Na homilia da Santa Missa em Bamenda, Leão XIV apontou desafios como pobreza e corrupção, mas afirmou que a Palavra de Deus pode transformar a realidade do país
Julia Beck
Da Redação

Papa durante celebração da Santa Missa em Camarões /Foto: REUTERS/Guglielmo Mangiapane
“Venho até vós como peregrino da paz e da unidade, expressando a minha alegria por estar aqui, a visitar a vossa terra e, sobretudo, por partilhar o vosso caminho, os vossos esforços e as vossas esperanças.” Foi com essas palavras que o Papa Leão XIV iniciou a homilia da Santa Missa presidida em Bamenda, nos Camarões, último compromisso público do dia.
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O Santo Padre destacou que as manifestações festivas que acompanham as liturgias, bem como a alegria que brota da oração do povo camaronês, são sinais de abandono confiante em Deus. Segundo ele, a esperança da população é inquebrantável, evidenciada na forma como todos se agarram ao amor de Deus, que olha com compaixão para os que sofrem.
Momento de mudança
“São muitos os motivos e as situações que nos partem o coração e nos lançam na aflição”, afirmou o Pontífice. De acordo com ele, as esperanças de um futuro de paz e reconciliação — no qual cada pessoa seja respeitada em sua dignidade e tenha garantidos os direitos fundamentais — são frequentemente frustradas pelos desafios enfrentados pelo país, como a pobreza, a fome, a corrupção moral, social e política, além das dificuldades nos sistemas educativo e de saúde e da forte migração, especialmente entre os jovens.
A esses fatores somam-se problemáticas externas, como formas de exploração motivadas pelo lucro, que agravam o sentimento de impotência e enfraquecem a confiança. Ainda assim, Leão XIV ressaltou que este é o momento de mudar e transformar a história do país. “Hoje, não amanhã; agora, não no futuro! Chegou o momento de reconstruir, de recompor o mosaico da unidade, valorizando as diversidades e riquezas do país e do continente, e de edificar uma sociedade onde reinem a paz e a reconciliação”, exortou.
Embora reconheça que a situação atual se arrasta há muito tempo, gerando resignação, o Papa destacou que a Palavra de Deus abre novos horizontes, promovendo transformação e cura. Por isso, convidou os camaroneses a se tornarem protagonistas ativos dessa mudança.
Deus em primeiro lugar
“Deus é novidade, Deus cria coisas novas, Deus torna-nos pessoas corajosas que, desafiando o mal, constroem o bem”, afirmou. O Pontífice recordou o testemunho dos Apóstolos na Primeira Leitura, quando, diante das autoridades do Sinédrio, afirmam ser necessário obedecer antes a Deus do que aos homens. Segundo ele, essa coragem se traduz em consciência crítica, profecia e denúncia do mal — primeiro passo para a transformação.
Leão XIV sublinhou ainda que obedecer a Deus não significa submissão que oprime ou anula a liberdade. Pelo contrário, trata-se de um caminho de verdadeira liberdade, que nasce da confiança e da adesão à Palavra, capaz de orientar o pensar e o agir.
Ao mencionar o diálogo entre Jesus e Nicodemos no Evangelho, o Papa destacou que quem coloca Deus em primeiro lugar redescobre a liberdade interior, reconhece o valor do bem, não se resigna ao mal e se torna construtor de paz e fraternidade.
“O consolo para os corações despedaçados e a esperança na transformação da sociedade são possíveis se nos confiarmos a Deus e à sua Palavra”, afirmou. Ele recordou ainda o apelo do apóstolo Pedro: “obedecer a Deus mais do que aos homens”.
Por fim, o Santo Padre ressaltou que a obediência a Deus impulsiona a inculturação do Evangelho e exige discernimento diante de práticas que misturam a fé católica com crenças de caráter esotérico ou gnóstico, muitas vezes associadas a interesses políticos e econômicos. “Só Deus liberta, só a sua Palavra abre caminhos de liberdade, só o seu Espírito nos torna pessoas novas, capazes de transformar este país”, concluiu.
Próximos passos
Nesta sexta-feira, 17, o Papa segue para Douala, ainda em Camarões. Na cidade, preside a Santa Missa no Japoma Stadium e realiza uma visita privada ao Hospital Católico Saint Paul. No início da tarde, retorna à capital camaronesa. A agenda do dia se encerra com um encontro na Universidade Católica da África Central.




