CARTA

Papa: em carta, Pontífice reflete sobre o ministério episcopal

Em uma carta aos bispos da América Latina e do Caribe, Leão XIV refletiu sobre o ministério episcopal à luz do rito de acolhida de um bispo em sua catedral

Da redação, com Vatican News

Papa Leão XIV / Foto: Vatican Media – Catholic Press – Sipa USA via Reuters

Cruzar o limiar de uma catedral e de uma nova comunidade que deve ser “percorrida” com o mesmo espírito. Receber o crucifixo e a água benta, sinais de um ministério a ser exercido cuidando da vida interior — que não deve secar devido a medos ou vantagens pessoais. O poder transformador da adoração e o mandato contido nas Cartas Apostólicas como bússola em meio à multidão de vozes que povoam a mente dos fiéis.

Estas são algumas das imagens pelas quais o Papa Leão XIV reflete sobre o ministério episcopal, estabelecendo uma conexão entre a sequência dos ritos de acolhida de um bispo em sua catedral e a missão que lhe foi confiada. Ele o faz em uma Carta Pontifícia publicada hoje, 19 de setembro, dirigida aos bispos da América Latina e do Caribe por ocasião do tricentenário da canonização de seu padroeiro, São Turíbio de Mogrovejo.

Recordando sua própria experiência pastoral compartilhada no Peru — Turíbio, o “Bispo dos Andes”, foi Arcebispo de Lima, a capital peruana —, o Papa reflete sobre o rito de acolhida de cada bispo em sua catedral, comparando-o ao rito de acolhida do bispo quando realiza visitas pastorais às comunidades de sua diocese. É, diz ele, “como se a Igreja quisesse conduzir o prelado, repetidas vezes, de volta ao significado daquela primeira entrada”.

Corações no céu e pés na estrada

O primeiro contato com os fiéis, às portas da catedral, ocorre com uma comunidade cuja caminhada precede a do bispo. Para conhecê-la plenamente, ele é chamado a percorrê-la, tal como São Turíbio, que se preocupava em incluir as línguas locais na evangelização, criando laços com a terra e o seu povo.

“Certos aspectos de uma diocese são difíceis de compreender atrás de uma mesa. Por isso, devemos garantir que as visitas pastorais mantenham a sua vitalidade: saiamos pessoalmente ao encontro das nossas comunidades, escutemos o nosso rebanho e busquemos aqueles que raramente têm a oportunidade de se aproximar do bispo. O ministério de um sucessor dos Apóstolos exige viver com o coração no céu e os pés na estrada.”

Retornando à escola da Cruz

Ainda à porta, prossegue o Papa Leão, o bispo recebe um crucifixo e o beija. É um gesto que constitui uma “promessa de autossacrifício”, um compromisso que São Turíbio vivenciou ao longo de suas viagens e adversidades, aproximando-se dos povos indígenas, “corrigindo abusos” e permanecendo junto aos pobres e aos que sofriam.

“Queridos irmãos, precisamos retornar frequentemente à escola da Cruz. O abandono do rebanho pode começar muito antes de qualquer fuga visível, quando o conforto, o medo ou o interesse próprio se sobrepõem ao bem dos fiéis.”

Santificar e ser santificado

Da Cruz à água benta, que reconcilia o bispo e os fiéis no único Batismo: aquele que santifica — escreve o Papa — continua “precisando ser santificado”.

“Cultivemos, pois, a nossa vida interior e permaneçamos conscientes de que somos discípulos necessitados de conversão.”

Incentivo à Adoração Eucarística

Em silêncio, diante do Santíssimo Sacramento, o bispo reconhece que os pastores passam e mudam, novos desafios surgem e projetos se desenvolvem, mas “Cristo permanece sempre”. O Papa, portanto, exorta os bispos a fazerem da Adoração Eucarística uma “prioridade pastoral”, oferecendo aos fiéis tempo e espaço para encontrar apoio em suas próprias jornadas e abrindo caminhos que “nenhum plano consegue conceber”.

