Em Arezzo, o patriarca latino de Jerusalém discursou no encontro público intitulado “Justiça e paz na Terra Santa”, promovido pela Diocese de Arezzo
Da redação, com Vatican News

Cardeal Pizzaballa apresenta mensagem de Natal / Foto: Patriarcado Latino de Jersualém
“O obstáculo à paz é sempre a política de curto prazo. Mas nunca devemos desistir de trabalhar por algo diferente. Precisamos também construir e manter viva a nossa narrativa de pessoas que são a maioria, que querem viver serenamente em paz, com os seus direitos reconhecidos e reconhecendo os direitos dos outros.” O patriarca latino de Jerusalém, cardeal Pierbattista Pizzaballa, dirigiu-se aos jovens de Rondine Cittadella della Pace, com os quais se encontrou pouco antes de discursar no encontro público na Basílica de São Francisco, em Arezzo.
A dignidade de quem perdeu tudo
Em entrevista ao correspondente do Avvenire, Giacomo Gambassi, o cardeal Pizzaballa abordou o tema da conquista da paz em Gaza e em toda a Terra Santa, que permanece extremamente tensa. Ao comentar a situação na Faixa de Gaza, ele enfatizou a impossibilidade de vislumbrar um futuro de reconstrução sem considerar a dor, as aspirações e a dignidade dos dois milhões de palestinos que ali vivem. “Não haverá resort de luxo em Gaza”, disse ele em resposta a uma pergunta sobre os planos de reconstrução do governo dos EUA.
A guerra em Gaza não acabou
Apesar do cessar-fogo, as pessoas continuam morrendo em Gaza. “É claro que não há mais bombardeios indiscriminados”, observou o patriarca latino de Jerusalém, “mas há execuções seletivas. Noventa e seis por cento dos centros habitacionais foram arrasados, as escolas estão fechadas há três anos e faltam medicamentos. As pessoas estão morrendo de frio, infecções e pela falta de atendimento médico.” Somente na comunidade católica da Igreja da Sagrada Família, 23 pessoas morreram por “fogo direto”, lembrou Pizzaballa, e outras tantas morreram de fome e frio.
Sem confiança, não há paz
Nada será como antes naquela terra, “e nem sequer sabemos como será o depois”, declarou o cardeal Pizzaballa àqueles que lhe perguntaram sobre o processo de paz. “Falar de paz agora não faz muito sentido. A paz requer cultura, fundamentos, política, de um mínimo de confiança, sendo que a confiança foi a primeira vítima desta guerra.” Sobre a importância da presença cristã em Gaza, reiterou que a escolha de permanecer em Gaza não é uma questão política, mas sim de “fidelidade aos mais vulneráveis que não podem se deslocar, de coerência e solidariedade. “Os cristãos são palestinos como todos os outros”, afirmou Pizzaballa.
Muita solidariedade no sofrimento
O cardeal Pizzaballa também enfatizou as muitas demonstrações de solidariedade e atenção que recebeu de todo o mundo, “mesmo de dioceses pequenas e muito pobres”. Sinais que mostram que não estão sozinhos, apesar da necessidade de tudo e da situação extremamente problemática. No momento, a maior preocupação, lembrou o Patriarca, é a Cisjordânia, onde a situação está se deteriorando continuamente e onde tudo caminha para “uma anulação lenta e progressiva dos direitos palestinos. Temos 23 paróquias na Cisjordânia e, todos os dias, recebo pedidos de ajuda por causa de abusos e violência sofridas, mas não sabemos a quem recorrer.”
Construir a paz é trabalhoso
Do ponto de vista político e social, a situação não está destinada a mudar a curto prazo. Para construir a paz, é necessária uma nova visão política. “Este não é o momento para grandes gestos. É o momento de preparar o terreno, de criar redes, de identificar quem deseja a paz, porque no futuro serão essas pessoas de quem precisaremos para reconstruí-la”. Em referência ao compromisso comum, explicou que “o desejo de paz deve se tornar cultura, que nasce nas escolas, nas famílias, na mídia. É um trabalho árduo que exige tempo e energia, mas precisa ser feito”.
A contribuição do mundo cristão
Uma ocasião para reafirmar o papel das religiões na construção de percursos de paz será certamente o Jubileu da Redenção em 2033, em Jerusalém, “lugar onde este desejo de paz é protegido, mas também ameaçado”. “É sempre difícil ser cristão”, reiterou o cardeal, “a nossa fé é complexa, mas o fato de existirem estas dificuldades significa que o testemunho cristão continua vivo. E quando a fé é livre, incomoda, porque a nossa liberdade está ligada a alguém que deu a vida por amor e não é uma expressão de poder humano.”




