Beatificação

"Eu fazia jejum para Irmã Dulce conseguir dinheiro", revela amiga

Foi com o ‘Anjo bom da Bahia’ que Iraci Lordelo, de 76 anos, aprendeu o maior mandamento da Igreja na prática: ‘amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo’. Voluntária nas obras de Irmã Dulce desde 1947, a pequena senhora de cabelos brancos e sorriso largo passou boa parte da vida seguindo os passos da religiosa, que será beatificada no próximo dia 22, em Salvador (BA).“Ela sentava no chão com ladrões e doentes para comer com eles. Sua vida é linda e pouca gente sabe como ela sofreu. Mas foi um sofrimento lindo, para o bem dos outros”, ressaltou Iraci, que nasceu em São Félix, a 110 quilômetros da capital baiana.

A voluntária foi para Salvador iniciar os estudos aos 14 anos e não voltou mais. “Eu resolvi ficar porque desde menina gosto de ajudar. A irmã roubou meu coração e eu fiquei presa a ela até hoje, me apaixonei pelo seu trabalho”.

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E não foram poucas as aventuras que Iraci viveu ao lado de Irmã Dulce. As duas andavam pelas ruas com uma carroça e um carrinho de mão recolhendo doentes, distribuindo comida, cortando o cabelo e dando banho nos mais carentes. “Os enfermos ficavam no papelão, não tinha esteira. Tinha mulheres sem seio, com caroços no rosto, crianças e idosos deformados. Mas desde o começo a Providência Divina foi muito grande na vida da irmã, nunca faltou nada”, revelou.

Iraci chegou a profetizar o crescimento das obras sociais de sua amiga, depois que uma das caminhonetes que a religiosa comprou, com tanto esforço, pegou fogo. “Já estávamos com bastante dificuldade, ela chorou e veio me perguntar o que a gente faria. Eu disse a ela: ‘Não chore porque suas obras vão crescer igual areia no mar’”. Para que o consolo se cumprisse, entretanto, a voluntária começou a fazer penitência e jejum. “Eu fazia muito jejum para Irmã Dulce conseguir dinheiro. Eu tanto disse que hoje ela tem essa obra tão grande e linda”, partilhou.

Quem pensa que atualmente Iraci se aposentou está muito enganado. Todos os dias, ela chega por volta das 5 horas no Hospital Santo Antônio, conhecido como o coração das Obras Sociais Irmã Dulce, para arrumar o café dos enfermos e seus acompanhantes. Além disso, ela visita todas as enfermarias, cumprimenta todos os internados e faz um afago, não importa o estado de saúde. “Tem gente que eu aperto a mão e chora na hora. Tem outros que, quando eu pego na mão, já estão morrendo. O amor é a coisa mais sublime do mundo, sem ele não somos nada. Temos que ser instrumentos de Deus para os outros, por isso estou aqui até hoje”, concluiu.

Obras Sociais Irmã Dulce

As Obras Sociais Irmã Dulce (Osid), fundadas em 1959, prestam assistência médica, social e educacional gratuitamente. A iniciativa também promove pesquisas e oferece ensino médico em 13 especialidades. Ao todo, são 17 unidades administradas pela instituição. De 180 mil atendimentos em 1992, ano em que Irmã Dulce morreu, a Osid passou para mais de 5 milhões em 2009.

O carro-chefe das obras é a saúde. O perfil predominante dos beneficiários se concentra nas classes C, D e E, que não têm acesso aos planos de saúde e a consultas médicas particulares. Dados levantados pelo Serviço Social do Hospital Santo Antônio apontam que 60% dos pacientes são analfabetos ou têm apenas o 1º grau incompleto. Cerca de 70% dos pacientes têm renda familiar mensal de, no máximo, dois salários mínimos, sendo que 15% têm renda menor que um salário.

São aproximadamente 1.000 leitos cadastrados para atender a população carente, cobrindo um amplo espectro de patologias clínicas e cirúrgicas e 33 especialidades ambulatoriais. O trabalho em saúde inclui atendimento a idosos, crianças, pacientes cirúrgicos, clínicos, alcoolistas, portadores de necessidades especiais e portadores de anomalias craniofaciais. Desde 2005, a instituição passou a atuar também na gestão de centros de saúde do município de Salvador e hospitais construídos pelo governo do estado.

Na área de educação, o destaque é o Centro Educacional Santo Antônio (CESA), que oferece formação da 1ª à 8ª série do ensino fundamental em regime integral. O projeto também abrange educação tecnológica, arte-educação, iniciação e formação profissional.

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