Tempo da Quaresma é marcado pelo convite à conversão, um processo no qual o sacramento da confissão assume papel essencial
Julia Beck
Da Redação

Momento de oração com o terço simboliza fé, arrependimento e busca por conversão espiritual /Foto: Canva
“Eis o tempo de conversão”. A expressão, profundamente enraizada na vivência dos católicos durante a Quaresma, ecoa como um chamado urgente à mudança de vida. Inspirada no versículo bíblico (2 Cor 6,2) — “Eis agora o tempo favorável, eis agora o dia da salvação” —, a frase atravessa a liturgia, as músicas, as orações e as antífonas próprias desse tempo iniciado na Quarta-feira de Cinzas. Mais do que uma repetição tradicional, ela aponta para um caminho concreto: a conversão do coração. E isso passa, necessariamente, pela experiência do perdão de Deus no Sacramento da Reconciliação.
“A própria Igreja insiste muito nesse ponto: ela incentiva os fiéis, a partir da espiritualidade própria da Quaresma, à conversão, e isso se dá por meio de elementos bastante concretos, como aquilo que é visível: a cor litúrgica, a sobriedade na ornamentação da igreja, a ausência de arranjos, as imagens cobertas e os próprios cantos. As leituras também apelam para que o fiel busque a conversão, apontando para o sacramento da reconciliação, da confissão”, explica o vigário da Paróquia Catedral de São João Batista da Diocese de Cametá (PA), padre Marcos da Cruz.
O sacerdote acredita que o incentivo dos presbíteros para que os fiéis busquem esse sacramento potencializa o “chamado à conversão” durante a Quaresma, um apelo que se intensifica mais nesse período do que em outros momentos do ano.
A confissão é fundamental no processo de conversão porque, embora o pecado original seja apagado no Batismo, ainda permanece no ser humano a inclinação ao pecado, como consequência. “Todo ser humano pode vir a cair novamente no pecado. Cristo, sabendo disso, instituiu esse sacramento”, explica padre Marcos.
Reconciliação

Padre Marcos da Cruz /Foto: Arquivo Pessoal
A origem do Sacramento da Reconciliação está no próprio Cristo. Segundo padre Marcos, foi Jesus quem instituiu os sacramentos da Igreja. “Ele é Aquele que vem reconciliar a humanidade ao coração de Deus Pai. Somente em Cristo o homem encontra o perdão e a salvação”, afirma. Cristo, prossegue o sacerdote, confiou essa autoridade à sua Igreja, especialmente aos seus ministros na terra.
O fundamento bíblico do sacramento da reconciliação encontra-se, de modo especial, em Mateus 16, quando Jesus diz a Pedro: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. Tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”. Nesse trecho, o presbítero destaca não apenas o primado de Pedro, mas também a autoridade relacionada ao perdão dos pecados.
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Outro episódio, narrado no Evangelho de João (20,22), após a ressurreição do Senhor, descreve o momento em que Jesus sopra sobre os discípulos e diz: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os retiverdes, lhes serão retidos”. Segundo padre Marcos, é nesse momento que Jesus confere aos seus ministros o poder da reconciliação. Ele ressalta que é sempre Cristo quem perdoa, mas os ministros ordenados são instrumentos da graça de Deus, canais pelos quais esse perdão se torna efetivo na vida dos fiéis.
O Sacramento da Reconciliação acompanha o fiel ao longo de toda a vida. Com o tempo, a tendência é que a pessoa se afaste não apenas dos pecados graves, mas também dos pecados leves. “Deus deseja do homem a santidade e a amizade com Ele. Deus detesta o pecado, e nós também devemos detestá-lo se desejamos nos unir a Ele. Por isso, esse sacramento nos acompanha, assim como a Eucaristia, durante toda a nossa vida”, ressalta.
Há um tempo ou frequência ideal para a Confissão?
A Igreja orienta que os fiéis se confessem ao menos uma vez por ano, especialmente no período da Páscoa ou da Quaresma. No entanto, padre Marcos afirma que a frequência da confissão depende da necessidade de cada pessoa e da orientação espiritual recebida. “Pessoas que estão mais próximas do altar, como coroinhas, ministros extraordinários da Eucaristia, diáconos e sacerdotes, devem se confessar com mais frequência, ao menos uma vez por mês”, aconselha.
O pároco esclarece ainda que a confissão deve ser buscada sobretudo diante de pecados graves, pois, ao confessá-los, o fiel se torna mais apto a receber a Eucaristia. “Não é espiritualmente saudável que alguém continue comungando sabendo que está em pecado grave. Por isso o sacramento da confissão é necessário não apenas neste tempo, mas ao longo de todo o ano”, acrescenta.
Mutirões de confissão
Na Quaresma, paróquias de todo o Brasil promovem mutirões de confissão. Para padre Marcos, essa iniciativa representa uma oportunidade concreta para que os fiéis se aproximem do sacramento.
Ele explica que nem sempre os fiéis se sentem à vontade para se confessar com o próprio pároco ou com sacerdotes da sua paróquia. Nesse sentido, os mutirões favorecem especialmente aqueles que têm mais dificuldade ou timidez, além daqueles que ainda não compreendem plenamente o valor do sacramento. Ressalta que, independentemente do sacerdote que atende a confissão, o sacramento é válido e o perdão de Deus se realiza de forma efetiva.
O padre acrescenta que essa diversidade de confessores permite ao fiel procurar outro sacerdote com quem se sinta mais à vontade, já que não há obrigação de se confessar com um padre específico, podendo haver também uma questão de afinidade. No entanto, alerta que não se deve cair no erro de evitar a confissão com determinado sacerdote por duvidar da validade do perdão concedido, pois isso constitui um desrespeito ao próprio sacramento.




