Mensagem

Papa: crise ecológica e guerras refletem a desordem do coração humano

Na mensagem para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, Leão XIV destaca a necessidade de conversão para construir a paz e cuidar da criação

Julia Beck
Da Redação

Papa Leão XIV olhando para área verde do "Borgo Laudato Si'", em Castel Gandolfo

Papa Leão XIV no “Borgo Laudato Si'” /Foto: ALESSIA GIULIANIIPA/Sipa USA via Reuters

“Ao celebrarmos este Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, somos mais uma vez convidados a contemplar o dom da vida e a valorizar a terra que a sustenta, pois estas são formas concretas de louvar o nosso Criador”. Foi o que escreveu o Papa Leão XIV na mensagem divulgada nesta quinta-feira, 20, para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, celebrado em 1º de setembro.

O texto tem como tema: “Transformarão as suas espadas em relhas de arados e as suas lanças em foices” (Isaías 2,4). Segundo o Papa, o mundo enfrenta diversas crises e sofrimento humano, ao mesmo tempo em que aumenta a perturbação do equilíbrio da criação. “Estes fenômenos não deixam de estar relacionados: constituem um único apelo à cura e à paz, proveniente dum mundo ferido”. Leão XIV destaca que Deus oferece, em Jesus Cristo, uma paz que o mundo não pode dar. Essa paz, afirma, brota do amor de Cristo e do seu cuidado por cada pessoa.

Guerra fere a harmonia com a criação

O Santo Padre alerta que a promessa de paz contrasta com a realidade de muitas partes do mundo, onde persistem a violência e a guerra. Os conflitos, ressalta, provocam consequências que ultrapassam o campo de batalha. “Ela ceifa vidas, separa famílias e obriga milhões de pessoas a fugir para longe dos seus lares, aumentando assim o medo, a injustiça e a divisão” (cf. Gaudium et Spes, 77-82).

“A guerra deixa também para trás uma destruição social e ecológica que perdura por gerações. Além disso, a interação entre os conflitos armados e a degradação ambiental cria frequentemente um ciclo vicioso, que destrói ecossistemas, contamina recursos essenciais, como o ar e a água, e compromete a segurança alimentar. Isto faz crescer a pobreza, a desigualdade e novas tensões sociais que podem contribuir para o surgimento de mais conflitos”, alerta.

Para Leão XIV, a guerra prejudica pessoas, comunidades e a harmonia com a criação, revelando também uma crise moral e espiritual relacionada ao uso indevido da liberdade e do poder. “A guerra apresenta-se como um contratestemunho do Evangelho da paz”.

Conversão

Diante das crises, o Papa aponta para a necessidade de uma conversão do coração, capaz de gerar maior fidelidade a Deus, amor ao próximo e respeito pela criação. Para ele, a violência, a injustiça e a degradação ecológica estão ligadas a um desequilíbrio que tem raízes no coração humano, centro da pessoa onde convergem razão, desejo, vontade e consciência.

“É aqui que lutamos com desejos contraditórios que existem dentro de nós entre amor e indiferença, verdade e ilusão, justiça e injustiça (cf. Tg 1, 14–15). As feridas da guerra e a degradação da terra estão, portanto, intimamente ligadas à condição do coração humano. Os conflitos que atormentam a humanidade são, em muitos aspectos, a expressão exterior da discórdia e da divisão interiores. Quando o coração está deformado, as relações sofrem e as estruturas que construímos começam a refletir essa desordem”, observa.

O Pontífice afirma que “o que está quebrado à nossa volta também está quebrado dentro de nós”. Por isso, ressalta que a construção de uma sociedade pacífica exige tanto a transformação das estruturas quanto a renovação dos corações.

“As causas profundas dos conflitos e da exploração da criação têm origem numa crise ética e cultural, que inclui a perda do sentido dos limites, a vontade de domínio, a busca do lucro imediato e a incapacidade de reconhecer a dignidade, concedida por Deus a cada pessoa humana”, reflete.

Transformar o mal em vida

O tema da mensagem — “transformar as espadas em relhas de arados” (Is 2,4) — é apresentado por Leão XIV como um chamado às nações e a cada pessoa para transformar o mal em vida. Para isso, afirma, é necessária uma conversão pessoal e coletiva, em colaboração com a graça de Deus.

“Sem esta transformação interior, a paz continuará a ser frágil e de curta duração. Mas, onde os corações se renovam, começam a abrir-se novas possibilidades. O que tem sido utilizado para a destruição pode ser redirecionado para a vida, para o cuidado dos pobres, para a alimentação dos famintos e para a salvaguarda da criação. Este é o caminho da autêntica conversão ecológica, onde os efeitos do nosso encontro com Jesus Cristo se tornam evidentes na nossa relação com o mundo que nos rodeia (cf. Francisco, Laudato Si’, 217). A paz, então, começa no coração e flui para as nossas relações, comunidades e para o mundo inteiro”, ressalta.

Embora reconheça os grandes desafios, o Papa afirma que Deus oferece os meios para a cura e a transformação. “Em vez das armas de guerra, o Deus da paz concede a força para curar, reconciliar e construir uma civilização do amor”.

O Pontífice conclui que é preciso renovar os corações para buscar a paz e cuidar da criação. “Somos chamados a deixar que os nossos corações sejam renovados, para que possamos procurar a paz e cuidar da criação (…). Se assumirmos esta tarefa com humildade e fé, tornar-nos-emos colaboradores na obra divina de renovação. Lenta, mas certamente, passaremos do deserto ao jardim, da divisão à comunhão e da violência à paz”.

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