Intenção de oração do Papa para maio chama atenção sobre a fome que ainda afeta milhões de pessoas; especialistas comentam a problemática
Thiago Coutinho
Da redação

O Papa Leão XIV denuncia a falta de acesso à alimentação básica em seu vídeo mensal de maio / Foto: Joel Muniz por Unsplash
De acordo com estimativas das Nações Unidas, 8,2% da população mundial — cerca de 673 milhões de pessoas — enfrentaram a fome somente em 2024. Esses dados fazem parte do relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo (SOFI) 2025, realizado por cinco agências especializadas das Nações Unidas. No Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de pessoas vivendo sob insegurança alimentar grave caiu 23,5% em 2024, mas ainda somam 6,48 milhões de pessoas nesse mesmo ano.
Pensando neste flagelo que ainda atinge a humanidade, o Papa Leão XIV dedicou a intenção de oração de maio a esta temática. “Milhões de irmãos e irmãs continuam a passar fome, enquanto tantos bens são desperdiçados nas nossas mesas”, disse o Santo Padre em seu vídeo mensal.
Para o doutor em Desenvolvimento Regional pela Universidade de Taubaté (Unitau), o professor José Maurício Cardoso do Rêgo, a “lógica do descarte”, denunciada pelo Sucessor de Pedro em sua mensagem, diz respeito ao nosso sistema econômico que privilegia o acúmulo privado e trata a questão da segurança alimentar como “secundária”. “As políticas públicas, na maioria dos países que apresentam déficit alimentar, são reativas (ajuda emergencial por parte do governo ou de entidades humanitárias) em vez de proativas, planejadas e impactantes como a promoção da reforma agrária, apoio à agricultura familiar, regulação da especulação e segurança alimentar”, avalia.

A socióloga Letícia Ferreira Netto / Foto: Arquivo Pessoal
Já a mestre em Ciências Sociais, a socióloga Leticia Ferreira Netto, aponta uma outra falácia muito propalada pelo senso comum, a de que não há comida para todos. “A falácia é que nós temos, mas não para o luxo de todos”, destaca a especialista. “A lógica da falta é a de que ‘eu preciso garantir o meu e acumular’ é uma lógica da avareza e não do compartilhar. Na questão da fome, as pessoas que têm mais — mais dinheiro e mais poder — até se compadecem de um indivíduo ou outro e ajudam a essas pessoas, mas não são capazes de mudar situações que geram essa situação. A ganância por ter mais é uma fome que não cessa e acaba gerando consequências sociais terríveis”, explica.
Outro aspecto na problemática da fome é a lógica voltada apenas ao lucro que faz com que a comida não seja tratada como um bem comum a todos, mas como uma mercadoria que deve gerar, antes de mais nada, lucro. “A lógica do lucro imediato e da especulação com commodities agrícolas faz com que os preços dos alimentos subam ou desçam independentemente da oferta real, prejudicando populações vulneráveis”, explica o professor José Maurício.
“O Papa Leão XIV chama isso de ‘economia que mata’ — uma economia que descarta vidas humanas porque elas não são ‘rentáveis’”, prossegue. “Por isso, conclama todas as pessoas de boa-vontade a uma conversão: reconhecer que o alimento é um direito, não uma mercadoria, e que descartar quem passa fome é, em última análise, descartar a própria humanidade.”
Fome no Brasil
O Brasil deixou o mapa da fome, mas, ainda existem 6,48 milhões de pessoas que não conseguem garantir comida sobre a mesa. “Os 24,2% dos lares brasileiros em situação de insegurança alimentar revelam que a fome não foi erradicada; ela apenas se tornou menos visível, mais pulverizada e, por isso, mais difícil de mobilizar respostas urgentes”, lamenta o professor José Maurício.
A fome, segundo o especialista, está muita mais próxima da realidade cotidiana do que o imaginado. “Para entendermos o conceito de ‘fome invisível’, é preciso ter em conta que esse fenômeno está mais próximo da nossa realidade que imaginamos: são aquelas situações em que mães pulam refeições para que os filhos comam, trabalhadores que substituem o almoço por café com biscoito e as famílias que comem arroz com sal por dias seguidos, atingindo desproporcionalmente lares chefiados por mulheres negras nas periferias das cidades e espaços rurais”.
