Desafios da tecnologia

IA no pontificado de Leão XIV: a ênfase do Papa à alfabetização digital

Inteligência Artificial é citada em vários discursos e mensagens de Leão XIV, que destaca a IA como um grande desafio antropológico da atualidade 

Kelen Galvan
Da redação, com colaboração de Thiago Coutinho

Papa Leão sentado, sorrindo enquanto utiliza um tablet durante um encontro no Vaticano

Foto: Reprodução Vatican Media

Desde o início de seu Pontificado, o Papa Leão XIV demonstrou especial atenção à Inteligência Artificial (IA) e à nova revolução industrial, chamada de Indústria 4.0. A preocupação com os novos desafios que estas realidades colocam chamou o então Cardeal Prevost a seguir na linha do magistério de Leão XIII e o influenciou na escolha do seu nome de pontificado. 

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Segundo ele, o principal motivo dessa escolha foi porque o Papa Leão XIII, com a histórica Encíclica Rerum novarum, abordou a questão social no contexto da primeira grande revolução industrial. “Hoje, a Igreja oferece a todos a riqueza de sua doutrina social para responder a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos da inteligência artificial, que trazem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho”, afirmou no encontro com os cardeais, dois dias após ser eleito Papa. 

“O Papa Leão XIV teve essa sensibilidade muito grande. Logo no início de seu Pontificado ele já falou dessa quarta revolução industrial, que nós estamos vivendo, e esta revolução se chama tecnologia. Estamos falando de internet, inteligência artificial e tantas coisas. Nós temos que ter muita atenção em relação à própria ética e a como administrar totalmente essa realidade. Poderíamos dizer que houve a ‘Rerum novarum’ e agora há uma ‘Rerum digitalis’, em relação ao mundo digital”, afirmou Dom Edson Oriolo, bispo da Diocese de Leopoldina (SP), autor do livro “Inteligência Artificial como Ferramenta de Evangelização”

Responsabilidade e discernimento

Com uma postura firme e cautelosa, Leão XIV reconhece o imenso potencial da inteligência artificial e destaca que seu uso exige “responsabilidade e discernimento para orientar as ferramentas para o bem de todos, a fim de que possam produzir benefícios para a humanidade”. 

Dom Edson Oriolo / Foto: Bruno Marques

Dom Edson explica que a Inteligência Artificial engloba a inteligência artificial convencional (analítica/preditiva) e a generativa (que usa dados para criar algo novo). Ele destaca que a IA é uma máquina que gera conteúdos, mas ela tem que ter o homem como pivô, o primeiro responsável a respeito disso.

Nesse sentido que a Igreja e o Papa têm essa preocupação sobre o conteúdo gerado com a IA. “Quais são os critérios em relação aos algoritmos que vão gerando conteúdos, imagens, textos e tantas outras coisas. É uma inteligência sintética. É uma máquina que está produzindo. É uma coisa boa, mas desde que o homem possa ter o bom senso de discernir o que os algoritmos estão gerando. Não seria substituir o homem, mas otimizar”, destaca o bispo.

Ele enfatiza que a inteligência artificial é fruto da inteligência humana, e elas devem caminhar juntas, em unidade e sincronia. “Na inteligência humana nós temos os princípios, o bom senso e a racionalidade, e nós temos que colocar isso frente ao que a máquina produz. Dar um ‘gosto’ de ética, princípios e valores àquilo que ela está produzindo”.

Desafio antropológico

Em sua Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, em janeiro deste ano, o Papa Leão XIV destacou que o desafio da IA não é tecnológico, mas antropológico. Ele destaca que a tecnologia digital “corre o risco de alterar radicalmente alguns dos pilares fundamentais da civilização humana” e defende que é preciso “preservarmo-nos a nós próprios”.

“Aceitar com coragem, determinação e discernimento as oportunidades oferecidas pela tecnologia digital e pela inteligência artificial não é sinônimo de esconder de nós mesmos os pontos críticos, a opacidade e os riscos”, alerta o Papa.

Com o tema “Preservar vozes e rostos humanos”, o Pontífice  indica que preservar essas duas características que tornam cada ser humano único e distinto, significa preservar o reflexo indelével do amor de Deus. E afirma que, no caso de falharmos nesta preservação, “a tecnologia digital corre o risco de alterar radicalmente alguns dos pilares fundamentais da civilização humana, que por vezes temos como garantidos. Ao simular vozes e rostos humanos, sabedoria e conhecimento, consciência e responsabilidade, empatia e amizade, os sistemas conhecidos como inteligência artificial não só interferem nos ecossistemas informativos, como também invadem o nível mais profundo da comunicação, ou seja, o das relações entre as pessoas”.

Ao comentar a mensagem, Dom Edson destaca que o tema diz respeito também ao que a pessoa transmite, ao que ela fala com dignidade, e a entender que o outro também é imagem e semelhança de Deus. Nesse sentido, ele afirma que “somos adolescentes” diante de toda essa evolução tecnológica.

