Dom Dominique-Marie David reconhece as fragilidades espirituais do pequeno país onde o clichê da riqueza muitas vezes esconde profundas “solidões”
Da redação, com Vatican News

Dom Dominique-Marie David, Arcebispo de Mônaco / Foto: Reprodução Youtube
O Papa Leão XIV inicia sua Viagem Apostólica de um dia ao Principado de Mônaco neste sábado, 28. Frequentemente visto como um centro de elite, a riqueza dos visitantes deste pequeno país europeu na Riviera Francesa esconde uma solidão e ansiedade latentes, segundo Dom Dominique-Marie David, Arcebispo de Mônaco.
Na entrevista a seguir, concedida ao Vatican News antes da visita do Papa, o Arcebispo David oferece sua visão sobre a missão espiritual da Igreja em uma cidade de luxo.
Vatican News — Excelência, um aspecto de Mônaco que muitas vezes é pouco destacado é a forte dimensão multicultural. O que a realidade do Principado pode dizer à Igreja universal por ocasião da visita do Papa Leão XIV?
Dom Dominique-Marie — Uma das características que mais me surpreendeu quando cheguei como arcebispo, há seis anos é que, dentro de um Estado tão pequeno – de apenas dois quilômetros quadrados –, coexistem realidades extremamente diversas. Em Mônaco, estão representadas quase 150 nacionalidades: em certo sentido, o grande mundo está presente neste pequeno espaço. Muitas vezes, tem-se uma imagem um tanto caricata do Principado, visto apenas como uma cidade do luxo. Na realidade, sua riqueza deriva da grande variedade de origens e também de uma certa mistura social. Muitas pessoas, de fato, trabalham em Mônaco sem necessariamente morar lá. Tudo isso contribui para a riqueza do nosso país e da Igreja. Por isso, acredito que, também para o Papa, visitar um país tão pequeno possa ter um significado importante: afinal, ele se dirige ao mundo inteiro. Sua missão é levar o Evangelho, fortalecer a fé e difundir uma mensagem de paz e de dignidade da pessoa humana. É provável, portanto, que o eco de uma visita como essa ultrapasse as fronteiras do nosso pequeno Estado.
Vatican News — Mônaco é frequentemente vista como um símbolo de riqueza. Que formas de pobreza permanecem invisíveis? Existem carências que são econômicas, mas também relacionais, espirituais ou culturais?
Dom Dominique-Marie — As formas de pobreza são numerosas e, muitas vezes, muito profundas. Eu mesmo tomei consciência disso nos últimos anos, também graças àqueles que me ajudaram a conhecer a realidade de Mônaco para além dos estereótipos e das imagens difundidas pela mídia. Existem, antes de tudo, formas de pobreza material, às vezes muito ocultas e difíceis de perceber. Ao redor do Principado vivem muitas pessoas que trabalham e contribuem para a vida do país, mas que, por vezes, se encontram em condições difíceis, sobretudo no que diz respeito à moradia ou ao custo de vida. Muitas associações, inclusive dentro da diocese, estão atentas a essas situações. Ao lado dessas dificuldades materiais, porém, existem outras formas de pobreza: a solidão e a crise de sentido da vida. Quando se dispõe de um certo bem-estar e não se tem grandes preocupações materiais, surgem outras questões: que sentido dar à própria existência? Não é raro encontrar pessoas que sofrem de solidão. Vemos também pais desorientados diante da educação dos filhos, separações e dramas familiares que afetam ainda mais porque a vida parece, pelo menos aparentemente, mais fácil. Por isso, nossa tarefa é permanecer atentos a essas formas ocultas de pobreza, cuidar uns dos outros e saber reconhecer situações de fragilidade que, mesmo que nem sempre visíveis, são reais e, às vezes, muito dolorosas.
Vatican News — Em um contexto em que o bem-estar parece ser a norma, muda a maneira como a Igreja reconhece e enfrenta a pobreza?
