MISSA EM LAMPEDUSA

Papa alerta contra indiferença: não há amor a Deus sem amor ao próximo

Ao celebrar a Missa durante sua visita pastoral a Lampedusa neste sábado, 4, Leão XIV exortou fiéis a promoverem o amor e o acolhimento

Da Redação, com Boletim da Santa Sé

A imagem ilustra o Papa Leão XIV, com expressão séria, vestida com paramentos litúrgicos brancos com detalhes azuis, durante a celebração da Missa

Papa Leão XIV denunciou indiferença em sua homilia durante Missa em Lampedusa/ Foto: Vatican Media/CPP/IPA/Sipa USA via Reuters

A Missa celebrada no Campo Esportivo “Arena” marcou o fim da visita pastoral do Papa Leão XIV a Lampedusa, na manhã deste sábado, 4. Ao chegar ao local da celebração, o Pontífice saudou os fiéis presentes durante o giro do papamóvel e, em seguida, presidiu a Missa.

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O Pontífice iniciou sua homilia recordando que os apóstolos de Jesus navegaram pelo Mar Mediterrâneo e experimentaram a hospitalidade dos habitantes das suas ilhas e costas. “O Evangelho ressoa onde os povos se encontram, as pessoas se acolhem mutuamente, as suas experiências se entrelaçam e as diversas culturas dialogam entre si. Em contrapartida, não ecoa onde cada um faz de si próprio uma ilha, onde o contato é evitado e o intercâmbio é interrompido”, assinalou.

Amor e liberdade

O Santo Padre refletiu sobre a parábola do bom samaritano (Lc 10, 25-37, proclamada no Evangelho. Ele apontou que Lampedusa encontra-se em uma estrada tão perigosa como aquela que descia de Jerusalém para Jericó, encontrando milhares de homens que perderam tudo, enquanto outros, sem conseguir chegar onde desejavam, foram acolhidos pelo mar.

Neste contexto, Leão XIV agradeceu aos habitantes da ilha pela proximidade que exercem em relação aos migrantes. “Entre vós, foi o amor que se organizou, aquele amor cuja compaixão — vendo o irmão no mar — é como o primeiro estremecimento, o apelo profundo para ousar aquilo que nunca teríeis pensado”, expressou.

O Papa ressaltou que este acolhimento brota de uma liberdade interior: o amor existe sempre na liberdade e a liberdade está nas decisões. “Há quem opte por não ser próximo e há quem decida não decidir. Os mortos neste mar são vítimas tanto das decisões tomadas como das decisões que faltaram”, denunciou.

Construir a civilização do amor

Listando alguns dos fatores que levam a essa indiferença, o Pontífice citou a discrimanção religiosa. Ele destacou que, na parábola contada por Jesus, um sacerdote e um levita veem o homem caído na estrada, mas decidem não ajudá-lo. “É tempo de reconhecer e afirmar que a pertença religiosa nunca deve tornar-se motivo de discriminação, como se a fé tivesse fronteiras e não fosse, pelo contrário, um chamamento universal à salvação”, apontou.

“Não há amor a Deus sem amor ao próximo”, prosseguiu o Santo Padre, “e não há próximo se eu não me aproximar. Parar, comover-se, inclinar-se, chorar perante a dor alheia – como fez Jesus – significa entrar no movimento do amor, aquele em que Deus se revelou”.

Assim como o bom samaritano, é possível mudar de planos e direção. Recordando a “civilização do amor” proposta por seus predecessores, Leão XIV sinalizou que ela não nasce de um gesto único e espetacular, mas de uma soma de pequenas e tenazes fidelidades, que travam a desumanização.

Desafios para a Europa

O Papa reiterou o apelo histórico que o fenômeno migratório dirige às sociedades europeias, salientando o dever do continente de enfrentar a crise migratória de forma orgânica. Para isso, é necessário inserir os primeiros socorros em um plano estratégico de longo prazo, que permita acolher, proteger, promover e integrar os migrantes e, ao mesmo tempo, trabalhar em prol do desenvolvimento, para que ninguém seja obrigado a emigrar.

O Pontífice alertou ainda que a vocação turística de Lampedusa pode sentir-se ameaçada pelas rotas migratórias e transformar-se em indiferença, ou mesmo em contraposição aos seus aspectos dramáticos. Diante disso, desafiou os habitantes da ilha a levarem quem os visita, mesmo que seja para um período de descanso, a tornar-se mais humano ao confrontar-se com a caridade praticada.

“Existe autêntico descanso onde se redescobre o sentido da vida e existe bem-estar verdadeiro quando a economia é justa e fraterna. Nesta economia, o cuidado pela Criação e pela amizade social fundem-se numa síntese, que hoje a humanidade procura”, indicou o Santo Padre.

“Todos nós temos em Deus um porto seguro”

Concluindo sua homilia, Leão XIV voltou-se à imagem da Nossa Senhora de Porto Salvo, padroeira de Lampedusa, presente no altar, e confiou a ilha à intercessão da Virgem Maria.

“Não nos deixemos dominar pelo medo, mas encaremos as dificuldades do dia a dia como oportunidades e um tempo de testemunho”, exortou o Papa. “Todos nós temos em Deus um porto seguro, e cada comunidade cristã é chamada a ser um reflexo disso mesmo na terra. Que nunca vos falte o alento da fé, da esperança e da caridade”, concluiu.

.: Leia a homilia do Papa Leão XIV na íntegra

Papa Leão XIV diante da imagem da Nossa Senhora de Porto Salvo / Foto: Reprodução Reuters

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