“Uma família que vive com a cesta básica não passa fome no sentido de falta total de alimentos, mas está desnutrida por não ter acesso à quantidade total de proteínas, vitaminas e fibras necessárias para o seu bom desenvolvimento”, observa Letícia. “Há comida na casa da pessoa, mas quem consegue sobreviver de macarrão, pão e biscoitos? Então, o corpo não tem material para produzir boa quantidade de energia para trabalhar bem, estudar bem e ter um desenvolvimento saudável. E isso amarra as pessoas a essa situação. Acredito que o melhor para abordar essa fome invisível é tentar mostrar a importância da nutrição balanceada e os impactos sociais e econômicos dessas dietas.”
As crises mundiais e os privilégios de quem acumula
O Programa Mundial de Alimentos (WFP) aponta que em 2026 cerca de 363 milhões de pessoas estão em risco de fome aguda devido aos diversos conflitos e crises climáticas que assolam o mundo. “A lógica da falta não permite que se pense que o compartilhar é possível”, lamenta a Mestre em Ciências Sociais. “Percebemos que o egoísmo no coração influencia muito a política e a distribuição econômica”, acrescenta.
“O apelo do Papa não é uma fala banal”, exalta José Maurício. “Uma exigência moral concreta para a sociedade: é preciso mudar as prioridades políticas — investir na agricultura familiar, na paz, na cooperação e na redução das desigualdades estruturais — para que a fome deixe de ser tratada como uma fatalidade e a comida volte a ser um direito básico, não um privilégio de quem pode pagar”.
Alimento não é objeto de consumo
Como o Bispo de Roma afirma em sua mensagem em vídeo, o alimento não pode mais ser visto como um “objeto de consumo”, mas sim como um direito sagrado reservado a todos. “É preciso apostar em ações comunicativas capazes de promoverem mudanças culturais sólidas, como campanhas de comunicação que conectem o alimento à afetividade, à memória familiar, à saúde e à espiritualidade, bem como reflexões sobre os reais impactos do desperdício para as famílias e a comunidade”, pondera José Maurício.
Para Letícia, observar a natureza com mais apuro pode oferecer uma perspectiva do que são os ciclos naturais, esquecidos pela sociedade. “Quando esquecemos os ciclos naturais, ficamos dessincronizados com a Criação. Qualquer um que já tenha visto uma árvore com frutos, como uma mangueira, por exemplo, não consegue acreditar na escassez. A lógica da falta, da escassez que a propaganda tanto prega, a lógica do ‘é só hoje’, ‘vagas limitadas’, ‘você não pode perder essa promoção’, é uma lógica que não corresponde à prosperidade da criação”, diz a especialista em Ciências Sociais.
Ações da Igreja
No Brasil, a Igreja Católica tem desenvolvido diversas ações de combate à fome. Em 2023, por exemplo, a já tradicional Campanha da Fraternidade trouxe como tema “Fraternidade e Fome” e o lema “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16) que visou combater de forma mais veemente a insegurança alimentar. Foi a terceira vez em 60 anos que o tema foi abordado — em 1985, o tema fora Fraternidade e Fome e o lema “Pão para quem tem fome” e, em 1975, “Fraternidade é repartir” e o lema “Repartir o pão”.
No interior de São Paulo, em São José dos Campos, a Paróquia Nossa Senhora de Lourdes mantém a Obra Social São Lucas. São organizadas festas e outras iniciativas para arrecadar alimentos à população mais carente. A Obra atua na cidade desde 1982 — são mais de quatro décadas oferecendo assistência aos mais vulneráveis. Atualmente, são distribuídas 300 cestas básicas às pessoas mais carentes. Além disso, foi criado um grupo de apoio às mulheres gestantes. São feitos encontros mensais, com a presença de um profissional que orienta as mulheres com os cuidados diários que devem ser tomados.
Por fim, a Obra Social São Lucas ainda disponibiliza cursos de corte e costura, informática e atendimento psicológico com psicólogos voluntários.
Em âmbito nacional, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), junto a outra organizações e parceiros, apoiou uma ampla campanha nacional a favor da redução do desperdício de alimento lançada em 2024. A campanha incluiu a divulgação do Guia “Lugar de comida é no prato” e diversas ações de ativação sobre o tema.



