Mês vocacional

Como discernir a vocação à vida consagrada? Religiosos respondem

Oração, acompanhamento espiritual, experiência comunitária e abertura para conhecer diferentes carismas estão entre os caminhos indicados por religiosos

Julia Beck
Da Redação

A vida consagrada é celebrada nesta semana do Mês Vocacional /Fotos: Patriarcado de Lisboa; Franciscanos e Canva

Discernir uma vocação à vida consagrada é um caminho que exige tempo, oração, acompanhamento e disposição para conhecer a si mesmo e as diferentes formas de consagração existentes na Igreja. Para quem começa a perceber no coração o desejo de entregar a própria vida a Deus, muitas dúvidas podem surgir: esse desejo é realmente uma vocação? Como saber qual congregação ou comunidade escolher? O que fazer depois de perceber esse chamado?

Leia também
.: Vida consagrada é um bem para a Igreja, afirma Papa Bento XVI
.: Papa Francisco: A vida consagrada oferece à sociedade a luz do Evangelho

O missionário oblato de Maria Imaculada da Província do Brasil, padre Rubens Pedro Cabral, e a Irmã Helena Rocha, da Congregação das Mensageiras do Amor Divino, explicam que o discernimento não acontece de forma imediata, mas é construído ao longo de um processo de escuta, experiência e amadurecimento.

Primeiro passo: olhar para a própria vida

Padre Rubens Pedro Cabral /Foto: Arquivo Pessoal

Ao perceber um possível chamado, o primeiro passo é olhar para a própria caminhada de fé e para o processo de conversão pessoal. Segundo padre Rubens, a vida religiosa pressupõe uma disposição constante para a mudança e para o crescimento na relação com Deus e com as pessoas.

“Todos somos convidados a um processo constante de conversão e de mudança”, afirma. Nesse processo, ele frisa que também é importante observar como a pessoa vive seus relacionamentos, suas responsabilidades e, especialmente, sua relação com a própria família.

Para o sacerdote, o discernimento também envolve amadurecer a possibilidade de deixar a casa e iniciar uma nova etapa de vida. Por isso, o diálogo com a família não deve ser deixado de lado durante esse caminho.

Rezar e agir

A oração, prossegue o missionário, ocupa um lugar fundamental no discernimento vocacional. É por meio dela que a pessoa busca estabelecer um diálogo constante com Deus e compreender os caminhos que Ele apresenta.

Entretanto, padre Rubens alerta que a oração não deve estar separada da experiência concreta da fé. “A oração é uma das nossas ‘pernas’, por assim dizer, para essa caminhada vocacional. A outra é a ação, é o compromisso”, explica.

Participar da vida da comunidade, colaborar na paróquia, atuar na catequese, servir aos mais pobres e assumir responsabilidades são experiências que também podem ajudar no discernimento.

Leia também
.: Religiosa testemunha a alegria da consagração: “luz para o mundo”

O sacerdote oblato afirma que a vivência concreta permite que outras pessoas reconheçam dons e capacidades que podem confirmar ou questionar aquilo que a pessoa percebe interiormente.

Acompanhamento é parte do caminho

Ninguém precisa discernir sozinho. Buscar um orientador espiritual é um dos passos importantes desse processo. A Irmã Helena destaca que o acompanhamento ajuda especialmente quando a pessoa sente que possui aptidão para a vida consagrada, mas ainda não sabe qual caminho ou carisma seguir. “Por isso tem que ser acompanhada e buscar alguém para ajudar”, reforça.

Padre Rubens acrescenta que é importante estar aberto a diferentes opiniões. Segundo ele, ouvir tanto pessoas que acreditam no chamado quanto aquelas que têm dúvidas sobre ele pode contribuir para um discernimento mais maduro.

A intenção não é simplesmente seguir a opinião dos outros, deixa claro o sacerdote, mas acolher essas percepções e confrontá-las com a própria experiência, buscando identificar aquilo que realmente corresponde ao chamado de Deus.

Como diferenciar um desejo passageiro de uma vocação?

Um dos grandes desafios do discernimento é distinguir uma verdadeira vocação de um entusiasmo momentâneo.

Padre Rubens compara esse processo ao relacionamento entre um homem e uma mulher. Assim como uma paixão pode nascer de uma imagem idealizada da outra pessoa, também pode acontecer de alguém se encantar por uma congregação, por uma religiosa ou por um religioso sem que isso signifique necessariamente um chamado àquela forma de vida. “Esses encantamentos são sempre parciais e absolutamente passageiros”, afirma.

