Pregador da Casa Pontifícia refletiu sobre papel desempenhado pela fraternidade ao propor experiências de conversão ao ser humano
Da Redação, com Vatican News

Frei Pasolini durante a segunda pregação da Quaresma, realizada nesta sexta-feira, 13 / Foto: Reprodução Vatican Media
Na segunda pregação da Quaresma deste ano, o pregador da Casa Pontifícia, frei Roberto Pasolini, falou especialmente sobre a fraternidade. Na presença do Papa Leão XIV, o frade capuchinho conduziu sua reflexão nesta sexta-feira, 13, com o tema “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. A conversão ao Evangelho segundo São Francisco”.
O religioso iniciou sua fala indicando que a fraternidade não é um acessório da vida espiritual. “É o lugar onde a conversão realmente se realiza: o banco de provas mais sério e, ao mesmo tempo, o sinal mais eloquente do que o Evangelho pode operar em nossa vida”, explicou.
“Os irmãos são um dom do Senhor”, prosseguiu Pasolini. “Mas, justamente por isso, não têm simplesmente a função de nos ajudar ou apoiar ao longo do caminho: são-nos confiados para que nossa vida possa mudar. (…) Em sua diversidade, em seus limites e, às vezes, até mesmo em suas fadigas, eles se tornam o espaço concreto em que Deus trabalha nossa humanidade, dissolvendo nossas rigidez e nos ensinando a viver com um coração mais verdadeiro e mais capaz de amar”, afirmou.
“A vida pode se tornar uma oferta”
O frade capuchinho apresentou, em seguida, algumas reflexões sobre a história de Caim e Abel, cuja ruptura nasce de “um problema de olhar”. Ao passo que Deus aceita a oferta de Abel, que dá os primogênitos de seu rebanho, Ele recusa o sacrifício de Caim, que apresenta simplesmente alguns frutos da terra.
“Não é tanto a qualidade da oferta que faz a diferença”, sinaliza o pregador, “mas o fato de que o que se oferece represente verdadeiramente a própria vida. Por isso Deus não aceita a oferta de Caim: não para condená-lo, mas para provocá-lo. Aceitar aquele gesto significaria deixá-lo na convicção de que realmente não tem nada de bom a oferecer. Deus, ao contrário, parece querer ajudá-lo a acreditar que também a sua vida pode se tornar uma oferta”.
Leia mais
.: Pasolini alerta: se “nada é pecado”, a santidade torna-se incompreensível
.: Quaresma: Papa convida fiéis à abstinência de palavras que ferem
À luz desse relato, Pasolini convidou os presentes a se questionarem “quem é Caim dentro de nós”, ou seja, quanto espaço ocupa o ressentimento, que se transforma em distância e depois em violência dentro do coração — um rancor que nasce da constatação de que “não estamos sozinhos” e “não somos tudo”.
Fraternidade, lugar para conversão
O religioso pontuou que, para São Francisco de Assis, a fraternidade não era um problema a ser enfrentado, mas uma oportunidade para aprender a lógica misericordiosa do Evangelho. “Nas ocasiões em que as relações se deterioram e a comunhão é ferida, o Evangelho não sugere, em primeiro lugar, defender os próprios direitos, mas buscar o bem maior e sempre possível: aquele que permite reconhecer no outro não mais um adversário ou um devedor, mas um irmão amado pelo Senhor”, declarou.
O Pobrezinho de Assis aponta que a conversão brota “precisamente daquilo que os outros nos fazem, mesmo quando nos ferem ou nos colocam à prova”. Na vida cotidiana, as fadigas da eternidade podem ser pesadas e os mal-entendidos que permanecem em aberto podem se tornar dolorosos. “Precisamente por isso, nunca devemos perder o horizonte. Quando perdemos a perspectiva da vida eterna, certas fadigas se tornam totalmente inaceitáveis”, frisou Pasolini.
A fé, prosseguiu o pregador, não separa, mas recorda que “ninguém pode ser excluído do nosso coração”. A ressurreição de Jesus não liberta os homens do cansaço das relações, mas da suspeita de que tal esforço seja inútil.
“Por isso, nestes dias da Quaresma, enquanto a história do mundo continua a ser atravessada por divisões, guerras e conflitos, nós, cristãos, não podemos nos limitar a falar de fraternidade como um ideal a ser alcançado. Somos chamados a recebê-la como um dom e, ao mesmo tempo, a assumi-la como uma responsabilidade muito séria e urgente”, concluiu o frade capuchinho.