Salvaguardar a unidade

A partir da contemplação, aproxima-se o altar do Senhor, considerado aqui como “Aquele que reúne a Sua Igreja ao seu redor e faz dela um só corpo”. O santo Arcebispo de Lima — observa o Papa — serviu uma Igreja vasta e diversa, empenhando-se em mantê-la unida. É uma responsabilidade que deve ser também salvaguardada hoje, para que “a diversidade das nossas dioceses encontre a sua unidade em Cristo”.

Paciente e enraizado em meio a vozes enganosas

O rito prossegue com a proclamação da Carta Apostólica — a Bula papal pela qual o Papa nomeia o pastor de cada Igreja particular. O bispo não confere a si mesmo essa nomeação, mas a recebe e a exerce em comunhão com a Igreja, comprometendo-se a guardar o seu “bom tesouro”. São Turíbio cumpriu esse dever — observa o Papa — por meio da acolhida do Concílio de Trento, dos concílios provinciais, dos sínodos diocesanos e de seu trabalho catequético.

“Numa época em que tantas vozes reivindicam autoridade sobre a consciência dos fiéis, é dever do bispo oferecer um ensinamento claro, paciente e enraizado nessa comunhão, para ajudar o seu povo a reconhecer a voz do único Pastor.”

Poder bater à porta com confiança

Em seguida, o clero e os fiéis aproximam-se do novo bispo com um gesto de reverência que se transforma em responsabilidade; isso se torna particularmente visível na relação dele com os sacerdotes — unidos a ele de modo “singular” — e na missão confiada à Igreja particular.

O “Apóstolo dos Andes” cuidava deles, e o Papa exorta os bispos a fazerem o mesmo, especialmente durante os primeiros anos de ministério, garantindo que ninguém sinta que só pode procurar o seu pastor “quando há um problema a ser resolvido”.

“A paternidade episcopal é reconhecida, muitas vezes, quando um sacerdote sabe que pode bater com confiança à porta da residência do bispo.”

O lugar essencial da oração

Após as palavras do Evangelho, vêm as do próprio bispo, que se dirige ao seu povo somente depois de ter acolhido, contemplado e escutado. Essa ordem contém uma lição que deve ser sempre recordada.

“Que nenhuma urgência ou tarefa pastoral, por mais necessária que seja, nos leve a negligenciar a oração, que é preparação indispensável para a pregação. Reservemos sempre o tempo necessário para escutar a Palavra e ponderar com cuidado como apresentá-la ao nosso povo.”

Depois da Missa, todos os dias

O rito chega então ao ofertório, momento em que se vislumbra aquilo que o bispo terá de colocar, dia após dia, nas mãos do Senhor: trabalhos, projetos, decisões, pessoas, preocupações e esperanças. “Haverá momentos em que ele verá o caminho com clareza, e outros em que experimentará a sua própria pequenez: tudo isso pode ser colocado sobre a patena. É dever do bispo entregar-se fielmente; o fruto, no final, pertence a Deus.”

A celebração de todos esses ritos deve, em última análise, prolongar-se muito além da Missa, ao longo de toda a vida do bispo, “até que toda a sua existência se torne, em Cristo, uma oferta ao Pai”.

Na “escola” dos bispos da América Latina

Seguindo o exemplo de São Turíbio, o Papa Leão volta o olhar para a “constelação” de bispos que sustentam a geografia espiritual da Igreja na América Latina: os santos Antônio Maria Claret, Ezequiel Moreno, Rafael Guízar e Oscar Romero, e os beatos Juan de Palafox, Jacinto Vera, Mamerto Esquiú, Enrique Angelelli, Jesús Jaramillo e Eduardo Pironio.

O Papa exorta a comunidade eclesial de hoje a aprofundar o conhecimento sobre eles, a fim de compreender como a missão pode assumir diferentes formas, conforme os tempos e as circunstâncias.

A carta conclui confiando a Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira dos povos de língua espanhola, o desejo de “viver a missão que recebemos com renovada fidelidade”.

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