Leão XIV participou de abertura do Ano Judiciário no Vaticano neste sábado, 14; em seu discurso, enfatizou valores como verdade, amor e caridade no exercício da justiça
Da Redação, com Vatican News

Foto: Alessia Giuliani/IPA/Sipa USA via Reuters Connect
Neste sábado, 14, o Papa Leão XIV participou, na Sala das Bênçãos, da cerimônia de abertura do Ano Judiciário do Tribunal do Estado da Cidade do Vaticano.
Em seu discurso, o Pontífice agradeceu aos presentes pelo serviço que realizam na tarefa da administração da justiça, que contribui de modo significativo para o correto funcionamento do ordenamento institucional do Estado e para a credibilidade do ordenamento jurídico que o sustenta.
“A justiça autêntica, não pode ser compreendida apenas nas categorias técnicas do direito positivo”, prosseguiu o Santo Padre. À luz da missão da Igreja, “ela aparece também como o exercício de uma forma ordenada de caridade, capaz de guardar e promover a comunhão”, acrescentou, propondo, na sequência, algumas reflexões sobre a relação que existe entre a administração da justiça e o valor da unidade.
Ordem do amor
Segundo Leão XIV, a tradição cristã sempre reconheceu, na justiça, uma virtude fundamental para a ordem da vida pessoal e comunitária. Ele recordou Santo Agostinho, que afirmou que a sociedade nasce da ordem do amor.
“Quando o amor é retamente ordenado, quando Deus é colocado no centro e o próximo é reconhecido em sua dignidade, então toda a vida pessoal e social reencontra sua justa orientação”, explicou o Papa. “O amor autêntico”, continuou, “nunca é arbitrário ou desordenado, mas reconhece a verdade das relações e a dignidade de cada pessoa. Por isso, a justiça não é apenas um princípio jurídico, mas uma virtude que contribui para edificar a comunhão e tornar estável a vida da comunidade”.
O Pontífice também citou Santo Tomás de Aquino, que definiu a justiça como “a vontade constante e perpétua de dar a cada um o que lhe é devido”. “Na plenitude da caridade a justiça encontra o seu cumprimento mais autêntico”, observou o Santo Padre. “Decorre daí que, onde não houver uma verdadeira justiça, não pode subsistir sequer um direito autêntico, pois o próprio direito nasce do reconhecimento da verdade do ser e da dignidade de cada pessoa”, complementou.
Caminho para a caridade
Neste contexto, a justiça é a virtude cardeal que chama os homens a respeitarem os direitos de cada um e estabelecerem, nas relações humanas, a harmonia que promove a equidade em relação às pessoas e ao bem comum. A partir desse reconhecimento, apontou Leão XIV, abre-se o caminho para a caridade, porque apenas quando as relações estão ordenadas segundo a verdade torna-se possível aquela comunhão que é o fruto mais alto do amor.
“Nesta perspectiva, compreende-se também como o amor e a verdade não podem ser separados: somente amando se conhece a verdade, e o amor à verdade conduz a descobrir a caridade como seu cumprimento”, declarou o Papa. Assim, a justiça não divide, mas fortalece os vínculos que unem as pessoas e contribui para edificar aquela confiança recíproca que torna possível a convivência ordenada.
Sem justiça não há Estado
O Pontífice afirmou que, no contexto do Estado da Cidade do Vaticano, a tarefa de administrar a justiça assume um significado particularmente relevante. A administração da justiça, de fato, contribui também para a tutela da unidade, elemento essencial da vida eclesial.
“O processo, nesta perspectiva, não representa simplesmente o lugar do conflito entre pretensões opostas”, sinalizou o Santo Padre, “mas torna-se um espaço ordenado no qual, mediante o confronto regulado entre as partes e a intervenção imparcial do juiz, o dissídio é reconduzido a um horizonte de verdade e de justiça”.
Leão XIV voltou a mencionar Santo Agostinho, que escreveu em A Cidade de Deus:
Sem a justiça não se pode administrar o Estado; é impossível que se tenha o direito em um Estado no qual não se tem verdadeira justiça. O ato que se realiza segundo o direito realiza-se, certamente, segundo a justiça, e é impossível que se realize segundo o direito o ato que se realiza contra a justiça.
Ministério a serviço
Ao concluir sua reflexão, o Papa frisou que o serviço do Tribunal assume um valor “não apenas institucional, mas profundamente eclesial”, através do discernimento atento dos fatos, da escuta respeitosa das pessoas envolvidas e da aplicação correta das normas para representar fielmente os princípios do ordenamento.
A justiça na Igreja não é mero exercício técnico da norma, mas um ministério a serviço do Povo de Deus, salientou o Pontífice. Para isso é preciso, além da competência jurídica, também sabedoria, equilíbrio e uma constante busca da verdade na caridade.
“Quando a justiça é exercida com integridade e fidelidade à verdade, ela se torna um fator de estabilidade e de confiança dentro da sociedade, gerando como consequência natural a unidade”, finalizou o Santo Padre.




