Há 170 anos em toda a Igreja

Devoção ao Sagrado Coração de Jesus fala ao coração da humanidade

Sacerdote dehoniano comenta a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, tão popular entre os fiéis e celebrada há 170 anos pela Igreja Católica em nível universal

Jéssica Marçal
Da Redação

Uma representação em imagem do Sagrado Coração de Jesus / Foto: Canva

“Jesus manso e humilde de coração, fazei o nosso coração semelhante ao vosso”. Essa tradicional jaculatória (oração curta) já é popular entre os fiéis católicos e costuma ser rezada de forma especial na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, celebrada nesta sexta-feira, 12. Esta é uma data móvel, celebrada sempre na sexta-feira da semana seguinte à Festa de Corpus Christi.

Já na Idade Média havia relatos de santos que cultivavam a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Como festa, foi celebrada pela primeira vez em 1672, com o padre francês João Eudes. Mas foi a partir de 1673, com as aparições de Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque, também francesa, que a devoção começou a se popularizar.

Neste ano de 2026, completam-se 170 anos que o Papa Pio IX estendeu a toda a Igreja a Festa do Sagrado Coração de Jesus. O feito abriu caminho para a consagração do mundo ao Sagrado Coração de Jesus, o que aconteceu em 1899 com o Papa Leão XIII.

São séculos de uma devoção que perpassa a vida de fé de pessoas em todo o mundo. Se o coração já é, por si só, um símbolo universal de compaixão e traduz o que há de mais nobre e profundo no ser humano, quem dirá o coração do próprio Cristo. Daí vem a popularidade dessa devoção, segundo o padre Émerson Marcelo Ruiz, scj. “Ela (a devoção) é popular porque ‘fala ao coração’ do povo de Deus sem empobrecer a fé. Na verdade, fala ao coração da humanidade!”.

As referências a essa devoção na Igreja

Padre Émerson Ruiz / Foto: Arquivo pessoal

O sacerdote trabalha atualmente na Faculdade Dehoniana de Taubaté (SP) e no Centro de Estudos Léon Dehon, que se dedica ao estudo da Doutrina Social da Igreja e da Devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Ele observa que esta devoção oferece práticas simples que a piedade popular acolheu. São exemplos disso a entronização da imagem nos lares, as orações breves ou os hinos.

A devoção também tem ricas referências bíblicas e um componente sacramental, estando ligada à Eucaristia, à confissão e à adoração, especialmente nas primeiras sextas-feiras de cada mês. Além disso, o magistério da Igreja traz contínuas referências à devoção, confirmando-a com vários documentos papais.

“Entre os textos mais importantes, podemos recordar as quatro encíclicas sobre o tema: Annum Sacrum (Leão XIII, 1899), ligada à consagração ao Sagrado Coração; Miserentissimus Redemptor (Pio XI, 1928); Haurietis Aquas (Pio XII, 1956), e Dilexit Nos (Francisco, 2024). Encontramos ainda dezenas de homilias, discursos, cartas e outros textos que demonstram a profundidade e fecundidade desta devoção.”, informa padre Émerson.

O Coração de Jesus e a humanidade ferida 

Celebrar o Coração de Jesus é celebrar o amor infinito de Deus pela humanidade. Mesmo uma humanidade ferida pelo pecado e que, de tantas formas, muitas vezes despreza este sagrado coração, como já havia acontecido na época de Santa Margarida, quando ela recebeu as revelações de Jesus. Em uma dessas aparições, Jesus disse: “Eis o Coração que tanto amou os homens […] e, em reconhecimento, não recebe da maior parte deles senão ingratidões, por meio das suas irreverências e sacrilégios, friezas e desprezos.”

“Se na época de Santa Margarida o desprezo se manifestava na indiferença religiosa e no rigorismo frio do jansenismo, hoje, esse ‘desprezo’ ou  ‘indiferença’ adquiriu roupagens modernas e adaptadas ao nosso tempo”, ressalta padre Émerson.

Um exemplo dado pelo sacerdote é a “indiferença” prática ao amor de Cristo e aos valores do Reino de Deus. Um desprezo que se realiza quando a fé perde incidência pública, ou quando a vida cristã se torna formalista (culto sem conversão de vida) ou, ao contrário, ativista (ação sem oração). “Este desprezo ao coração de Deus se manifesta também quando cresce, sobretudo nas redes sociais, o cinismo moral (defesa da “minha” verdade, sem compromisso com a caridade cristã). Igualmente pode se manifestar em situações em que a Eucaristia deixa de ser o centro da vida paroquial (pouca reverência, pouca adoração, pouca consciência de reparação)”.

Em contraposição a essas realidades, padre Émerson destaca que o culto ao Sagrado Coração de Jesus indica o caminho da reconciliação. “As guerras e as novas formas de ódio nascem da incapacidade de enxergar o outro como irmão. (…) Perante um tecido social que parece envenenado pelo ódio, encontramos na água e no sangue que brotam do coração de Jesus os verdadeiros remédios que curam a sociedade contemporânea dos novos formatos de ódio que a infectam.”

Como viver essa devoção?

Padre Émerson acredita que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus deve ser vivida a partir do que o Papa Francisco indicou na Dilexit Nos. O sacerdote destaca, em especial, dois elementos. O primeiro deles é a sólida vida sacramental. “Confissão e comunhão, adoração, Hora Santa, primeiras sextas-feiras, conversão do lar em um território sagrado onde Jesus reina, leitura bíblica na perspectiva da misericórdia”. Segundo o padre, são práticas tradicionais, um rico tesouro que a Igreja oferece aos devotos do início do século XXI. 

O segundo ponto é um coração aberto ao convite de Jesus. “Uma vida marcada pelas obras de misericórdia, cuidado com os pobres e reconciliação de vínculos.”

Dehonianos: os padres do Coração de Jesus

Na Igreja Católica, existe uma congregação religiosa que tem a devoção ao Sagrado Coração de Jesus como o centro de toda a sua espiritualidade. Trata-se da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus, os dehonianos, fundada em 1878, na França, por uma inspiração do venerável padre Leão Dehon.

Os padres do Sagrado Coração de Jesus buscam servir à Igreja a partir do testemunho do próprio Cristo, tendo o Seu coração como modelo de vida: um coração que ama, sofre e derrama misericórdia.

Foi esse carisma que atraiu o padre Émerson há 33 anos. “Na Família Dehoniana encontrei um caminho formativo que nos conduz a um terno amor a Jesus que se manifesta especialmente na adoração eucarística diária.”, conta.

O modo de vida do padre Dehon constitui outra inspiração para padre Émerson, principalmente sua alegria em presidir a missa e se unir ao sacrifício de Cristo. Era junto ao altar que o sacerdote se sentia em casa, o que é próprio de um dehoniano.

“No altar, um dehoniano encontra seu alicerce e a força que o empurra para além de si mesmo. É assim que procuro viver como sacerdote do Sagrado Coração de Jesus: tornando o altar o centro de gravidade de cada dia.”, finaliza.  

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