Como lidar?

Ludopatia: entenda causas e impactos do vício em apostas

Psicólogo, padre e sociólogo refletem sobre a realidade desse transtorno no Brasil, que tem crescido com as bets, e as formas de enfrentá-lo

Gabriel Fontana
Da Redação

Foto ilustrativa: Canva

Nos últimos anos, o Brasil tem testemunhado um crescimento vertiginoso das plataformas de apostas online no país. Entre janeiro e setembro do ano passado, o governo contabilizou cerca de 25 milhões de apostadores ativos, parcela equivalente a 12% da população brasileira.

Em meio a tantas pessoas apostando, a problemática do vício em jogos de azar — conhecido como ludopatia — voltou a ficar em evidência. As histórias de perdas e dívidas causadas por apostas têm crescido exponencialmente, gerando um alerta para um problema que atinge diversas esferas da sociedade.

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O sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto lista três motivos que desencadeiam esse fenômeno social. O primeiro é o avanço tecnológico, que migrou os jogos de azar para o smartphone, dispensando o deslocamento e a companhia. Além disso, a aposta ao vivo encurtou o ciclo entre o estímulo e a recompensa a poucos segundos.

A segunda razão citada é econômica e publicitária: as casas de apostas investiram R$2,3 bilhões em mídia só entre janeiro e agosto de 2024 — algo entre 5% e 13% do mercado publicitário nacional. Além disso, usam o futebol, “terreno afetivo mais confiável do brasileiro”, e criadores de conteúdo, pagando de cinco a dez vezes mais que campanhas tradicionais, para atenuar a percepção negativa sobre a jogatina.

O terceiro motivo, de caráter antropológico, tem a ver com o cansaço e a pressão vivida no mundo contemporâneo. “É um esgotamento que não tem contra quem reclamar, porque em boa medida somos nós mesmos que nos cobramos. A aposta oferece exatamente o alívio disso”, afirma Ribeiro Neto.

Um vício que atinge todos

Francisco Borba Ribeiro Neto / Foto: Arquivo pessoal

O sociólogo também apresenta a dimensão econômica desta questão. Dentro do orçamento familiar, ele cita que 23% dos apostadores deixaram de comprar roupas, 19% cortaram gastos no supermercado e, entre as famílias mais pobres, estima-se que até 13% do dinheiro usado para alimentação migre para as apostas.

O setor de varejo estimou R$103 bilhões de perdas em 2024. “Não é dinheiro que desapareceu: é dinheiro que mudou de destino, saindo de milhares de estabelecimentos que empregam para um punhado de plataformas que quase não empregam”, aponta Ribeiro Neto.

Em relação ao Estado, calcula-se que os gastos para lidar com as consequências das apostas chegam a quase R$39 bilhões, dos quais R$30,6 bilhões são ligados à saúde. Por outro lado, apesar da regulamentação das bets e da tributação das plataformas, arrecada-se cerca de R$12 bilhões, dos quais apenas 1% chega ao Ministério da Saúde. “Mesmo em termos puramente contábeis, sem nenhum juízo moral, isso é um mau negócio para o país”, avalia o sociólogo.

Impactos na saúde mental

Gabriel Oliveira, psicólogo / Foto: Arquivo pessoal

A nível individual, os efeitos da ludopatia são devastadores. O psicólogo Gabriel Oliveira aponta que muitas pessoas interpretam as apostas exclusivamente como uma forma de entretenimento ou decisão financeira, e isso pode dificultar a identificação dos sinais de perda de controle.

“A ideia de ‘paro quando quiser’ pode funcionar como uma falsa percepção de controle”, pontua Oliveira. Entre os fenômenos relacionados ao transtorno está a chamada “perseguição das perdas”, quando a pessoa continua apostando, frequentemente aumentando os riscos, na tentativa de recuperar o dinheiro perdido.

Segundo o psicólogo, é importante compreender quais são os gatilhos que mantêm o comportamento do apostador. Para além da dimensão financeira, por exemplo, a incerteza da recompensa desperta a expectativa de que a próxima aposta enfim dará retorno, reforçando esse tipo de ação.

