Vocação sacerdotal

Psicólogo frisa atenção para com saúde mental também dos padres

Sobrecarga de tarefas e solidão afetam a saúde dos presbíteros; psicólogo para a necessidade de redes de acolhimento sem tabus

Thiago Coutinho
Da redação

Solidão e o excesso de trabalho paroquial podem levar os sacerdotes a uma exaustão emocional / Foto: Nazim Coskun por Unplash

Em seu relatório publicado em 2023, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou que 70% dos sacerdotes enfrentam cansaço frequente e quase metade se sente emocionalmente sobrecarregada. Esse esgotamento envolve diversos fatores — como a sobrecarga administrativa, a solidão paroquial e as demandas ilimitadas dos fiéis —, gatilhos que levam os sacerdotes à exaustão mental e os fazem recorrer à ajuda profissional.

“Os gatilhos do esgotamento sacerdotal são diversos, mas geralmente nascem de um descompasso entre uma doação sem limites e a própria fragilidade humana”, explica Wellington Heleno da Silva, psicólogo, psicanalista e presidente do Instituto Acolher (ITA), que há 25 anos se dedica à assistência psicológica e à integração espiritual de religiosos, sacerdotes e leigos. “Muitas vezes, o padre exige de si mesmo a imagem de uma figura forte, sempre disponível e quase onipotente, enquanto se esquece de que também é um ser humano, com limites, fragilidades e necessidades. A distância entre esse ideal e a realidade concreta produz um desgaste profundo”, detalha.

Além dos aspectos citados pelo especialista, as exigências burocráticas da administração paroquial agravam o quadro. Somadas à solidão que a vida eclesiástica muitas vezes traz, elas tornam a exaustão física, mental e emocional mais aguda. “Além disso, o peso de acolher as angústias de toda uma comunidade pode levar ao adoecimento, especialmente quando o sacerdote não encontra espaços adequados para cuidar de si mesmo.”, pontua o psicólogo.

Rede de acolhimento

As dioceses têm se estruturado na prática para oferecer redes de acolhimento psíquico e humano aos presbíteros. A Diocese de São João da Boa Vista (SP), sob a liderança do bispo diocesano Dom Eugênio Martins Barbosa, por exemplo, oferece suporte psicológico, momentos de reflexão, encontros formativos e atividades de qualidade de vida para os membros da Igreja.

“Ainda assim, percebemos que a busca por ajuda psicológica parte, na maioria das vezes, do próprio padre. Isso mostra que muitas dioceses ainda não possuem uma gestão estruturada da saúde mental capaz de orientar melhor os sacerdotes sobre os tipos de ajuda disponíveis”, pontua o presidente do Instituto Acolher.

Apesar disso, a presença de profissionais da Psicologia em muitos seminários religiosos e diocesanos já é uma realidade. “Congregações e casas de formação têm investido de modo preventivo na saúde mental de seus membros. Essa iniciativa ajuda a romper o tabu de que o psicólogo é apenas para quem está ‘louco’ ou para quem é considerado frágil. Muitas vezes, o padre que adoece emocionalmente ainda é visto como alguém fraco, quando, na verdade, buscar ajuda é um gesto de responsabilidade e cuidado com a própria vocação”, observa Silva.

O psicólogo salienta ainda um fator primordial quando se trata de saúde: a prevenção é o melhor caminho. “Acredito que aquilo que já vem sendo feito nos seminários, no âmbito da formação inicial, deve ser estendido à formação permanente por meio de um projeto institucional de saúde mental. Para isso, é fundamental trabalhar de forma preventiva, estimular a busca por ajuda quando necessário e estabelecer parcerias com instituições confiáveis da área”, pontua.

É importante que haja compreensão e ausência de medo em relação a represálias ou julgamentos institucionais e morais. “Para garantir a privacidade, muitas vezes o presbítero precisa de um espaço externo à instituição hierárquica. O ambiente terapêutico não deve se confundir com o ambiente eclesiástico”, afirma.

Prevenção é o melhor remédio

Prevenir o adoecimento mental exige intervenção precoce — e esta pode ser a melhor solução para obter resultados positivos. De acordo com Silva, o Instituto Acolher tem sido procurado por casas de formação para realizar avaliações psicodiagnósticas e neuropsicológicas, com o objetivo de colaborar precocemente com o projeto formativo.

“Os seminários têm compreendido que a formação psicoemocional é um pré-requisito importante para a ordenação”, afirma Silva. “É necessário atuar na raiz das estruturas de personalidade durante o processo formativo, antes que mecanismos de defesa patológicos se solidifiquem no exercício do ministério”, reitera.

E esse processo de prevenção passa também pelos formadores. “O amadurecimento dos próprios responsáveis pela formação tem transformado a dinâmica dos seminários. Temos recebido formadores interessados em aprofundar seus conhecimentos e em contar com um espaço qualificado para troca de experiências e acolhimento das angústias próprias do ambiente formativo. Para isso, organizamos grupos de estudo coordenados por nossos psicólogos”, explica.

Leigos e a comunidade paroquial

O apoio precisa vir de todos os lados: leigos e comunidade paroquial podem contribuir de alguma maneira para a saúde física e mental de seus pastores.

“A comunidade pode se tornar um peso quando esquece que, sob a veste litúrgica, existe um homem com limites físicos e emocionais”, ressalta o psicólogo do Instituto Acolher. “Do ponto de vista psicanalítico, a comunidade muitas vezes adoece seu pastor por meio da projeção, depositando nele a imagem de um ‘pai ideal’ que deveria resolver todos os problemas e não teria o direito de falhar.”

O primeiro passo é reconhecer o caráter humano do sacerdote. “O padre diocesano, o religioso e a religiosa são pessoas que se doam a serviço da Igreja e do povo de Deus, mas continuam sendo indivíduos com limites orgânicos, emocionais e psíquicos”, frisa o psicólogo. “A comunidade precisa compreender que não se pode falar em ajuda ao outro sem antes fazer a própria caminhada pessoal. Quando a paróquia apoia o padre nesse processo, todos se beneficiam. A convivência comunitária se torna mais saudável, as relações se tornam mais assertivas e o trabalho pastoral ganha mais qualidade”, finaliza.

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