Capelinha dos Aflitos pretende voltar com celebrações em agosto
Em São Paulo, a Capela dos Aflitos, um dos raros exemplares de arquitetura em taipa de pilão foi restaurada e, em breve, será definitivamente reaberta à população.
Reportagem de Sidinei Fernandes e Antonio Matos
Quem passa pelo bairro da Liberdade nem imagina que a Rua dos Aflitos guarda um marco da fé católica e da história paulistana. Erguida em 1779, a Capela dos Aflitos é um símbolo de resistência ao tempo e à pressão imobiliária, preservando a memória e a identidade de um dos lugares mais antigos da cidade.
“Isso aqui tudo é um remanescente de um cemitério chamado então cemitério dos aflitos. Aqui eram enterrados os nossos irmãos e irmãs que foram mortos na forca, ali na Liberdade e também os rejeitados”, recordou da Paróquia São Gonçalo e responsável pela Capela dos Aflitos, padre José Enes de Jesus.
Com a demolição do antigo cemitério em 1883, sobrou apenas a capelinha, um patrimônio tombado que correu risco de desabamento. Por isso, no ano passado, teve início uma restauração em caráter de urgência. “A capela, ela possuía bastante risco. O mezanino tinha risco de colapso em cima dos fiéis, a cobertura tinha bastante problema, então chovia dentro da capela. Quando a gente tirou o forro, a gente começou a entender que a própria estrutura que suportava o telhado tinha gravíssimos problemas, então tinha risco sério de colapso. A torre estava um pouco inclinada também, então a própria capela já não aguentaria esperar muito mais tempo por um restauro”, explicou o arquiteto responsável pelo Projeto de Restauração, Igor Carrolo.
A obra renovou a fachada, modernizou as redes elétrica e hidráulica, acessibilidade e o velário. Tudo isso preservando a arquitetura original para garantir que essa memória atravesse os próximos séculos.
Durante as escavações foram descobertos restos mortais de 18 pessoas, o que comprova o uso histórico do antigo cemitério dos aflitos, onde eram sepultados indígenas, negros e seus descendentes ao fim do século XVII. Elementos que ajudam a contar a história desse lugar marcado pela dor, fé e esperança.
O material arqueológico foi encaminhado aos órgãos competentes, mas quatro sepulturas permanecem no local. A obra custou cerca de R$3.700.000. Seu Jadir se orgulha de ter contribuído para preservar esse espaço de fé e memória. “Um grande privilégio, um grande privilégio que jamais imaginaria, com essa idade que eu estou trabalhar num lugar bastante histórico, que tem muita valia, que é muito importante para muitas pessoas”, disse o pedreiro de restauro, Jadir Gonçalves Lopes.
A Capelinha dos Aflitos permanece fechada para os retoques finais da restauração. A expectativa é que as celebrações sejam retomadas no fim de agosto. “Então, nós esperamos que essas aflições agora virem alegria. É essa a nossa esperança de voltar a fazer as nossas celebrações, acolher o povo e fazer com que o povo saia também daqui feliz. Quem tem fé vai até o fim, não desiste”, completou padre José.