Entre as respostas emocionais e comportamentais que podem ser produzidas pelas apostas, Oliveira cita expectativa, excitação, ansiedade, frustração, alívio após uma vitória e, posteriormente, sofrimento diante das perdas. “O desenvolvimento do transtorno envolve a interação entre processos de aprendizagem, reforçamento, cognições, emoções, características individuais e ambiente”, indica.

A visão da Igreja

O padre Márcio Marcelo Coelho, scj, que atua como professor de Teologia Moral na Faculdade Dehoniana em Taubaté (SP), recorda o que a Igreja ensina sobre os jogos de azar. Segundo o Catecismo da Igreja Católica (n. 2413), embora não sejam contrárias à justiça, as apostas “tornam-se moralmente inaceitáveis quando privam a pessoa daquilo que lhe é necessário para suprir suas necessidades e as dos outros”.

A Igreja também reconhece que “a paixão pelo jogo corre o risco de se transformar em dependência grave”. Em atenção a este problema, o bispo de Frederico Westphalen (RS), Dom Antonio Carlos Rossi Keller, publicou uma nota pastoral sobre a dependência de jogos de azar e a cultura das apostas.

“Diante da gravidade do fenômeno, não posso, como Pastor desta Igreja particular, permanecer em silêncio”, escreve Dom Keller. “A avareza, a cobiça, a ganância desordenada e a busca obsessiva de dinheiro fácil são caminhos que conduzem à ruína espiritual, moral e material, contrários à vontade de Deus e à dignidade do ser humano”, salienta.

Padre Mário Marcelo Coelho, scj / Foto: Arquivo pessoal

Entre os prejuízos espirituais causados por esse vício, padre Mário Marcelo menciona a perda progressiva da liberdade, visto que o apostador já não tem total controle sobre suas ações, e consequências como a compulsão, o vício, a mentira, a ocultação de vívidas, a apropriação indevida de dinheiro, a avareza, a perda da capacidade da caridades e a destruição da esperança.

Acolhimento

Diante dos efeitos causados pela ludopatia, o sacerdote sublinha a importância da prevenção. Neste contexto, aponta que a Igreja pode agir pastoralmente, mas também frisa que “o Estado tem que se envolver nisso”. Por meio de uma legislação própria e da educação para a conscientização, a dependência das apostas pode ser combatida.

Além disso, outra contribuição que pode ser dada pela Igreja é o acolhimento. Tal dimensão é citada também por Ribeiro Neto, que sinaliza como as comunidades podem receber quem passa por esse problema, tantas vezes mantido sob sigilo devido à vergonha e ao sentimento de culpa. “Paróquias, movimentos e grupos não devem se tornar fiscalizadores, devem tornar-se lugares onde a verdade sobre a própria vida seja dizível”, expressa o sociólogo.

“Há exemplos de tantos outros grupos que tratam outras formas de dependência“, acrescenta padre Mário Marcelo, “é o momento também de ter um discurso da compaixão, que vê, percebe, se aproxima, acolhe, ajuda, faz alguma coisa”.

Como tratar a ludopatia?

Oliveira endossa que o tratamento demanda acolhimento, evitando uma abordagem baseada no julgamento. Ele frisa o papel da família, especialmente na identificação precoce dos sinais e na construção de uma rede de apoio, e assinala que “frases como ‘é só parar’ podem aumentar a culpa sem modificar os fatores que estão mantendo o comportamento”.

Neste contexto, Ribeiro Neto alerta para o risco de uma postura moralista, que insinua que o apostador é fraco, ou liberalista, que reduz o problema à escolha da própria pessoa (mesmo com informações e consciência dos riscos, decide apostar). “Não há simetria entre um cidadão e uma plataforma desenhada por engenheiros comportamentais para capturá-lo”, observa.

“Uma abordagem mais adequada é estimular a pessoa a reconhecer os prejuízos e buscar avaliação profissional”, aponta Oliveira. “Quanto mais cedo os sinais forem reconhecidos e quanto mais rapidamente houver intervenção, maior é a possibilidade de interromper o ciclo de prejuízos e construir estratégias alternativas de enfrentamento”, conclui o psicólogo.

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