Assessor da Comissão de Liturgia da CNBB explica a “espiritualidade primaveril” deste tempo que constitui o sentido da vida da cristã
Kelen Galvan
Da redação

Círio Pascal é símbolo real de Jesus ressuscitado e é aceso em todas as celebrações durante o Tempo Pascal / Foto: Arquivo Canção Nova
O Tempo Pascal é um dos períodos mais importantes para a Igreja Católica, no qual cada fiel é convidado a aprofundar-se no mistério da Ressurreição de Jesus. Esse período tem início no Domingo de Páscoa e se estende por 50 dias, até a Festa de Pentecostes.
“Sendo a Páscoa o centro da nossa fé, o ápice da vida litúrgica e o sentido da existência cristã, ela não chega de improviso na vida da igreja e também não pode ser celebrada apenas num único dia”, destaca o assessor da Comissão Episcopal para a liturgia da CNBB, Frei Luís Felipe Marques, OFMConv., doutor em Teologia Sacramental.

Frei Luís Felipe Marques, OFMConv / Foto: Arquivo Pessoal
Ele explica que a Páscoa vem preparada pela Quaresma, onde durante 40 dias os fiéis se dedicam ao jejum, à penitência e à oração para, com o coração purificado, chegar às celebrações do mistério pascal. “Após esses 40 dias, a Páscoa, de uma potência tão grande, de uma força tão bela, não consegue ser celebrada em um único dia, de tão magnífico e maravilhoso que é este mistério. Por isso, a celebração da Páscoa acontece em três dias solenes (o Tríduo Pascal)” E esta celebração se estende no Tempo Pascal.
Frei Luís Felipe destaca que, os primeiros oito dias após a Páscoa, chamados de Oitava Pascal, podem ser “significados em um único dia”. “A Igreja celebra oito dias solenes, que se estendem para celebrar um único mistério, de tão forte, grande e belo que é este mistério. A cada dia da Oitava Pascal nós ouvimos: ‘hoje é o dia que o Senhor fez para nós. Alegremo-nos e nele exultemos’”.
O sentido de estender essa solenidade é para aprender “a não só contemplar” o mistério da ressurreição pelos ritos, pelas preces, pela leitura da Palavra de Deus, mas também para “fazer da ressurreição o sentido da nossa vida e da nossa existência”, indica o sacerdote. “Que nós aprendamos com o ressuscitado a ressuscitar, a sairmos das frustrações para a esperança, do ódio para o amor, da morte para vida, da guerra para paz. E estendendo-se ainda por 50 dias até o domingo de Pentecostes, nós possamos ser formados a essa vida nova, que vai disponibilizar para nós uma nova criação que é nascida do Alto, do Espírito, para dar vida a cada um de nós”.
Primavera Espiritual
A Páscoa é uma verdadeira primavera espiritual, ressalta o assessor da Comissão de Liturgia da CNBB. Ele explica que essa imagem faz muito sentido, principalmente no hemisfério norte, que corresponde exatamente ao período do fim do inverno rigoroso e o início da primavera.
“A Páscoa exatamente é marcada na sua data a partir da primavera (no hemisfério norte). Não somente nós nascemos para a vida nova, mas todas as coisas, a natureza, os animais, tudo passa a ser novo, tudo passa a nascer novamente. (…) e isso simboliza muito mais existencialmente a visibilidade do mistério Pascal”, esclarece.
Frei Luís explica que aqui no hemisfério sul, onde a estação é outra, utiliza-se essa expressão “primavera espiritual”. “Nós podemos dizer que o Tempo Pascal, para nós, possui uma ‘espiritualidade primaveril’, uma espiritualidade que faz nascer tudo de novo. Então, tudo aquilo que nós nos preparamos, tudo aquilo que nós deixamos cair durante o tempo da quaresma é para fazer brotar uma vida nova, uma espiritualidade nova, uma compreensão nova do Evangelho, uma compreensão sempre mais verdadeira em que nós, filhos cristãos amados do Senhor, possamos produzir frutos de verdade, de justiça e de caridade”.
Ele indica ainda que este tempo pascal vivido na expectativa de Pentecostes é “um tempo próprio forte do Espírito Santo”, e faz nascer em cada fiel “a nova vida, para então gerar novos frutos para Deus, para a Igreja, para os irmãos e para toda a nossa comunidade”.

Foto: Central multimídia Canção Nova
Círio Pascal
O principal símbolo deste período é o Círio Pascal que simboliza a presença viva de Cristo ressuscitado no meio da comunidade. Ele é aceso pela primeira vez na Vigília Pascal e permanece no presbitério durante os 50 dias, sendo aceso em todas as celebrações litúrgicas até o domingo de Pentecostes.
“O Círio Pascal é um símbolo real do Cristo ressuscitado, que vem expresso na sua beleza, na sua grandeza, na sua luz. E por isso o símbolo que nós contemplamos não é a vela, o que nós contemplamos é a luz”, explica.
Ele indica que o Círio acompanha todo o Tempo Pascal como uma “coluna luminosa”, que ilumina a Palavra de Deus e a nossa vida, assim como essa coluna luminosa acompanhou o povo de Deus na travessia pelo deserto, rumo à Terra Prometida (cf. Êxodo 13:21-22).
No Círio estão gravadas uma grande Cruz, na qual são inseridos cinco cravos, simbolizando as cinco chagas de Cristo. Há ainda o ano atual e as letras do alfabeto grego – Alfa e Ômega-, que significa que Cristo é o princípio e o fim de todas as coisas.
Curiosidades sobre o Tempo Pascal
– Cinqüentena Pascal: são 50 dias, entre a Páscoa até a Festa de Pentecostes;
– Oitava da Páscoa: os primeiros oito dias do Tempo Pascal são a Oitava de Páscoa (do domingo de Páscoa ao domingo seguinte);
– Cor Litúrgica Branca: predomina o branco (ou dourado) nas vestes e ambientes, simbolizando pureza, alegria, luz, ressurreição e a glória de Cristo;
– Canto do Aleluia: o “Aleluia” retorna nas celebrações como expressão de júbilo, mas também como o canto dos remidos pelo poder da Cruz. Este hino é cantado diariamente para recordar que somos o povo eleito e remido pelo mistério pascal de Cristo;
– Círio Pascal: é um símbolo real do Cristo Ressuscitado. É aceso na Vigília Pascal e permanece no presbitério durante os 50 dias, sendo acesa em todas as celebrações e apagada apenas no domingo de Pentecostes;
– Atos dos Apóstolos: durante este tempo, a primeira leitura da Missa não é do Antigo Testamento, mas dos Atos dos Apóstolos, narrando a vida da Igreja primitiva;
– Regina Caeli: substitui o Angelus ao meio-dia, sendo uma oração mariana festiva que celebra a ressurreição de Jesus.