Por isso, conhecer a realidade da vida consagrada é fundamental. A vocação precisa ser capaz de amadurecer também diante das dificuldades, dos limites e das frustrações.

Irmã Helena explica que o próprio caminho de acompanhamento ajuda a perceber essa diferença. O desejo vocacional vai sendo aprofundado à medida que a pessoa conhece melhor aquele carisma. Mais do que uma emoção inicial, o discernimento busca verificar se existe um desejo perseverante de entregar a vida a Deus.

“Gastar os sapatos”: conhecer diferentes comunidades

Depois de perceber que existe um possível chamado, chega o momento de sair em busca de respostas concretas. O missionário oblato resume que, nessa etapa, é preciso “gastar os sapatos”.

Isso significa: conhecer congregações, institutos e diferentes formas de vida consagrada, participar de encontros vocacionais, visitar comunidades e, quando possível, viver períodos de convivência com os religiosos.

Leia também
.: Bispo explica o que dá identidade à vida consagrada
.: Vida consagrada: um chamado que não envelhece

A Igreja possui diferentes carismas e formas de consagração. Há comunidades dedicadas à contemplação, à missão, à educação, ao serviço aos pobres, à evangelização, entre muitas outras expressões. Também existem diferentes formas de consagração, inclusive aquelas vividas no mundo, sem necessariamente morar em uma comunidade religiosa.

Por isso, os religiosos enfatizam que conhecer é uma etapa indispensável para que a pessoa compreenda onde seus dons, desejos e características podem ser colocados a serviço de Deus e da Igreja.

O “não” também pode fazer parte do discernimento

Durante esse caminho, pode acontecer de uma pessoa não ser aceita por determinada comunidade. Padre Rubens sublinha que essa experiência não deve ser interpretada automaticamente como um fracasso.

“Um processo de discernimento também é feito de portas que se abrem e de portas que permanecem fechadas. Cada experiência pode ajudar a pessoa a compreender melhor o próprio caminho”, complementa.

O importante, prossegue o presbítero, é não transformar a busca por uma comunidade em uma tentativa de encontrar simplesmente um lugar que corresponda às próprias expectativas.

Da descoberta do chamado à formação

Irmã Helena Rocha /Foto: Arquivo Pessoal

A experiência da Irmã Helena ajuda a compreender como esse discernimento pode acontecer na prática. Ela conta que seu desejo inicial era seguir a Deus como catequista e aprofundar seus conhecimentos sobre a Palavra de Deus. O chamado à vida consagrada começou a se tornar mais claro depois de uma conversa com uma aspirante das Mensageiras do Amor Divino – congregação à qual ela pertence atualmente – que lhe perguntou se ela desejava ser irmã.

A partir daquele questionamento, começou um caminho de acompanhamento, encontros vocacionais, participação nas celebrações e muita oração. 

Depois de escolhido o carisma, a religiosa iniciou um processo formativo que, segundo ela, a fez passar por diferentes etapas. Nas Mensageiras do Amor Divino, por exemplo, o caminho inclui o “aspirantado” e o “noviciado”, período dedicado de maneira especial ao aprofundamento da vida espiritual, da Palavra de Deus, das constituições e do próprio discernimento vocacional.

Durante a formação, também existem experiências em diferentes comunidades, que permitem à candidata conhecer mais concretamente a missão e o cotidiano da congregação.

Depois desse período, a religiosa pode realizar a profissão dos primeiros votos. Segue-se, então, um período de renovação dos votos, até a profissão definitiva, quando a consagração é assumida de maneira permanente.

“Gastar os joelhos”: colocar o discernimento nas mãos de Deus

Se conhecer diferentes comunidades significa “gastar os sapatos”, padre Rubens lembra que existe outro movimento indispensável: “gastar os joelhos”. A expressão resume a necessidade de colocar o discernimento diante de Deus, pedindo luz para reconhecer o caminho a seguir. “Gastar o joelho pedindo a Deus que nos abençoe, que nos ilumine, que nos fortaleça”, reitera.

O discernimento, portanto, não consiste apenas em descobrir aquilo que a pessoa deseja fazer da própria vida. É também aprender a reconhecer dons, qualidades e até mesmo limitações. Nesse caminho, os religiosos frisam que não há necessidade de ter todas as respostas imediatamente. A vocação vai sendo reconhecida e amadurecida ao longo de um processo que envolve oração, conversão, serviço, acompanhamento e experiências concretas.

Evite nomes e testemunhos muito explícitos, pois o seu comentário pode ser visto por pessoas conhecidas.

↑ topo
Skip to content