Castel Gandolfo sedia encontro entre vencedores do Prêmio Nobel, especialistas e líderes que discutem o uso consciente da Inteligência Artificial e suas implicações à humanidade
Da redação, com Vatican News

Vencedores do Prêmio Nobel, líderes políticos e especialistas se reúnem em Borgo Laudato si’ para discutir o impacto da IA no mundo contemporâneo / Foto: Reprodução Yotube Vatican News
O Borgo Laudato si’ está sediando, entre 14 e 16 de julho, a Global Nobel Laureates Assembly on Artificial Intelligence and Nuclear War (Assembleia Mundial dos Prêmios Nobel sobre Inteligência Artificial e Guerra Nuclear). O objetivo do encontro é promover um debate construtivo sobre “o futuro da segurança internacional, a governance das tecnologias emergentes, o desarmamento e a construção de uma economia de paz”.
A paz, como destacou na saudação de boas-vindas o pró-prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral e diretor-geral do Centro de Formação Superior do Borgo Laudato si’, Cardeal Fabio Baggio, “não representa simplesmente a ausência de guerra. É uma ordem fundamentada na justiça, na confiança mútua, no respeito ao direito e na dignidade inviolável de cada ser humano”.
A Inteligência Artificial, portanto, torna-se uma ferramenta que deve estar autenticamente voltada para o serviço à pessoa e à paz. “Ela constitui uma oportunidade extraordinária para o progresso da medicina, da pesquisa, da educação, da economia e da cooperação entre os povos. Justamente por isso, ela exige uma reflexão ética proporcional ao alcance de suas consequências”.
Visão ampla
O evento, iniciado na manhã desta terça-feira, 14, foi idealizado por diversas organizações internacionais que atuam nas áreas de desarmamento, gestão de crises humanitárias e estudos científicos de ponta, inspirando-se e alimentando-se da encíclica de Leão XIV, Magnifica humanitas, sobre a proteção da pessoa humana na era da Inteligência Artificial e, como afirmam os organizadores, “insere-se na visão do Pontífice de uma paz desarmada e desarmante”.
No centro do debate destes dias está a busca por um novo paradigma global capaz de conciliar inovação, responsabilidade e ética. O crescimento tecnológico, nos últimos anos, vem recebendo um grande impulso da corrida pelos algoritmos, explicou o núncio apostólico e presidente da Fundação Communis, Cardeal Silvano Maria Tomasi: “a Inteligência Artificial, os sistemas autônomos, as tecnologias quânticas, as capacidades informáticas e as infraestruturas computacionais avançadas estão redefinindo o próprio conceito de segurança”.
Essas inovações técnicas, explicou o cardeal, estão repercutindo em um cenário geopolítico mundial em que “a linguagem da dissuasão voltou a dominar as relações internacionais, as ameaças nucleares são novamente invocadas abertamente e as atuais estruturas de controle de armamentos têm se enfraquecido progressivamente”.
O perigo de Babel
O Cardeal Tomasi afirmou, com preocupação, que os conflitos regionais envolvem cada vez mais as potências globais, enquanto a possibilidade de uma escalada nuclear não é mais vista como um cenário abstrato, mas como um risco concreto e iminente. Citando a Magnifica humanitas, o cardeal quis lembrar que a humanidade de hoje se depara com uma escolha, como, no fundo, aconteceu com todas as gerações: “a de construir uma nova Babel, onde o poder tecnológico se torna um ídolo que promete a salvação, reduzindo, ao mesmo tempo, a pessoa humana a dados, eficiência e controle; ou reconstruir Jerusalém, onde a diversidade se torna comunhão, a tecnologia está a serviço da fraternidade e toda inovação é medida com base na dignidade da pessoa humana, e não na expansão do poder. O Santo Padre nos lembra que a tecnologia nunca é moralmente neutra”.
Rumo à Declaração de Roma
Durante toda a manhã desta terça-feira, 14, houve inúmeras intervenções de vencedores do Prêmio Nobel, especialistas, ex-chefes de Estado e de governo e representantes de organizações da sociedade civil. A tarde continuaram as sessões a portas fechadas, em um processo de escuta e compartilhamento.
Ao final dos três dias de trabalhos será redigida a “Declaração de Roma por uma paz desarmada e desarmante na era da Inteligência Artificial, das armas nucleares e autônomas, dos novos protocolos digitais e dos modelos emergentes de desenvolvimento digital”, que será apresentada no dia 16 de julho no âmbito de um evento solene a ser realizado no Campidoglio. Este documento, segundo informaram os organizadores, “tem como objetivo definir princípios e diretrizes para a governance da Inteligência Artificial, promovendo uma visão da segurança internacional baseada na cooperação, na dignidade humana, no desenvolvimento integral e na paz entre os povos”.
Direitos fundamentais
A convicção de que um algoritmo, capaz de alterar profundamente o modo de viver e trabalhar do ser humano, não pode substituir a capacidade de discernimento humano é compartilhada também pelo pró-prefeito do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, Cardeal Ángel Fernández Artime. Em sua intervenção diante dos palestrantes e convidados internacionais, ele destacou que “o problema não é a tecnologia, mas a orientação que queremos dar a ela. Se não levarmos em conta os direitos fundamentais, corremos o risco de criar sistemas que favoreçam o controle, a manipulação e até mesmo novas formas de desigualdade”.




