O santuário mariano francês espera cerca de 150 mil pessoas para os diversos momentos da visita do Sucessor de Pedro, nos dias 26 e 27 de setembro
Da redação, com Vatican News

A gruta Gruta de Massabielle, no santuário mariano de Lourdes / Foto: Mentnafunangann por Wikipedia
A poucos dias da visita do Papa Leão XIV a Lourdes, a cidade mariana vive uma intensa expectativa. As inscrições para participar dos principais eventos já foram encerradas e o santuário estima que cerca de 150 mil pessoas estarão presentes nos diferentes momentos da visita pontifícia, nos dias 26 e 27 de setembro.
O programa prevê a oração do Papa diante da Gruta de Massabielle, a celebração da Missa dominical no espaço do santuário, o encontro com os doentes e seus acompanhantes no Accueil Notre-Dame, além da recitação do Rosário e da tradicional procissão mariana à luz das velas. Leão XIV percorrerá, assim, alguns dos lugares que todos os anos recebem cerca de três milhões de peregrinos de diferentes países.
“Há uma grande alegria em nossos corações”, afirma à Agência Fides o padre Jean-Xavier Salefran, sacerdote da Comunidade de Saint-Martin e vice-reitor do santuário. Segundo ele, toda a comunidade de Lourdes está mobilizada para acolher o Papa: funcionários, sacerdotes, religiosos, voluntários, hospitalários e peregrinos.
“Estamos todos conscientes de estar diante de um acontecimento muito importante, não apenas para o santuário, mas para a Igreja na França e para toda a Igreja”, explica. Para o sacerdote, a visita de Leão XIV será um “momento de graça”, em continuidade com as visitas de São João Paulo II e Bento XVI.
A Igreja em sua realidade concreta
Lourdes, porém, não será apenas mais uma etapa da visita do Papa à França. Para o padre Jean-Xavier, o santuário manifesta de maneira singular a realidade concreta da Igreja, reunindo pessoas de diferentes idades, culturas, condições sociais e experiências de fé.
“Em Lourdes, vive-se a experiência da Igreja em sua realidade concreta, do povo de Deus com todos os seus componentes”, explica. Doentes, bispos, famílias, jovens, voluntários, grupos diocesanos e peregrinos provenientes de numerosos países encontram-se no mesmo espaço.
A diversidade também se expressa nos gestos de devoção. É possível encontrar peregrinos asiáticos com seus trajes tradicionais, pessoas que vão à fonte associada às aparições e mulheres muçulmanas que rezam diante de Maria. Para o vice-reitor, essa variedade representa também uma responsabilidade missionária.
O desafio consiste em oferecer a cada pessoa, com simplicidade, os sinais e a linguagem da fé. Tocar a rocha da Gruta de Massabielle, beber a água da fonte, acender uma vela ou participar de uma procissão são gestos simples, mas que envolvem corpo e espírito.
Essas práticas, ressalta o sacerdote, não são experiências isoladas. Inserem-se em um caminho eclesial que pode conduzir o peregrino a uma compreensão mais profunda da fé e, para alguns, a um reencontro com a vida sacramental.
Bernadette, testemunha que continua falando
Nesse caminho, a figura de Santa Bernadette Soubirous permanece central. A jovem que testemunhou as aparições da Virgem Maria em 1858 continua sendo uma referência especialmente para os jovens e para aqueles que atravessam situações de sofrimento.
Bernadette conheceu a pobreza, a doença, a falta de instrução e a incompreensão de muitos diante de sua experiência. Por isso, sua história pode tornar-se uma porta de entrada para aqueles que chegam a Lourdes carregando suas próprias feridas.
“Uma porta de acesso são justamente as provações atravessadas por Bernadette”, observa o padre Jean-Xavier. Ele destaca também a franqueza, a pureza e a coragem da jovem ao testemunhar aquilo que acreditava ter visto e ouvido.
