltou que o progresso tecnológico precisa ser acompanhado por um profundo discernimento ético, para que a inteligência artificial esteja a serviço da pessoa humana e do bem comum.
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Leão XIV afirmou que o avanço da inteligência artificial coloca a humanidade diante de uma questão moral decisiva: “não apenas o que podemos fazer, mas o que devemos fazer?”. Segundo o Papa, a sociedade pode ser tentada a construir uma nova “Torre de Babel”, na qual o poder, a eficiência e o controle acabam obscurecendo a dignidade da pessoa. Em contrapartida, é possível construir uma civilização na qual a tecnologia contribua para o desenvolvimento integral do ser humano.
Nesse sentido, o Pontífice apresentou os princípios da Doutrina Social da Igreja — a dignidade inviolável de cada pessoa, o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade e a solidariedade — como critérios fundamentais para o discernimento sobre o uso da inteligência artificial.
Responsabilidade dos legisladores
Ao se dirigir aos legisladores, Leão XIV ressaltou que eles estão no centro desse desafio, uma vez que possuem a responsabilidade de estabelecer políticas que orientem o uso da tecnologia em benefício da sociedade. Para o Papa, a tarefa das autoridades não é impedir a inovação, mas “guiá-la com sabedoria”.
O Pontífice defendeu uma legislação capaz de estimular a criatividade científica e tecnológica sem deixar de proteger os direitos e as liberdades fundamentais. Entre as prioridades, citou a proteção dos usuários contra a exploração, a preservação da privacidade, a transparência no uso das novas tecnologias e a garantia de que a inteligência artificial contribua para o fortalecimento das instituições democráticas.
Leão XIV também destacou a necessidade de “quadros legais robustos, supervisão independente, usuários informados e um sistema político que não abdique de sua responsabilidade”. Segundo ele, essa supervisão deve acontecer em diferentes níveis — local, nacional e internacional — para favorecer o diálogo sobre os princípios éticos envolvidos e estabelecer padrões comuns de justiça social.
O Papa alertou ainda para o risco de que os avanços tecnológicos aprofundem as desigualdades entre as nações. Os países mais pobres, observou, podem se tornar cada vez mais dependentes dos mais ricos, fazendo com que a inovação seja utilizada como instrumento de um novo “colonialismo ideológico ou econômico”.
Novas formas de dominação
Outro ponto sublinhado pelo Santo Padre foi o surgimento de formas mais sutis de dominação por meio das tecnologias digitais. O Papa mencionou situações em que algoritmos determinam quem será visto ou permanecerá invisível, plataformas digitais influenciam o discurso público sem a devida responsabilização e trabalhadores têm sua dignidade subordinada à otimização dos sistemas.
Para o Pontífice, essas situações revelam uma nova expressão da antiga tentação humana de dominar sem colocar o poder a serviço dos outros. Como resposta, a Igreja propõe a construção de uma “civilização do amor”, na qual a inteligência artificial seja governada com sabedoria e utilizada de maneira compatível com a caridade, a compaixão e a responsabilidade.
Inteligência artificial e família
Leão XIV dedicou atenção especial aos impactos da inteligência artificial sobre a família, que definiu como a “primeira escola da humanidade”. É no ambiente familiar, explicou, que a pessoa aprende a confiar antes de calcular, a praticar a generosidade antes da competição, o diálogo antes da divisão e o amor antes do poder.
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Por isso, advertiu que a inteligência artificial não deve corroer essa “célula primordial da sociedade”, seja reduzindo pessoas e relacionamentos a dados e simulações, expondo crianças e jovens a conteúdos que distorcem seus desejos ou contribuindo para modelos econômicos que fragilizam a vida familiar.
Diante desse cenário, o Papa encorajou os legisladores a promover políticas que fortaleçam o casamento e as famílias, apoiem os pais em sua missão educativa e permitam que os jovens possam olhar para o futuro com confiança.
Ao concluir, Leão XIV afirmou que o mundo não precisa de uma inteligência artificial que “diminua a humanidade”, mas de uma inteligência humana iluminada pela sabedoria, de uma autoridade política guiada pela consciência e de uma inovação tecnológica orientada pela caridade. “Só então a inteligência artificial deixará de ser uma rival da humanidade e se tornará uma serva do bem comum”, afirmou o Papa.




