A Guerra Civil do Sri Lanka deixou um legado devastador de minas terrestres e munições não detonadas, particularmente nas províncias do norte e do leste do país
Da redação, com Vatican News

Especialistsa busca por minas terrestres no Sri Lanka / Foto: Reprodução Youtube
Ao nascer do sol de 14 de março de 2026, barcos familiares começaram a cruzar as águas da Lagoa de Jaffna, rumo à Ilha de Puvaransanthivu, para se reunirem sob o sol escaldante em um local que, durante anos, fora considerado perigoso demais para se alcançar.
Ali, na ilha do norte do Sri Lanka, uma pequena igreja costeira aguardava para celebrar sua primeira festa litúrgica completa em duas décadas, após desminadores humanitários removerem as últimas minas terrestres que a cercavam desde os últimos anos da guerra civil do país. Enquanto o mundo celebra o Dia Internacional da Conscientização sobre Minas Terrestres e da Assistência em Ação contra Minas, em 4 de abril, a história também serve como um lembrete das cicatrizes deixadas por munições não detonadas e do trabalho árduo necessário para tornar a terra segura novamente.
“Foi uma cena muito emocionante”, disse o Rev. Pe. Jero Selvanayagam, que celebrou a missa da festa litúrgica na Igreja de Nossa Senhora de Velankanni. “Pessoas das zonas costeiras vieram com suas famílias. Normalmente, os homens vão pescar sozinhos, mas desta vez as famílias vieram juntas.”
A vida na ilha
Muito antes de se tornar um lugar de perigo, a igreja da ilha fazia parte do cotidiano. “Era usada como abrigo para os pescadores e também como local de culto”, explica Matthieu Guillier, Oficial Sênior de Programas da The HALO Trust, a maior organização humanitária de desminagem do mundo, responsável pela operação de remoção das minas.
As águas rasas da lagoa são ricas em peixes e chocos, sustentando gerações de comunidades costeiras. Os pescadores viajavam até a ilha, lançavam suas redes e descansavam. Foi lá, na década de 1970, que construíram a pequena igreja.
O padre Selvanayagam explica que “quando vão para longe de casa para pescar, constroem uma pequena capela. Acreditam que devem rezar antes de sair, especialmente para um ambiente perigoso”.
Mas, durante a guerra, a ilha, localizada entre o continente e a península de Jaffna, tornou-se estrategicamente importante. Minas foram colocadas para impedir o acesso, deixando a igreja isolada por anos. Guillier descreve a dimensão do legado deixado: “Ao final da guerra, o Sri Lanka estava praticamente coberto de minas”. E não apenas minas, acrescenta. “Havia também bombas, granadas, morteiros… e artefatos explosivos improvisados. Nem sempre se sabe se eles foram neutralizados”.
Para as comunidades locais, as consequências foram imediatas e duradouras. “Enquanto suas terras estiverem contaminadas, eles não poderão se reassentar”, explica Guillier. Mas mesmo assim, a sobrevivência obrigou as pessoas a correr riscos. “Os pescadores utilizavam a ilha mesmo quando ela ainda estava contaminada… sabendo que estavam arriscando a vida”.
“Participei pessoalmente de muitos funerais”, diz ele, recordando aqueles que morreram durante a guerra. Ele também se lembra de um paroquiano que, após a guerra, se aventurou na ilha e “perdeu um membro”. O padre Selvanayagam recorda esse momento como um dos que revelaram o perigo oculto das minas e outros artefatos explosivos não detonados na ilha.
O perigoso trabalho de garantir a segurança
Remover esses perigos não foi rápido nem simples. “As minas foram colocadas especificamente para impedir o desembarque na ilha”, continua Guillier. Para começar a limpeza, os desminadores tiveram que trabalhar a partir de barcos, mapeando a costa sem pisar nela. Só então puderam começar a criar estreitas faixas de terra segura. A HALO, como faz em todos os trinta países em que opera, contratou funcionários locais. “Todos os nossos funcionários locais foram deslocados pela guerra”, afirma Guillier.
E o trabalho continuou, em condições difíceis: inundações, interferência da água salgada afetando os equipamentos de detecção, densos manguezais que não podiam ser cortados e até plantas e lagartas tóxicas – tudo isso em meio a um ecossistema que precisava ser preservado. “É extremamente desafiador”, diz Guillier, mas a remoção de explosivos restaura vidas. “A desminagem possibilita o desenvolvimento”, afirma. Permite que as pessoas retornem, trabalhem e reconstruam suas vidas. Todo o trabalho árduo e seus resultados imediatos se tornaram evidentes no dia 14 de março.
Cerca de cento e cinquenta pessoas viajaram de barco de pesca até a ilha. Levaram comida, rezaram juntas e permaneceram sob o calor intenso do sol. O próprio Guillier estava presente.
Um tempo de renovação
“Foi uma cerimônia muito emocionante”, conta. “As pessoas compartilhavam comida… demonstrando sua devoção”. A jornada não foi fácil – a travessia de barco, o calor, as longas horas – mas foi feita de bom grado. O padre Selvanayagam vê isso como parte de uma tradição mais profunda. “Essas festas são peregrinações da Quaresma”, diz ele. “As pessoas fazem um esforço para deixar suas casas, viajar pelo mar, suportar condições difíceis… é uma forma de sacrifício e devoção.”
Durante décadas, a ilha foi associada ao medo. Agora, pouco antes da Páscoa, tornou-se novamente um local de encontro e oração. “Eles sentem que não há perigo”, diz o padre Selvanayagam. As regiões do norte do Sri Lanka continuam entre as mais afetadas pelo legado da guerra.
A limpeza da terra, acrescenta ele, não se trata apenas de segurança. Ela restaura o acesso aos meios de subsistência e permite que as comunidades retornem a lugares que têm significado social e religioso. A própria Igreja de Nossa Senhora reflete uma longa tradição entre as comunidades católicas costeiras. Sob essa perspectiva, o retorno à Ilha de Puvaransanthivu acontece em um momento em que os cristãos já estão refletindo sobre sofrimento, resistência e renovação.
Guillier observa que a própria limpeza carrega uma ressonância semelhante. As minas, diz ele, não são apenas perigos físicos. São “lembranças vívidas de traumas passados, inimizades passadas, ódios passados”. Removê-las permite que as comunidades “deixem esse passado para trás”.
O processo de cura
No entanto, o passado não ficou completamente para trás. Com a aproximação da Páscoa, o Sri Lanka também relembra o aniversário dos atentados de Páscoa de 2019, cujas feridas permanecem abertas.
“Ainda não há uma resolução completa”, disse Selvanayagam. “As pessoas ainda aguardam responsabilização e justiça”. O processo de cura, acrescentou, vai além desses ataques. Inclui as muitas vidas perdidas durante as décadas de guerra civil, incluindo as daqueles que morreram buscando refúgio em igrejas.
Ainda assim, ele insiste, a esperança permanece. “Não estamos sem esperança. Deus nunca abandona o seu povo”, disse. As práticas da Quaresma e da Semana Santa, acrescentou, ajudam as comunidades a “ter esperança contra o desespero”.




