Em meio à dor e aos desafios da vida, padre Marcelino Nunes destaca que o sofrimento, à luz de Cristo, não é o fim, mas caminho de esperança e redenção
Julia Beck
Da Redação

Crucifixo representa a Paixão de Cristo /Foto: Canva
Silêncio, recolhimento e fé marcam, todos os anos, a Sexta-feira Santa. Neste dia em que a Igreja Católica faz memória da morte de Jesus — o único do ano sem a celebração da Santa Missa —, fiéis de todo o mundo participam das Funções da Paixão do Senhor e vivenciam ritos profundamente centrados na cruz, como o desvelamento do crucifixo em três etapas, a veneração da cruz e, muitas vezes, a prática da Via-Sacra.
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Contemplar a cruz pode despertar em muitos um sentimento de angústia diante do sofrimento de Cristo — um reflexo também dos inúmeros flagelos da atualidade. No entanto, o vigário da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, em São José dos Campos (SP), padre Marcelino Heitor Nunes Tomé, explica que a cruz não deve ser compreendida apenas como sinal de dor, mas como parte de um caminho necessário que conduz à vida plena, ao céu.
Para ilustrar, o sacerdote recorre a experiências do cotidiano em que o sacrifício encontra sentido no resultado, como a dor do parto, que culmina na alegria do nascimento de um filho. “É a mesma experiência da cruz. Por meio de sua crucificação e morte, Cristo não traz o mal; ao contrário, revela o bem supremo e eterno. A cruz, como sinal de redenção, transforma o sofrimento em vida e ilumina a nossa existência”, afirma.
A dor

Padre Marcelino Heitor /Foto: Arquivo Pessoal
A dor é uma realidade inevitável e sempre desafiadora. No caso da perda, explica padre Marcelino, não se trata de superá-la, mas de aprender a conviver com ela. “Quem parte deixa, muitas vezes, um vazio profundo, que tentamos preencher com a própria dor, já que nem sempre conseguimos preenchê-lo de outra forma”, reflete.
O sacerdote também menciona outras formas de sofrimento, como a culpa e a doença, que exigem responsabilidade e perseverança, explicando que, muitas vezes, há a tendência de transferir a culpa para os outros, quando, na verdade, é necessário reconhecê-la como própria e aprender a lidar com ela. Acrescenta ainda que, assim como ocorre com a culpa, quem enfrenta uma doença não percorre caminhos extraordinários, mas segue, com consciência, o percurso possível.
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Diante dessas experiências, o sacerdote reforça que a esperança em Cristo é fundamental para enfrentar os desafios. “Quando temos a clareza de que Cristo é a nossa esperança, não há limites que nos paralisem. Não há barreiras que nos impeçam de seguir em frente. A esperança n’Ele nos dá coragem para enfrentar o que está à nossa frente”, afirma.
Preparação para a Páscoa
Padre Marcelino recorda que, certa vez, o Papa Bento XVI foi questionado sobre onde estava Deus diante de situações de morte e sofrimento. Na ocasião, o Pontífice respondeu que Deus estava sofrendo com o seu povo. A partir dessa reflexão, o sacerdote explica que, sendo amor, Deus não apenas permite o sofrimento como caminho de purificação, mas também sofre com a humanidade, manifestando compaixão por todos. “A Sexta-feira Santa é, então, um dia de rezar esse silêncio, não da ausência de Deus, mas de uma presença tão íntima que nem mesmo palavras precisam ser pronunciadas”, sublinha.
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O sacerdote também avalia que, muitas vezes, as pessoas buscam fórmulas prontas para conduzir a vida, quando, na verdade, são chamadas a cultivar um autêntico senso cristão e uma profunda intimidade com Cristo. Segundo ele, essa proximidade deve se traduzir em atitudes concretas, capazes de orientar pensamentos e gestos à luz do Evangelho. “Acredito que, se temos uma fé frutuosa, ela nos provoca”, destaca, ao explicar que os desafios do cotidiano precisam ser confrontados com o exemplo de Jesus.
Nesse sentido, acrescenta que é fundamental formar a própria consciência para que ela conduza as decisões em todas as circunstâncias da vida e sugere um critério simples e prático: “Perguntar-se o que Jesus faria se estivesse no meu lugar”.
Por fim, ele convida os fiéis a viver a Páscoa como um tempo de renovação da confiança em Deus. “Que esta Páscoa seja um momento de cultivar a esperança e a certeza de que Jesus é o Senhor de nossa vida. Podemos entregar tudo a Ele, confiantes de que Sua vontade nos conduz e nos leva à salvação”, conclui.