No Dia Internacional da Mulher, sacerdote destaca que também é papel da Igreja contribuir para uma cultura de respeito e valorização da mulher
Julia Beck
Da Redação

Foto ilustrativa: Canva
Durante seu pontificado, o Papa Francisco recordou em diversas ocasiões que a mulher ocupa um lugar essencial no projeto de Deus para a humanidade. Em uma de suas homilias, o Pontífice afirmou que a presença feminina não pode ser vista apenas de forma funcional, limitada a papéis ou tarefas, mas como um dom que traz harmonia ao mundo. Inspirando-se no relato da criação no livro do Gênesis, ele destacou que a mulher acrescenta à humanidade uma riqueza própria, marcada pela capacidade de ternura, cuidado e amor, contribuindo para tornar a convivência humana mais humana e bela.
À luz dessa visão, o Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, torna-se também um momento de reflexão sobre a dignidade feminina e sobre desafios que ainda marcam a realidade de muitas mulheres, entre eles a violência. No Brasil, o problema permanece alarmante: somente em 2024, foram registrados cerca de 1.450 casos de feminicídio, além de 71.892 registros de estupro — o equivalente a aproximadamente 196 vítimas por dia, segundo dados do Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam), do Ministério das Mulheres. Dados da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do Instituto de Pesquisa DataSenado, revelaram que, em 2025, 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar.
Mestre em Direito Canônico e defensor do vínculo nos Tribunais Arquidiocesanos de São Paulo, Aparecida e Sorocaba, o padre salesiano Paulo Manoel de Souza define a violência doméstica como um pecado grave, pois fere diretamente a dignidade da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus. “Toda forma de agressão — física, psicológica, moral ou sexual — é contrária ao mandamento do amor e à vocação cristã de cuidado mútuo. Quando essa violência ocorre dentro da família, que deveria ser um espaço de confiança e proteção, a gravidade moral torna-se ainda maior”, frisa.
“Toda forma de agressão — física, psicológica, moral ou sexual — é contrária ao mandamento do amor e à vocação cristã de cuidado mútuo”.
Padre Paulo Manoel de Souza
Dia da Mulher e o desafio da violência
O assessor da Comissão Episcopal para a Vida e a Família da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e secretário executivo nacional da Pastoral Familiar, padre Rodolfo Chagas Pinho, condena o fato de algumas leituras de textos bíblicos serem distorcidas para sustentar uma hierarquia de poder dentro do casamento. Segundo o sacerdote, a compreensão católica, à luz do Evangelho e do magistério da Igreja, define que o matrimônio cristão exige reciprocidade e dom, e não dominação.
A Exortação Apostólica Amoris Laetitia (2016), do Papa Francisco, condena a lógica de domínio sobre a mulher como fruto do pecado. O texto, reflete o presbítero, denuncia a persistência de costumes inaceitáveis, incluindo violência vergonhosa, maus-tratos familiares e várias formas de escravidão, que não constituem sinal de força masculina, mas de covardia e degradação. “O documento vai além e condena a violência verbal, física e sexual que contradiz a própria natureza da união conjugal. Então a submissão não pode ser interpretada como autorização para controle, humilhação, isolamento e violência psicológica. Tais práticas negam o sacramento, destrói os cônjuges”.
Padre Rodolfo acrescenta que a violência é totalmente incompatível com a fé cristã e com o Evangelho. “Vivemos em um contexto antropológico delicado de inversão de valores. É necessário lutar contra qualquer forma de violência contra as mulheres (…). Precisamos ser fiéis a Cristo, ao Evangelho, e não a nós mesmos e ao nosso ego”.
Vítima e agressor aos olhos da Igreja
As paróquias também têm um papel importante na proteção das mulheres. Padre Paulo lembra que, muitas vezes, as igrejas locais são o primeiro espaço onde uma pessoa encontra escuta e confiança para falar sobre o sofrimento que vive.
“É necessário lutar contra qualquer forma de violência contra as mulheres (…). Precisamos ser fiéis a Cristo, ao Evangelho, e não a nós mesmos e ao nosso ego”.
