Pregador da Casa Pontifícia reflete sobre São Francisco e lembra que verdadeira autoridade na evangelização é anunciar Cristo com humildade, e não com superioridade
Da Redação, com Vatican News

Padre Roberto Pasoli durante pregação /Foto: IPA/Sipa USA via Reuters
Agir com humildade, reconhecendo a necessidade da sensibilidade do outro; preparar o terreno para o encontro com Jesus; evitar respostas prontas e, em vez disso, suscitar perguntas; abrir espaço para o diálogo e estar disposto a acolher o bem que vem do outro, dentro de um verdadeiro “dinamismo de amor”. Esse é um caminho rico e bem estruturado, centrado na evangelização a partir da experiência espiritual de São Francisco. É essa proposta que o pregador da Casa Pontifícia, padre Roberto Pasolini, apresenta em sua terceira meditação sobre o tema “A missão. Anunciar o Evangelho a toda criatura”, realizada na manhã desta quinta-feira, 20, na Sala Paulo VI, na presença do Papa Leão XIV.
O anúncio do Evangelho, enfatiza o capuchinho, não deve ser feito “a partir de uma posição de superioridade ou de controle”, pois isso correria o risco de traí-lo.
“A nossa autoridade não nasce do nosso cargo, mas de uma vida que aceita entrar nesse dinamismo de amor. Foi o que Francisco intuiu ao chamar seus frades de ‘menores’: atribuindo-lhes não um título, mas um modo concreto de estar no mundo. É justamente essa pequenez, essa humildade vivida, que torna fecundo o anúncio do Evangelho”, reflete.
Evangelho toma forma na vida
A missão, cumprimento da conversão e da fraternidade, nasce do desejo de compartilhar com os outros a experiência e o anúncio do Evangelho, mas tudo provém da Palavra, explica o sacerdote. Segundo ele, não se pode falar verdadeiramente daquilo que ainda não criou raízes na própria vida.
Padre Roberto destaca a importância da paciência para guardar aquilo que foi visto e escutado, permitindo que amadureça na oração até que, antes de se tornar palavra, se torne vida. Ele também alerta para a tentação de “usar as coisas de Deus para buscar aprovação ou reconhecimento”: é necessário proteger o que é precioso, deixá-lo amadurecer e, só então, transformá-lo em testemunho.
“Cristo não é uma informação a ser transmitida, mas um mistério que habita a humanidade e pede para ser reconhecido, para que possa emergir na vida. O Evangelho não se comunica como uma simples notícia; oferece-se como uma vida que lentamente toma forma”, frisa.
Rosto de Deus no centro da evangelização
O capuchinho recorre a um exemplo eficaz para explicar como a presença de Deus no coração humano transforma a vida e a relação com os outros:
“É a experiência de uma mãe: primeiro ela traz o filho dentro de si, dá-lhe tempo para crescer, e só depois o dá à luz. Assim também é a fé. Primeiro Cristo ocupa espaço dentro de nós, em silêncio, na oração, nas escolhas cotidianas. E só depois pode aparecer exteriormente, nos gestos e na forma como nos relacionamos com os outros”.
Padre Roberto explica que é preciso partir sem seguranças, dispondo-se a preparar um encontro que o próprio Jesus deseja realizar. Segundo o capuchinho, o centro do anúncio não está em quem evangeliza, mas no rosto de Deus, que pode ser tornado transparente e acessível com simplicidade. Ele destaca ainda que esse caminho passa por um movimento claro: primeiro deixar-se acolher e, depois, anunciar, sempre reconhecendo o valor do outro. Isso implica, segundo afirma, levar a sério a humanidade de cada pessoa, sua capacidade para o bem e sua abertura.
A pobreza real
O pregador afirma que é necessária “uma pobreza real”, entendida como a capacidade de se apresentar sem ter tudo e sem controlar tudo. Ele reforça que isso implica aceitar depender também da bondade e da sensibilidade dos outros, além de reconhecer que o Reino de Deus já está presente, ainda que de forma oculta, na vida de quem ainda não o conhece.
“Evangelizar, nessa perspectiva, significa dizer aos outros, mesmo sem dizer nada, que é bom que existam, que a sua vida tem valor. Não para confirmá-los simplesmente no que já são, mas para acompanhá-los a reconhecer, pouco a pouco, a verdade e a beleza que carregam dentro de si, sem pressa de conduzi-los às nossas ideias”, ressalta.
As palavras do Papa Francisco sobre a evangelização foram então recordadas: “a Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração”, isto é, quando a presença não sufoca a liberdade do outro, mas a desperta.
Respeito e diálogo
Reconhecer no outro a presença de Deus e aproximar-se com respeito são as condições essenciais para o diálogo, prossegue o presbítero. “Não se trata apenas de saber falar, mas antes de tudo de saber escutar. E, quando chegar o momento, saber comunicar as palavras de esperança que vêm de Deus”. Não dar respostas imediatas, mas saber esperar pelas perguntas, porque é Deus quem “completa o nosso pobre testemunho”.
“Quando as palavras nascem de uma experiência real, elas chegam aos outros. Quando permanecem abstratas e impessoais, não convencem ninguém, nem mesmo nós que as pronunciamos. Anunciar o Evangelho significa aproximar-se com respeito da vida dos outros e reconhecer que, na complexidade de suas histórias, já existe uma busca de sentido, de bem e de verdade”, complementa.
Exemplo de São Francisco
Um episódio marcante da vida de São Francisco recordada pelo pregador é o encontro com o sultão do Egito, Al-Malik al-Kamil, durante a Quinta Cruzada. Embora não haja conversão nem martírio, o encontro se torna um espaço de diálogo e reconhecimento mútuo. Francisco, disse padre Roberto, se apresenta com simplicidade e humildade, sem impor suas ideias, o que permite ao sultão reconhecer nele traços de Cristo e se abrir ao diálogo. Em meio à guerra, ambos descobrem a humanidade um do outro e escolhem a paz.
A partir disso, o capuchinho destaca que o Evangelho não se anuncia para vencer, mas para encontrar. O outro não é um alvo, mas alguém a ser acolhido, respeitando suas diferenças como espaço de ação de Deus.
Nesse caminho, o pregador afirma que evangelizar também significa estar aberto a receber. São Francisco propõe uma atitude de respeito e diálogo — não de fraqueza, mas de escolha livre — reconhecendo o outro como uma vida a ser encontrada, não conquistada.
Por fim, recorda-se que Deus também age assim: não se impõe, mas se oferece. É nesse espaço de acolhimento que o bem emerge e onde, de modo discreto, já está presente o mistério de Cristo.




