DIA DO AMIGO

“IA pode aliviar solidão, mas não substitui uma amizade”, afirma psicóloga

No Dia do Amigo, psicóloga e padre refletem sobre o porquê de tantos jovens enfrentarem dificuldades para fazer novas amizades na era da tecnologia

Gabriel Fontana
Da Redação

Foto: Vytautas Markunas via Pexels

O homem é naturalmente um ser sociável, propenso a desenvolver relações com as outras pessoas com quem convive. Para alguns, fazer amizades é uma habilidade natural. Para outros, contudo, esse pode ser um grande desafio cercado por diferentes elementos.

As crianças e jovens dos dias atuais, por exemplo, enfrentam algo completamente novo. Em meio ao avanço tecnológico, a individualização também cresce, o que pode dificultar bastante a criação de conexões reais e de amizades, celebradas no Brasil nesta segunda-feira, 20 de julho — o Dia do Amigo.

Segundo uma pesquisa feita pela empresa Arco Educação, 52% dos jovens relatam ter alguma (ou muita) dificuldade para fazer novos amigos. Entre os motivos para isso, a psicóloga Luana Reis aponta que, embora as redes sociais tenham aproximado as pessoas de forma virtual, elas também reduziram as oportunidades de convivência pessoal, que é onde as relações costumam se fortalecer.

“Além disso, questões como ansiedade, medo de rejeição e baixa autoestima também podem tornar esse processo mais difícil”, cita Luana. Somado a tudo isso há o impacto da pandemia de Covid-19, que diminuiu as oportunidades de socialização justamente em uma fase importante do desenvolvimento de muitos jovens contemporâneos.

Cultura do individualismo

Luana Reis, psicóloga / Foto: Reprodução Instagram

A psicóloga destaca ainda que a sociedade atual valoriza muito a autonomia e o desempenho individual, o que acaba influenciando a forma como as pessoas se relacionam. “Assim como qualquer outro vínculo, as amizades exigem tempo, disponibilidade, diálogo e disposição para lidar com diferenças, frustrações e conflitos. Em um contexto em que as pessoas estão cada vez mais ocupadas e conectadas ao mundo digital, manter esses vínculos pode se tornar um desafio”, analisa.

Luana ressalta que para manter uma amizade é preciso desenvolver empatia, saber ouvir, respeitar limites e também expressar os próprios sentimentos de forma saudável, com interesse genuíno pelo outro. “Essas habilidades não surgem de forma automática; elas são aprendidas e fortalecidas ao longo da vida, especialmente por meio das experiências de convivência”, sublinha.

IA não substitui amizades

Diante das dificuldades que podem ser encontradas durante esse processo, algumas pessoas preferem se isolar, buscando outras soluções. Neste contexto, surge outro dado estarrecedor: a pesquisa citada anteriormente revelou que praticamente um a cada cinco jovens usam ferramentas de inteligência artificial (IA) como companhia quando se sentem sozinhos ou precisam conversar.

“A IA pode oferecer apoio pontual e aliviar a sensação de solidão, mas não substitui uma amizade”, alerta Luana. “Os vínculos humanos envolvem afeto, reciprocidade e convivência, aspectos essenciais para a saúde emocional”, acrescenta.

Neste contexto, a psicóloga assinala que as amizades desempenham um papel essencial na saúde mental e no desenvolvimento emocional. Ter pessoas com quem compartilhar experiências, desafios e conquistas fortalece o sentimento de pertencimento, reduz a sensação de solidão e contribui para o manejo do estresse e da ansiedade.

“Especialmente entre os jovens, as amizades favorecem o desenvolvimento de habilidades como empatia, comunicação, cooperação e resolução de conflitos, além de oferecerem apoio emocional em momentos importantes da vida”, aponta Luana.

“Nós precisamos uns dos outros”

Padre Leonardo Ribeiro / Foto: Canção Nova

Missionário da Comunidade Canção Nova, o padre Leonardo Ribeiro é o atual responsável pela espiritualidade do Polo Educacional Canção Nova. Dessa forma, o sacerdote acompanha os alunos do Instituto e da Faculdade Canção Nova, da Educação Infantil até o Ensino Superior.

Assim como a psicóloga, padre Leonardo reconhece a dificuldade que muitos jovens têm enfrentado para fazer amizades. Ele também cita a tecnologia e a cultura do individualismo como principais obstáculos nesse processo que revela uma verdade acerca do ser humano: a de que precisamos uns dos outros.

“A amizade é necessária para formar um ser humano, nós precisamos uns dos outros no nosso processo de formação humana. A amizade proporciona partilha de vidas, conhecimento um do outro, nos ensina a necessidade de sermos leais e verdadeiros. É um processo de liberdade”, declara o sacerdote.

“O amigo é uma missão”

Padre Leonardo aponta que a tecnologia, por outro lado, tem aprisionado os jovens, levando a uma solidão nociva. Ele observa que todos precisam de momentos a sós, pois a solidão permite que o ser humano adentre em si mesmo. Contudo, isso não substitui a necessidade de ir ao encontro do outro.

Neste contexto, o sacerdote recorda os ensinamentos da Igreja sobre a amizade. Tanto na Sagrada Escritura quanto na vida dos santos, é possível perceber o valor que a amizade tem durante o processo de santificação vivido por cada ser humano. “O caminho não se faz longo quando temos um amigo do lado”, expressa padre Leonardo.

“O amigo é uma missão, alguém que Deus me confiou para que eu cuide porque, antes de mais nada, é um filho de Deus”, prossegue o sacerdote. “Se eu tenho uma pessoa como amiga, se eu cultivei esse laço, eu não posso deixá-la. Eu preciso buscar ao máximo zelar e cuidar por essa pessoa e levá-la para o caminho com Deus”, conclui.

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