CASA COMUM

Laudate Deum: há tempo para mudar, afirma frei sobre crise climática

Dados da Organização Meteorológica Mundial e o pensamento do Papa Francisco reforçam a urgência de uma mudança cultural e ética diante da crise climática global

Thiago Coutinho
Da redação

A Igreja pede cuidados redobrados com a crise ambiental e aumento da temperatura em todo o planeta / Foto: Mike Erskine por Unsplash

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) alerta: a temperatura média global próxima à superfície em 2024 foi de 1,55°C. Trata-se do ano mais quente em 175 anos de registros de observação, superando o recorde anterior, estabelecido em 2023. Os impactos destas mudanças são perceptíveis no mundo todo. Os fenômenos ligados ao clima tornam-se cada vez mais severos: mais chuvas, mais estiagem, mais inundações, mais frio, mais calor.

A Igreja está atenta a estas mudanças. Em 2023, o finado Papa Francisco publicou a encíclica Laudate Deum, texto que tinha como objetivo atualizar a encíclica Laudato ‘Si, sobre os cuidados com a Casa Comum, como Francisco definia.

Em Laudate Deum, o Pontífice alertou que o mundo estava desmoronando e talvez se aproximando de um ponto de ruptura. Diante das estimativas dos danos climatológicos, a pergunta que paira é: ainda há tempo para reverter o atual cenário ou o mundo se encontra em uma fase irreversível?

“Segundo a Laudate Deum, a humanidade está perto de um ponto crítico, mas ainda não passou completamente dele”, afirma, da Terra Santa, Frei Valdir Nunes Ribeiro, OFM. “O Papa afirma que alguns efeitos do aquecimento global já são irreversíveis ou de longa duração, como o degelo de grandes massas de gelo, aumento do nível do mar e eventos climáticos mais extremos. Basta lembrarmos das fortes chuvas Brasil e Espanha ano passado”, constata o religioso.

Há, porém, tempo para mudanças, como o finado Francisco lembrou em seu texto. “Ainda estamos no tempo do cuidado, mas já dentro de um cenário de emergência, no qual parte dos danos terá de ser administrada. Mas, ainda podemos agir conjuntamente”, afirma.

Opiniões negacionistas

Em Laudate Deum, Francisco rebateu opiniões negacionistas sobre o aquecimento global. O texto atribui à intervenção humana como responsáveis nas altas temperaturas que assolam o planeta. “Francisco critica explicitamente as campanhas de desinformação e os interesses econômicos que manipulam dados e os discursos que ridicularizam a ciência climática”, reforça Frei Valdir.

Mas, a Igreja pode ter um papel de destaque no combate a estas informações apresentadas de maneira errônea. “A colaboração entre Igreja e ciência pode ocorrer com sua autoridade moral e científica: a Igreja não substitui a ciência, mas amplifica sua credibilidade moral, lembrando que ignorar os dados climáticos é também uma falha ética”, aponta o frade.

As escolas católicas, universidades e meios de comunicação da Igreja também podem ser um diferencial no combate a estas desinformações climáticas. “A Igreja pode divulgar dados científicos confiáveis; reflexões éticas sobre responsabilidade intergeracional e formação ecológica integral, dentro dos planos pastorais e projetos pedagógicos”, detalha.

Além disso, a Igreja conta com uma presença global, um fator preponderante na promoção da proteção da Casa Comum. “A Igreja mobiliza as comunidades locais, organiza os movimentos sociais e os investidores éticos. Isso cria um clima moral desfavorável ao greenwashing [estratégia utilizada por empresas para criar uma imagem de falsa sustentabilidade]”, afirma o religioso.

Paradigma tecnocrático

Ainda sobre a Laudate Deum, Francisco criticou duramente o que classifica como “paradigma tecnocrático” e a busca infinita por lucro e poder por parte dos grandes conglomerados financeiros e industriais. “A crítica ao ‘paradigma tecnocrático’ é central tanto na Laudato Si quanto na Laudate Deum“, recorda Frei Valdir. “O Papa denuncia a lógica de crescimento ilimitado, o poder desproporcional de grandes corporações e o uso do ambientalismo como marketing”.

Para o religioso, a contribuição ética do documento papal pode criar pressão moral global. Além disso, a Igreja pode mobilizar comunidades locais, organizar movimentos sociais e até mesmo investidores éticos.

Um outro pedido de Francisco na encíclica foi a construção de um sistema multilateral mais forte. “Francisco afirma que o sistema internacional atual é frágil e frequentemente capturado por interesses nacionais”, aponta o frei. “Ele pede organismos multilaterais mais eficazes, mecanismos de decisão vinculantes e a capacidade real de fiscalização e sanções”.

É bom lembrar, porém, que essas mudanças, como salientou Francisco em Laudate Deum, não serão duradouras sem mudanças culturais. É preciso sensibilizar a sociedade para uma mudança de hábitos de consumo sem que isso pareça um sacrifício punitivo, mas sim um ato de amor pela ‘Casa Comum’, como propõe o documento.

“Este é um ponto muito pastoral do pensamento de Papa Francisco”, enaltece Frei Valdir. “A mudança cultural não deve ser apresentada como privação, como sentimento de culpa, ou um moralismo ecológico. Mas como espiritualidade da gratidão e da sobriedade feliz”, finaliza.

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