Mais de 2 bilhões de pessoas vivem sem água potável; Pastoral da Ecologia alerta para a necessidade de superar a visão mercantil do recurso
Thiago Coutinho
Da redação

Em seu tradicional pedido de oração mensal, o Papa Leão XIV pediu uso justo e sustentável da água / Foto: Swanky Fella por Unsplash
Neste mês, a tradicional oração do Papa tem como tema a água. O Pontífice pediu para que os fiéis “rezem por uma gestão justa e sustentável da água, recurso vital, para que todos tenham igual acesso a ela”. E a preocupação do Santo Padre tem motivos: de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 2 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso à água potável. No Brasil, esse número chega a 33 milhões de pessoas.
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A Doutrina Social da Igreja e a encíclica Laudato Si’ tratam a água como um direito humano fundamental e universal. Como reforça Luciano Rodolfo de Moura Machado, pós-graduado em Ecologia Integral pela Universidade Antonianum (Roma), mestre em Ensino e História das Ciências da Terra pela Unicamp e vice-coordenador da Pastoral da Ecologia Integral do Regional Sul 1 da CNBB, a água é um elemento sagrado.
“A espiritualidade cristã a apresenta, por exemplo, como sinal da presença do Espírito Santo, por meio da regeneração que concede a vida plena. A Doutrina Social da Igreja (DSI) nos permite enxergar a água para além de um mero recurso: ela é um bem comum que, por ser indispensável ao cotidiano humano e a todos os seres vivos, precisa ser acessível com qualidade e equidade”, afirma Machado.
O vice-coordenador ainda reforça um aspecto muito importante sobre a água: ela participa da composição da vida em múltiplas etapas. “A vida está interligada em suas várias dimensões pela necessidade da água, seja na manutenção das necessidades corporais, seja na vivência da espiritualidade.”

Leão XIV pede atenção sobre a gestão sustentável da água / Foto: Massimo Valicchia via Reuters Connect
As disparidades
Enquanto certas regiões enfrentam o desperdício, comunidades vulneráveis sofrem com a escassez severa e a falta de saneamento básico. Quais seriam, então, as principais barreiras éticas e políticas que impedem o acesso equânime à água potável no cenário atual? Para Machado, isso tem muito a ver com a percepção errônea de que vivemos em uma sociedade meritocrática.
“Em uma sociedade que não prioriza a garantia das necessidades básicas, a água passa a ser vista como uma mercadoria a ser adquirida — ou seja, cujo acesso deve ser conquistado”, lamenta. “A mentalidade da meritocracia constitui uma barreira ética marcante, refletida na economia liberal adotada politicamente por diversos governos.”
Gestão justa e sustentável
Em seu apelo, o Pontífice foca em uma “gestão justa e sustentável”. A questão que fica é: como governos, iniciativa privada e sociedade civil podem cooperar para evitar que a água seja tratada prioritariamente como uma mercadoria em vez de um bem comum?
“O governo tem o papel primordial de gerir a água como um bem coletivo”, afirma Machado. “Uma das formas de efetivar essa gestão é por meio da participação social promovida pelos Comitês de Bacias Hidrográficas.”
Segundo o vice-coordenador da Pastoral da Ecologia Integral, nesses espaços o debate é coletivo e envolve toda a sociedade. “Toda a sociedade é convidada a compreender a disponibilidade e a qualidade das águas de determinado território, além de incentivar estudos, captação e aplicação de recursos financeiros para a sua preservação”, explica.
A educação ambiental, para além das preces, é também fundamental para a preservação do recurso. Pastorais e movimentos eclesiais podem atuar de forma prática na proteção dos mananciais locais e na conscientização de suas comunidades. Atividades como o plantio de árvores e mutirões de limpeza de rios urbanos são iniciativas que as paróquias podem propor ou às quais podem se engajar.
“No estado de São Paulo (Regional Sul 1 da CNBB), a Pastoral da Ecologia Integral realiza anualmente o curso ‘Água: Fonte de Vida’. A iniciativa busca promover a formação educacional e pastoral a partir da realidade socioambiental das cidades que integram as dioceses, lançando um olhar especial sobre rios, córregos e nascentes. Isso favorece o engajamento comunitário por meio do fortalecimento de lideranças e do diálogo permanente com a sociedade”, detalha Machado.
Traduzir o pedido do Papa
É necessário traduzir o pedido do Papa em mudanças concretas no estilo de vida dos fiéis, promovendo o consumo consciente e o combate ao desperdício no dia a dia. “A ideia de que cada um, ao fazer a sua parte, contribui para o todo é fundamental”, pondera Machado. “As iniciativas individuais de combate ao desperdício, como banhos mais curtos e o reuso da água da máquina de lavar, já são amplamente difundidas. No entanto, tão decisivas quanto as ações individuais são as atitudes cidadãs de fiscalização e acompanhamento das políticas públicas ambientais”, pontua.
É importante, de acordo com Machado, que os cristãos, antes de mais nada, não se esqueçam de agradecer pelo dom da água. “Quando enxergamos a água como uma ‘irmã na criação’ — como ensinou São Francisco de Assis —, tornamo-nos capazes de vivenciar plenamente o mandamento divino de amar o próximo, cuidando dos irmãos mais vulneráveis e de todas as criaturas amadas por Deus, entre as quais a própria água”, finaliza.