Ferramenta para a evangelização

O bispo acredita que o uso da IA é um caminho sem volta e a Igreja tem que estar caminhando nesta realidade, que vai continuar em constante evolução. Dom Edson explica que na Igreja há duas balizas, o sacramento e a evangelização, e a IA pode ser uma grande ferramenta para a evangelização.

“Quando a gente fala em mundo digital, aldeia digital, nós entramos na evangelização. Como a ação do Evangelho, como o Evangelho vai chegar no coração de tantas outras pessoas, então nós usamos metodologias técnicas, aplicativos de inteligência artificial.  Mas, quando se fala em sacramento não. O sacramento precisa de presença, precisa da própria pessoa, é diferente”, explica o bispo.

Ele destaca que o Papa Francisco, na Evangelli Gaudium já dizia que a Igreja precisa de novas metodologias e estratégias para lançar a boa nova. “Nós temos uma coisa que se chama ‘good news’, é a boa nova, o Evangelho. Usar dessas metodologias para atingir a inteligência, o coração e a vida de oração das pessoas para viver com o Evangelho”.

Uso da IA não é indicado em homilias e pregações

Em encontro com os padres de Roma, neste ano, o Papa Leão XIV deu recomendações bem específicas sobre a utilização da IA, orientando, por exemplo, a não utilizá-la para preparar homilias, pois esta deve ser fruto de uma experiência de fé. “Peço que resistam à tentação de preparar homilias com inteligência artificial. (…) para proferir uma homilia verdadeira, que seja compartilhar a fé, a IA jamais será capaz de fazê-lo!”, orientou.

Dom Edson explica que a Inteligência Artificial se alimenta de dados, e o relacionamento com ela acontece por meio de comandos (prompts), e ela pode ajudar o ser humano na medida em que é utilizada com um pensamento crítico. Contudo, no caso de conteúdos como uma homilia não é recomendado.

“A homilia precisa de uma intimidade com Deus, uma experiência com Ele. (…) Então, se nós vamos demonstrar uma experiência, nós podemos usar desses mecanismos, mas não deixar que ela possa assumir essa intimidade com Deus”, esclarece.

A própria IA afirma isso. Perguntamos a ela porque não utilizá-la para escrever homilias e a resposta é coerente: “a pregação é vista como um momento de partilha de fé, vivência pastoral e oração, elementos que a IA não pode replicar”.

Além disso, ela indica motivos que desaconselham seu uso nessa realidade:
– Falta de Experiência Espiritual: A IA não possui fé, não ama e não viveu o Evangelho, portanto, não pode transmitir uma experiência espiritual autêntica;
– Ausência de Conexão com a Comunidade: Uma boa homilia exige conhecer a realidade local dos fiéis, algo que algoritmos não conseguem fazer;
– Atrofia Intelectual e Ministerial: A preparação da homilia é um exercício para o intelecto e uma missão pastoral do sacerdote. Se essa “musculatura” cerebral não for usada, ela morre;
– Falta de Unção e Oração: A pregação eficaz requer um tempo íntimo de oração, estudo e “luta com a Palavra”, que a IA substitui por uma produção automática; 
– Conteúdo Impessoal e Genérico: Textos gerados por IA podem soar falsos e superficiais, carecendo da paixão e do contexto real que um pregador humano traz. 

Alfabetização em inteligência artificial

Na mensagem para o Dia das Comunicações Sociais deste ano, o Papa defendeu ainda a urgência de introduzir uma literacia para os meios de comunicação e Inteligência Artificial em todos níveis dos sistemas educativos. O intuito é aprender a lidar com os sistemas de IA como ferramentas e proteger os próprios dados e privacidade.

“O desafio que nos espera não é impedir a inovação digital, mas sim orientá-la, estando conscientes do seu caráter ambivalente. Cabe a cada um de nós levantar a voz em defesa das pessoas, para que estas ferramentas possam realmente ser integradas por nós como aliadas”, explicou o Pontífice.

Dom Edson indica que a formação e o discernimento pessoal de cada um é fundamental. “Nós temos que saber o que é certo e o que é errado. E hoje, neste mundo, nesta geração dos ecrãs virtuais, muitas pessoas não têm aquilo que nós recebemos de valores dentro da nossa vida. Então precisamos estar sempre atentos e analisar com prudência, mesmo sabendo que nós somos adolescentes neste mundo que está evoluindo cada vez mais”, afirmou.

Leão XIV defende que a revolução digital exige uma formação humanística e cultural e explica o objetivo de promover essa educação: “aumentar as nossas capacidades pessoais de refletir criticamente, avaliar a credibilidade das fontes e os possíveis interesses por trás da seleção das informações que nos chegam, compreender os mecanismos psicológicos que elas ativam, permitir às nossas famílias, comunidades e associações a elaboração de critérios práticos para uma cultura de comunicação mais saudável e responsável”.

Na mensagem, o Papa enfatiza a necessidade de preservar a própria individualidade e a contribuição dos católicos para que as pessoas “adquiram a capacidade de pensamento crítico e cresçam na liberdade do espírito”.

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