QUARESMA

Esmola: é preciso ajudar quem nos pede o necessário para viver, diz frei

Frei Leandro Costa, OFM, explica sentido da esmola e destaca “calor da caridade cristã”, testemunhado por Claudízio de Paula em seu serviço na Pastoral da Caridade

Gabriel Fontana
Da Redação

A imagem ilustra uma pessoa entregando algumas moedas a outra, em um gesto de esmola.

Foto: Canva

Entre as propostas que a Igreja faz aos fiéis durante a Quaresma está a prática da esmola. O auxílio aos mais pobres e necessitados é uma realidade da vida cristã, recordando os fiéis da dimensão operativa da fé.

Vigário do Santuário Frei Galvão, em Guaratinguetá (SP), frei Leandro Costa, OFM, recorda os ensinamentos deixados por São Tiago em sua carta, na qual escreve que “a fé, se não se traduz em ações, por si só está morta” (Tg 2,17). Segundo o franciscano, se a fé não é vivida nestes termos — que podem ser entendidos como uma parte mais efetiva da fé, ou seja, a caridade —, acaba por se tornar algo abstrato.

O religioso cita ainda a parábola do bom samaritano (Lc 10,25-37). Ele dá destaque às orientações que o samaritano dá ao dono da pensão que hospeda o homem que havia sido espancado, dando uma quantia em dinheiro pelos seus cuidados e garantindo que, ao voltar, pagará o que havia sido gasto a mais.

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“É preciso contribuir com aqueles que nos pedem o necessário para a vivência”, expressa frei Costa. Relembrando os ensinamentos dos Padres da Igreja, ele salienta que aquilo que sobra a uma pessoa é o que falta a outra, sendo necessário compensar essa diferença, mas com discernimento para que também não se fique sem o necessário para si próprio.

Ajuda gratuita, sem juízos de valor

A imagem ilustra um frei franciscano, com o tradicional hábito marrom, e uma imagem branca de Frei Galvão ao fundo.

Frei Leandro Costa, OFM / Foto: Arquivo pessoal

Além da ajuda financeira, a esmola pode assumir outras formas, como uma atenção a ser dada ou uma palavra a ser dirigida a um irmão. “Aquele que é capaz de doar tem que ter o olhar clínico, (…) temos que ver qual é a carência, qual é a vulnerabilidade da pessoa que está à nossa frente, agindo com muita concretude”. Mas o frei acrescenta: “Não imaginemos que a pessoa vai se contentar quando ela precisa de algo para comer ou se vestir, que a nossa palavra vai suprir o desejo material dela”. 

Isso não constitui, contudo, uma espécie de “juízo” sobre o uso que será feito da esmola. “Se a gente ajuizar sobre a vida do outro, dizendo se ele merece ou não, a gente não vai fazer a caridade”, explica o religioso. “O cristão se compromete em prover aquilo que é necessário. O que farão com aquilo que receberam já não cabe ao nosso discernimento e ao nosso julgamento”, complementa.

Para frei Costa, essa espécie de juízo é o que tem desmotivado muitas pessoas a darem esmola. Fundador da Pastoral da Caridade Social da Sé Catedral de São José, em Iguatu (CE), Claudízio de Paula conta que, ao longo dos anos em que trabalha servindo comida a pessoas em situação de rua, já ouviu comentários de que esse serviço “incentiva a permanecerem na rua” e “ajuda a perpetuar a pobreza”.

Nesses momentos, o contador aposentado baseia-se em um trecho do Evangelho de São Mateus: “eu estava com fome, e me destes de comer; (…) todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,35.40). E é fundamentado nessa passagem que ele lança um convite:

“Eu convido a pessoa a juntar-se a nós nesta missão, para assim viver também esta experiência da caridade na prática e, quem sabe, mudar seu pensamento. Normalmente não aceitam o convite. Enfim, a messe é grande, mas os operários são poucos. Poucos, mas felizes”!

Igreja missionária

Claudizio deu início à pastoral junto com sua esposa, Isabel, e o padre José Wallace, o cura da Sé Catedral São José. Depois de começar esse serviço em sua própria casa, Claudízio e Isabel passaram a preparar os alimentos na cozinha da catedral, montada pelo sacerdote. “Com isso a comunidade paroquial se envolveu muito mais nesta obra de caridade, seja doando alimentos, seja ajudando no preparo ou nas visitas às ruas”, relata o aposentado.

É nosso encontro semanal com o Cristo nas ruas. É viver o evangelho na prática!
– Claudízio de Paula, fundador da Pastoral da Caridade Social da Sé Catedral de São José, em Iguatu (CE)

Ele comenta que teve duas grandes motivações para iniciar este trabalho. A primeira foi observar, no dia a dia, a precariedade da vida das pessoas nas ruas. Claudízio entendeu que o serviço a essas pessoas, alimentando-as, tem tudo a ver com o chamado a ser uma Igreja missionária e acolhedora, “que vai em busca dos diversos Cristos que vivem nas sarjetas da cidade e que são quase sempre ignorados e maltratados pelas pessoas”.

O segundo motivo citado pelo coordenador da pastoral foi a morte de seu filho, Claudizinho de Paula, que faleceu aos 19 anos em 2019. “Sua história de fé e de superação virou um livro cuja renda obtida com a venda é toda destinada a estas obras de caridade”, explica o pai.

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Claudízio reconhece o benefício espiritual que obteve a partir do contato com as pessoas vulneráveis que ajuda. “Nossas conversas, nossos abraços, nossa escuta interessada, nossa partilha da palavra de Deus, nossos braços estendidos a eles, transformou-me numa pessoa muito mais espiritualizada e caridosa. O que ganhamos neste relacionamento com eles é infinitamente mais do que o que levamos material e espiritualmente para eles”, conclui.

A iamgem ilustra um grupo de pessoas pegando comida em panelas para montar marmitas para doação.

Pastoral da Caridade Social preparando alimentos para pessoas em situação de rua / Foto: Arquivo pessoal

Calor da caridade cristã

Recordando as palavras do Papa Leão XIV na exortação apostólica Dilexi te, frei Costa sublinha que a esmola não é a principal resposta às necessidades das pessoas vulneráveis. “Se a gente achar que a esmola é a única resposta, nós podemos cair num assistencialismo”, alerta.

A política é a forma mais perfeita da caridade.
– Papa Pio XI

O franciscano afirma que a esmola também tem outras faces, como a luta por políticas públicas que ajudem ainda mais efetivamente os pobres, promovendo a dignidade humana. Ele pontua que a sociedade, às vezes — ou muitas vezes — é injusta, o que demanda uma maior atenção aos mais necessitados.

Frei Costa menciona os profetas do Antigo Testamento, que falavam de justiça, de jejum, de sacrifício que agrada ao Senhor. “Quando nós, enquanto cristãos, nos envolvemos, estamos agindo por meio do profetismo. A esmola no envolver-se é também uma resposta muito concreta e profética”, sinaliza.

O religioso também relembra o ensinamento deixado pelo Papa Francisco, que destacava a dignidade humana e convidava os fiéis a, quando darem esmola, olharem nos olhos de quem estão ajudando. Em um mundo muitas vezes frio — algo próprio do assistencialismo — “a caridade cristã é envolvida de calor, de afeto e de sentido: ela é construtora”, conclui.

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