Contar sua história e recordar as palavras atribuídas à Virgem Maria já constitui, segundo o sacerdote, uma forma de catequese. A vida de Bernadette ajuda os peregrinos a compreender que Lourdes não é simplesmente um lugar turístico ou de devoção, mas um espaço de encontro com uma mensagem de fé.
Em busca de algo verdadeiro
Muitos dos que chegam ao santuário, observa o vice-reitor, não fazem parte de peregrinações organizadas. São pessoas sozinhas, famílias, jovens ou visitantes que chegam movidos por uma necessidade interior.
“Vêm porque precisam de algo verdadeiro, de algo sólido”, afirma. Alguns permanecem inicialmente diante da Gruta, observam, escutam ou realizam um simples gesto de oração. Outros começam um caminho mais profundo de descoberta dos símbolos de Lourdes.
Esse percurso pode conduzir ao encontro pessoal com um sacerdote e ao sacramento da Reconciliação. “Temos muitíssimas pessoas nas confissões”, conta o padre Jean-Xavier, que vê nesse movimento um sinal de uma busca contemporânea por misericórdia, paz interior e reconstrução da própria vida.
Ele recorda o caso de um homem que chegou a Lourdes de bicicleta depois de atravessar numerosas dificuldades. O peregrino lhe disse que precisava “reconstruir sobre algo verdadeiro, sólido”. Depois de deixar ali o próprio fardo, partiu com a sensação de estar “aprendendo novamente a viver”.
São experiências que revelam, segundo o sacerdote, as diferentes formas de cura que acontecem em Lourdes. Nem todas são físicas. Muitas dizem respeito às feridas interiores e espirituais que as pessoas carregam.
Os doentes no centro
Um dos momentos mais significativos da visita de Leão XIV será o encontro com os doentes e seus acompanhantes no Accueil Notre-Dame, estrutura destinada especialmente aos peregrinos que necessitam de assistência.
O padre Jean-Xavier espera que os gestos do Papa reafirmem “a importância e o lugar das pessoas vulneráveis, das pessoas doentes, no coração da Igreja e no coração do mundo”.
A mensagem ganha particular relevância em uma sociedade marcada pelo culto à eficiência, pela solidão e pelo medo da vulnerabilidade. Lourdes oferece uma perspectiva diferente: os doentes não são pessoas que devem ser afastadas, mas podem ensinar algo essencial sobre a própria condição humana.
Essa lógica está presente também no serviço dos hospitalários e voluntários. Em Lourdes, muitas vezes, a diferença entre quem ajuda e quem recebe ajuda torna-se menos nítida. Quem chega para servir aos doentes pode descobrir suas próprias fragilidades.
“Quem vem para servir os doentes muitas vezes descobre que também é doente, à sua maneira”, observa o vice-reitor.
Uma Igreja que acolhe e acompanha
A experiência de Lourdes, portanto, não se resume a um programa pastoral. Ela se expressa sobretudo em uma presença: a de uma Igreja que acolhe, escuta, acompanha, reza e serve.
A visita de Leão XIV deverá colocar em evidência justamente essa dimensão. Ao encontrar os doentes, o Papa estará diante de uma comunidade na qual a fragilidade humana não é escondida, mas acolhida como parte fundamental da experiência cristã.
Em Lourdes, os papéis também podem se inverter: os saudáveis descobrem suas próprias feridas; os doentes encontram força e esperança; os voluntários percebem que também precisam ser cuidados; e os peregrinos descobrem que sua busca por respostas pode transformar-se em um caminho de fé.
É essa Igreja concreta, feita de pessoas diferentes e reunidas ao redor da oração, da misericórdia e do serviço, que Leão XIV encontrará em Lourdes. Um lugar onde, há quase dois séculos, milhões de pessoas chegam com suas dores, perguntas e esperanças.
E talvez seja justamente essa a mensagem mais profunda que Lourdes continua a oferecer: ninguém deve ser colocado à margem por causa de sua fragilidade. A pessoa ferida, doente ou vulnerável não está fora do centro da Igreja. Ao contrário, ela recorda à comunidade cristã que é precisamente nas feridas humanas que pode nascer uma renovada esperança.




