O secretário de Estado do Vaticano fez uma intervenção em Sacrofano na Cátedra de Acolhida, evento formativo e cultural que chegou à sua quarta edição
Da redação, com Vatican News

Cardeal Pietro Parolin em entrevista / Foto: IMAGO-Andrea Calandra via Reuters
Os jovens, vítimas de conflitos, obrigados a lutar na Ucrânia ou em regiões africanas. Os jovens, presas fáceis do extremismo e de outras “tentações” por não terem oportunidades. Os jovens que não têm filhos por medo, que se queixam de inadequação diante das pesadas responsabilidades impostas ou que se abstraem da realidade e se refugiam no mundo virtual. Os jovens migrantes não integrados, aqueles que se queixam da falta de diálogo e de escuta ou que têm dificuldade em encontrar a sua identidade, incluindo a identidade cristã. É a esses jovens que é preciso oferecer “perspectivas”, é neles que é preciso “investir” e “torná-los protagonistas” para construir “um futuro de paz”. É o secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, que lança um apelo às novas gerações, hoje sacudidas entre “tensões” internacionais, incertezas, pobrezas antigas e novas. Foi na tarde desta terça-feira, 10, não na cátedra de uma universidade, mas na Cátedra da Acolhida, um evento cultural formativo promovido por alguns movimentos e realidades do Terceiro Setor em colaboração com a Pontifícia Universidade Lateranense, que há quatro anos oferece importantes espaços de diálogo e reflexão sobre temas atuais. No centro do evento deste ano, na Fraterna Domus de Sacrofano, estava o tema Jovens e Igreja. Acolhimentos que geram pertencimento.
Migração e queda da natalidade
A intervenção do secretário de Estado — de volta de uma viagem a Burkina Faso, onde presidiu à ordenação episcopal do novo núncio na República Democrática do Congo e no Gabão, Relwendé Kisito Ouédraogo, seu secretário particular de longa data (“Corremos o risco de ficar retidos devido às tensões”, disse à margem) — deu início aos trabalhos que devem seguir até sexta-feira, 13 de março. Mais do que uma intervenção, foi uma troca de ideias entre o cardeal e o professor Vincenzo Buonomo sobre os cenários em que os jovens estão inseridos, observando as contribuições, constatando as faltas, destacando as dificuldades de presença e ação e os fenômenos que os interessam ou, melhor dizendo, os afetam.
Em primeiro lugar, o da migração e integração dos migrantes: “desafios não resolvidos”, segundo Parolin. Apesar das várias tentativas em diferentes países, são necessárias “mais reflexões e contribuições para encontrar uma solução satisfatória”. Em seguida, o fenômeno da queda da natalidade: “exatamente o contrário do que deveria ser uma abertura para o futuro”. Uma verdadeira “dificuldade em dar a vida” por parte dos jovens, destacou o cardeal. Não que haja que culpá-los numa época como a atual: “a guerra alimenta o medo do futuro e, portanto, a relutância em ter filhos”. Essa preocupação geral corre, porém, o risco de comprometer todas as gerações vindouras. “O medo do futuro, que pode ser de sofrimento e tribulação, influencia a relutância em ter filhos”, sublinhou o cardeal, “quando o filho é visto como um peso, como um limite à própria liberdade, não haverá novos nascimentos”. “Qual é o valor supremo? A auto-realização? Ou a doação de si mesmo?”, questionou Parolin. “Se o filho é percebido como um limite ao próprio sucesso social, não se abre caminho para a vida que nasce”.
O perigo dos extremismos
Certamente, o fenômeno é “típico do mundo ocidental”, observou ainda o cardeal; a África, por outro lado, “está crescendo a ritmos exponenciais”. A esses jovens, porém, “é preciso dar perspectivas de futuro, porque quando não têm possibilidades de educação, de trabalho, de futuro, tornam-se vítimas dos extremistas, tornando-se presas fáceis dessas tentações”. Por outro lado, isso é frequentemente observado: “são justamente os jovens que lutam, que vão para a linha de frente”, observou o cardeal, citando o exemplo das “muitas guerras esquecidas que são travadas na África”, mas também na própria Ucrânia.
Mais espaço nas instituições
Paralelamente a tudo isso, observa-se o fenômeno particular “em que apenas os idosos participam das negociações e tratativas”, quando “os jovens deveriam participar mais, não apenas porque o futuro é deles, mas também porque é justamente dos jovens que podem vir as soluções mais inovadoras”. É por isso que o cardeal Parolin invocou “uma maior abertura das instituições, especialmente das internacionais, à contribuição que os jovens podem dar”. “As instituições internacionais — observou ele — precisam ser renovadas porque o cenário não é mais o da Guerra Fria ou do pós-guerra, e penso que uma reflexão séria deve considerar a contribuição dos jovens. É necessária a presença de jovens bem formados nas instituições”.
Não se sentir à altura
Além da formação, também é necessária proximidade, pois muitos jovens, segundo o cardeal, “vivem uma grande frustração por serem chamados a desempenhar tarefas para as quais não se sentem à altura. Não se sentem adequados”. A solução seria fácil: “seria necessário alguém que os amasse gratuitamente, alguém que os amasse além dos resultados. E nós temos Deus, que nos ama apesar dos resultados”. Portanto, deve-se apresentar aos rapazes e às moças “um Deus que não nos pede para sermos perfeitos, mas que nos ama e valoriza além do que conseguimos fazer”.
Transmitir os valores
É preciso, portanto, um impulso para que os jovens “desenvolvam uma identidade cristã”. E é preciso também reativar aquela “transmissão de valores” que antes envolvia todas as agências educativas: família, escola, paróquia. Hoje, porém, assistimos a uma “realidade fragmentada”, onde “não há mais uma convergência de ação por parte dessas realidades”, observou o cardeal. Muitas vezes, os “inimigos” se encontram “dentro de casa”, disse ele, porque “basta que os jovens peguem um celular para viver uma realidade que não conhecemos”. Então, além da fé e dos valores, são necessárias “figuras com credibilidade” que possam “inspirar a vida dos jovens”.
O compromisso da Igreja
Por parte da Igreja, solicitou o secretário de Estado, deve haver “um duplo compromisso”: em primeiro lugar, “ouvir”, ou seja, “encontrar meios e ocasiões para ouvir os jovens”. Depois, “acompanhá-los no seu caminho, nas suas dificuldades”. “A Igreja pode tornar-se um ambiente em que os jovens de todo o mundo consigam integrar-se mais facilmente”, destacou Parolin. Nesse sentido, “as escolas católicas podem se tornar um instrumento de integração”, mas também, por que não, “as Jornadas Mundiais da Juventude”. “Como católicos — concluiu o cardeal —, devemos nos abrir para ouvi-los, só assim podemos nos abrir para eles e seus coetâneos”.




