Conversão

Pasolini alerta: se "nada é pecado", a santidade torna-se incompreensível

Na primeira meditação da Quaresma de 2026, o pregador da Casa Pontifícia afirmou que a conversão é um processo contínuo que conduz à humildade

Da Redação, com Vatican News

Frei Roberto Pasolini, pregador da Casa Pontifícia, fala ao microfone durante conferência, usando hábito religioso e óculos.

Pregador da Casa Pontifícia, padre Roberto Pasolini /Foto: ZUMA Press Wire via Reuters

O Papa Leão XIV acompanhou, na manhã desta sexta-feira, 6, a primeira meditação da Quaresma conduzida pelo pregador da Casa Pontifícia, padre Roberto Pasolini. Neste ano, as reflexões têm como tema central: “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura (2Cor 5,17). A conversão ao Evangelho segundo São Francisco”. A primeira meditação teve como eixo: “A conversão: seguir o Senhor Jesus no caminho da humildade”.

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Em tempos marcados pela dor e pela violência, o frade capuchinho destacou que falar de pequenez pode parecer um discurso abstrato, quase um “luxo espiritual”. No entanto, ressaltou que se trata de uma responsabilidade concreta ligada ao destino do mundo.

Segundo Pasolini, a paz não nasce apenas de acordos políticos ou estratégias diplomáticas e militares, mas de homens e mulheres que encontram a coragem de se tornarem pequenos: capazes de dar um passo atrás, renunciar à violência em todas as suas formas, resistir à tentação da vingança e da prepotência e escolher o diálogo, mesmo quando as circunstâncias parecem negar essa possibilidade.

O sacerdote acrescentou que o trabalho exigente e cotidiano pela paz diz respeito a todos os que se reconhecem filhos de Deus e compreendem que essa conversão do coração também lhes cabe.

O despertar da imagem de Deus

Ao introduzir sua reflexão, ligada à vida de São Francisco, o pregador o definiu como “um homem atravessado pelo fogo do Evangelho, capaz de reacender em cada um a nostalgia de uma vida nova no Espírito”.

Como ponto de partida, padre Pasolini explicou que a conversão evangélica é, antes de tudo, uma iniciativa de Deus, à qual o ser humano é chamado a responder livremente. Ela acontece no ponto mais íntimo da natureza humana, onde a imagem de Deus presente em cada pessoa espera ser despertada.

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O frade recordou que Francisco fala de “fazer penitência” ao iniciar o caminho de conversão, referindo-se, porém, a uma mudança de sensibilidade: olhar para os outros com misericórdia e à luz do Evangelho, varrendo “a amargura de uma vida cheia de muitas coisas, mas ainda vazia de seu valor essencial”.

Reconhecer o pecado

De acordo com Pasolini, a conversão também está ligada à “profundidade do sulco que o pecado cavou” em cada pessoa. Ele alertou que hoje a palavra pecado parece ter desaparecido.

“Na consciência comum – e às vezes também na vida da Igreja – tudo é explicado como fragilidade, ferida, limite ou condicionamento. Quando ainda se fala de pecado, muitas vezes ele é reduzido a um pequeno erro ou a uma fraqueza”, afirmou.

Segundo o pregador, se não se reconhece a possibilidade de um mal verdadeiro, também desaparece a ideia de um bem verdadeiro. Nesse cenário, a santidade torna-se um destino abstrato e incompreensível. No pecado, disse, o ser humano reconhece que sua liberdade é real e que pode, com ela, construir ou destruir a si mesmo, aos outros e ao mundo.

O retorno à humildade

Recordando a vida de São Francisco, o frade capuchinho destacou que o santo é reconhecido pela pobreza, inseparável da humildade. Ambas, explicou, brotam do mistério da Encarnação e revelam traços do próprio Deus que o homem é chamado a viver.]

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“A humildade é um caminho que todo batizado é chamado a percorrer se quiser acolher plenamente a graça da vida em Cristo”. Trata-se de uma maneira de habitar o mundo e as relações, redimensionando “a imagem inflada que temos de nós mesmos” e recuperando a verdade.

Padre Pasolini observou ainda que a humildade não empobrece o homem, mas o devolve a si mesmo e à sua verdadeira grandeza. Por isso está profundamente ligada à conversão. O pecado original, explicou, nasce justamente da recusa da humildade, da não aceitação da condição humana, finita e dependente de Deus.

O rosto do homem novo

Segundo o pregador, a verdadeira grandeza do ser humano passa pela sua pequenez. São Francisco, ao aproximar-se dos mais pequenos, compreendeu que esse é o lugar privilegiado escolhido pelo Senhor.

“Os pequenos, com sua fragilidade, despertam a misericórdia, talvez a energia mais preciosa do mundo (…). Tornar-se pequeno é uma dimensão essencial do ser cristão”, afirmou.

Escolher tornar-se pequeno, explicou, não é regressão ou renúncia, mas o rosto do homem novo que o Batismo faz nascer.

Uma conversão contínua

Ao concluir, o frade capuchinho destacou que a conversão nunca termina. “Converter-se significa recomeçar continuamente esse movimento do coração, através do qual nossa pobreza se abre à graça de Deus”.

Recordando São Paulo, afirmou que o apóstolo compreendeu que a fraqueza não é uma etapa a ser superada, mas a própria forma da vida em Cristo e da vida batismal. É justamente nos conflitos e nas dificuldades, finalizou, que a conversão se torna mais necessária, pois é nesses momentos que se prova a assimilação do Evangelho da cruz.

A meditação foi encerrada com uma oração de São Francisco.

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