Padre Rodolfo Chagas Pinho
Diante disso, ele destaca a importância de que as paróquias sejam um lugar seguro de acolhimento. “Isso significa saber escutar com respeito, levar a sério o relato da vítima e não minimizar a gravidade da violência. O sofrimento não pode ser tratado como um problema privado que deve ser simplesmente suportado em silêncio”, frisa. Outro ponto-chave é a necessidade de orientação correta. “Muitas vezes a ajuda pastoral passa também por encaminhar a pessoa para redes de apoio: acompanhamento psicológico, orientação jurídica e serviços civis de proteção às mulheres”.
“Como comunidade cristã, ainda precisamos amadurecer uma cultura pastoral de prevenção e cuidado. Isso significa compreender que defender a dignidade da mulher e proteger quem sofre violência não é apenas uma questão social, mas profundamente evangélica. Onde a dignidade humana é ferida, ali também a missão da Igreja é chamada a agir com verdade, compaixão e responsabilidade”, reforça o sacerdote.
Do ponto de vista espiritual e pastoral, padre Paulo explica que a Igreja procura acompanhar de modo distinto a vítima e o agressor. “À vítima, a primeira orientação é clara: ninguém é moralmente obrigado a suportar a violência. A Igreja procura oferecer acolhimento, escuta e apoio para que a pessoa possa preservar sua integridade física, psicológica e espiritual. Muitas vezes é necessário também buscar ajuda profissional, jurídica e a proteção das autoridades civis”, destaca.
Ao agressor, acrescenta o sacerdote, a Igreja dirige um chamado sério à conversão. “A verdadeira conversão exige reconhecer o erro, pedir perdão de forma sincera e buscar caminhos concretos de mudança, muitas vezes com acompanhamento psicológico e espiritual. A fé cristã sempre une misericórdia e responsabilidade”.
Proteção da vida
A Igreja não ensina que alguém deva permanecer em uma situação de violência para “salvar o casamento”, explica padre Paulo. A proteção da vida, da integridade física e da dignidade da pessoa sempre tem prioridade. Segundo ele, o próprio Direito Canônico prevê explicitamente a possibilidade de separação quando a convivência conjugal se torna gravemente prejudicial.
“O cânon 1153 estabelece que, quando um dos cônjuges coloca o outro ou os filhos em grave perigo físico ou moral, ou torna a vida em comum excessivamente difícil, o outro tem causa legítima para se separar. Por isso, em situações de violência, a separação pode ser moralmente legítima e, muitas vezes, necessária para proteger a pessoa e os filhos”, complementa.
O sacerdote também esclarece uma distinção que muitas vezes gera dúvidas entre os fiéis: separação e nulidade matrimonial não são a mesma coisa. A separação ocorre quando existe um matrimônio válido, mas a convivência se torna impossível ou perigosa, permitindo que os cônjuges deixem de viver juntos para preservar a segurança e a dignidade das pessoas envolvidas. Já a nulidade matrimonial é um processo no qual a Igreja investiga se o matrimônio foi realmente válido desde o início; caso se comprove que faltou algum elemento essencial no momento do consentimento, pode-se declarar que aquele matrimônio nunca chegou a existir validamente.
Perdão e prevenção
Diante da violência sofrida, muitas mulheres vivem a dificuldade do perdão. Padre Rodolfo reconhece que o perdão não apaga o passado, mas tira do passado o poder de comandar o presente. Perdoar, prossegue o sacerdote, não significa amnésia ou esquecer o que foi sofrido, mas decidir não carregar esse peso. “O perdão é um processo, é um processo de curar uma ferida, um machucado, é uma decisão”, frisa.
Para o presbítero, também é papel da Igreja contribuir para a prevenção e para a educação das novas gerações, promovendo uma cultura de respeito e valorização da mulher. “Precisamos construir uma cultura comunitária de tolerância zero à violência, isso é muito urgente, e denunciar. A comunidade paroquial precisa se organizar para denunciar todas as formas de violência”.
Neste Dia Internacional da Mulher, a reflexão proposta pela Igreja reforça que reconhecer a dignidade feminina também significa enfrentar com seriedade toda forma de violência que fere a vida, a liberdade e a harmonia que, segundo o ensinamento cristão, Deus quis para o mundo.




