Dados da saúde pública apontam alta expressiva nos atendimentos por problemas lombares; sintomas como formigamento e perda de força exigem avaliação imediata
Thiago Coutinho
Da redação

Rotina periódica de exercícios físicos, noites de sono tranquilas e controle do peso corporal são algumas dicas para se manter a saúde da coluna / Foto: Sasun Bughdaryan por Unsplash
De acordo com dados recentes da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, houve um aumento de quase 55% nos atendimentos por dor lombar e dor no pescoço na rede pública de saúde. As causas principais são o uso contínuo de celular, o sedentarismo e a má postura. Noites mal dormidas e a falta de ergonomia, com jornadas de trabalho prolongadas e sem pausas ou ajustes adequados, também podem agravar os casos.
Ainda que algumas pessoas encarem essas dores como parte do envelhecimento natural do corpo ou culpem o excesso de exercícios físicos e esforços, o fato é que conviver com esse desconforto não é saudável nem deve ser considerado normal.
Mas como a combinação entre o uso contínuo do celular, o sedentarismo e jornadas de trabalho sem pausas ergonômicas está alterando a biomecânica da nossa coluna no dia a dia?
“O funcionamento da nossa coluna exige uma combinação de elementos para a prevenção de lesões, bem como para evitar o aparecimento de sintomas”, explica Luciano Miller, ortopedista e cirurgião de coluna do Hospital Israelita Albert Einstein. “A falta desses elementos condiciona uma sobrecarga de estruturas que não estão preparadas para recebê-la. O uso contínuo do celular, principalmente em posições em que a cabeça fica abaixada e o pescoço fletido, é responsável pelo aumento da carga sobre componentes da coluna cervical, como discos e ligamentos. Nossa cabeça em posição neutra pesa cerca de 5 kg, porém esse valor pode até triplicar em inclinações de 45 a 60 graus. Essa postura prolongada favorece quadros de dor cervical”, detalha o médico.
O sedentarismo, por sua vez, tornou-se um dos grandes vilões do mundo contemporâneo. Para a coluna, o prejuízo por não se exercitar com regularidade é significativo. “Do ponto de vista da coluna, o prejuízo não é pequeno, já que o disco, o amortecedor natural do nosso corpo, não possui irrigação e nutrição próprias, dependendo do movimento entre as vértebras para receber todo o substrato de que precisa para se manter saudável”, descreve o ortopedista. “Um corpo sedentário condiciona o nosso disco ao envelhecimento precoce e à suscetibilidade a lesões e, consequentemente, à dor”, acrescenta.
Automedicação
Muitas pessoas convivem com o incômodo na coluna usando analgésicos por conta própria. Em algum momento, no entanto, essa dor deixa de ser uma fadiga muscular passageira e passa a exigir avaliação ortopédica. Alguns sinais perceptíveis surgem quando a dor irradia para as pernas, acompanhada de formigamento e até perda de força — o que pode indicar um problema mais grave, como uma hérnia de disco.
“É importante respeitar os sinais do próprio corpo”, alerta Miller. “A dor é um sinal de alerta, e sua permanência por período superior a duas semanas, mesmo com o uso de analgésicos, ou quadros de dores que irradiam pelos braços ou pernas, associados a queixas de formigamento e/ou perda de força, necessitam da avaliação de um especialista em coluna.”
Outros sinais podem indicar complicações severas, como dor incapacitante (na qual o indivíduo não tem autonomia para se locomover), perda de sensibilidade ao toque na região íntima ou perda do controle de necessidades fisiológicas, como urina e fezes. “Nesses casos, o atendimento deve ser imediato”, adverte o ortopedista.
Abordagens terapêuticas
Diante de um diagnóstico de dor crônica na coluna, existem abordagens terapêuticas eficazes. É fato, porém, que o tratamento conservador — com fisioterapia, fortalecimento e ajustes de hábitos — resolve a maioria dos casos.
“O tratamento conservador é o padrão-ouro para quadros de dores crônicas”, assegura Miller. “É importante salientar que tratamento conservador não é ‘ausência de tratamento’, mas sim a adesão a um protocolo bem estabelecido, com cuidados de fisioterapeutas, educadores físicos, psicólogos e médicos fisiatras, além do cirurgião de coluna”, detalha.
O trabalho em caráter sinérgico desenvolvido por uma equipe multiprofissional adequada, com exercícios bem direcionados, liberação miofascial, analgesia local e terapia, faz parte de um tratamento conservador bem executado, afirma Miller. “A intervenção cirúrgica fica reservada para casos em que o paciente apresenta quadro de compressão dos nervos ou da medula, instabilidade comprovada por um especialista ou falha do tratamento conservador executado por pelo menos três meses”, reitera.
Ajustes no trabalho
Para quem trabalha horas sentado ou precisa passar muito tempo em frente às telas, alguns ajustes práticos na estação de trabalho, na qualidade do sono e na rotina de pausas são indispensáveis para prevenir crises e manter a saúde da coluna em longo prazo.
“Adaptações de postura e hábitos de vida são fundamentais para todos os indivíduos”, crava o ortopedista. “No trabalho, é importante que o ambiente seja sob medida: cadeira com apoio lombar, altura em que o tornozelo e os joelhos fiquem em posição de 90 graus de inclinação, colunas lombar e dorsal bem apoiadas (com inclinação próxima à posição neutra), telas na altura dos olhos para evitar a flexão prolongada do pescoço e pausas a cada 40 minutos, pelo menos.”
Outros detalhes importantes para uma coluna saudável envolvem uma rotina de atividade física, noites de sono reparador com 8 horas de duração e controle do peso corporal por meio de uma dieta adequada. “Detalhes que devem fazer parte do itinerário de qualquer paciente”, finaliza Miller.