Dom Dominique-Marie — A solidariedade, felizmente, está muito presente. Em Mônaco, atuam entidades muito ativas como a Caritas Mônaco, a Sociedade de São Vicente de Paulo, a Legião de Maria e inúmeras associações eclesiais ou civis que se ocupam de crianças em dificuldade, famílias frágeis, idosos e doentes. Essa atenção se reflete também na ação da Igreja. A ideia é cuidarmos uns dos outros e não nos limitarmos a viver em um país que oferece boa qualidade de vida e certa segurança. Nossa missão, aqui em Mônaco, é estar ainda mais atentos às pessoas e não perder nenhuma oportunidade de testemunhar o Evangelho àqueles que se encontram em necessidade.
Vatican News — O senhor já observou situações em que quem possui muito recebe espiritualmente daqueles que possuem pouco?
Dom Dominique-Marie — Quando a Igreja se pronuncia – nas paróquias, nos movimentos ou por meio do bispo –, ela não escolhe seu público. Em alguns momentos importantes da vida do país, temos também a oportunidade de nos dirigir a todos. É difícil avaliar os frutos de uma palavra, de uma pregação ou de um testemunho. Seria preciso perguntar a quem escuta. No entanto, não é raro receber feedbacks que mostram como certas mensagens, com o tempo, conseguem tocar o coração das pessoas. Esse é o nosso objetivo: não ficar na superfície, mas tocar a pessoa no seu íntimo. Além dos diversos papéis e responsabilidades que cada um pode ter em Mônaco, o essencial é que a pessoa seja interpelada interiormente e que o coração se abra a uma palavra capaz de despertar, converter e orientar a vida para os outros. Nem sempre podemos ver os resultados imediatamente, mas sabemos que muitos ouvem e que, pouco a pouco, um caminho pode se abrir. Constamos isso também pelo número crescente de pessoas que pedem o Batismo ou desejam restabelecer a relação com a Igreja.
Vatican News — O senhor costuma dizer às pessoas coisas que elas não esperam ouvir de um bispo?
Dom Dominique-Marie — Aqui, como se sabe, a religião católica é a religião oficial do Estado. Muitos esperam, portanto, que o bispo e a Igreja falem sobretudo da experiência espiritual e da acolhida da fé. No entanto, especialmente por ocasião da festa nacional ou de outros eventos importantes, procuro também lembrar que a fé católica não é apenas uma identidade cultural ou um patrimônio histórico. É também uma responsabilidade que incide sobre o nosso modo de viver, sobre as nossas escolhas e sobre o nosso discernimento. Para alguns, pode ser uma perspectiva nova: não basta dizer-se católico, nem ter orgulho de sê-lo. É preciso também compreender as consequências disso na maneira como olhamos para o mundo, para os outros – sobretudo os mais pobres – e na coerência de nossa vida. Se alguém fica surpreso, provavelmente é justamente por isso: a fé acarreta consequências e exige uma verdadeira coerência de vida, como nos propõe o Evangelho.
Vatican News — Se tivesse que resumir a missão da Igreja em Mônaco com uma única imagem evangélica, qual escolheria?
Dom Dominique-Marie — Penso em duas imagens evangélicas. A primeira é a da ovelha perdida: mobilizar todas as nossas energias – sacerdotes, leigos, paróquias e movimentos – para que a Boa Nova alcance também aqueles que parecem mais distantes ou improváveis. A segunda é o episódio de Zaqueu. Jesus escolhe entrar na casa de uma pessoa que não gozava de grande reputação, embora fosse rica e socialmente importante. Ele faz isso simplesmente para que Zaqueu descubra a beleza e a alegria do Evangelho. Através da proximidade e da amizade, Ele revela a Zaqueu que o Reino de Deus já está presente e está entrando em sua vida e em seu coração. Acredito, portanto, que a vinda do Papa será uma grande graça.




