Servo de Deus Padre João Maria

Anjo de Natal: a trajetória do padre potiguar em processo de beatificação

Servo de Deus Padre João Maria foi referência no socorro aos pobres e no combate às injustiças no século XIX; Igreja analisa sua trajetória para possível reconhecimento de santidade

Thiago Coutinho
Da redação

Busto de Padre João Maria, em Natal / Foto: Marcos Elias de Oliveira Júnior – Wikipedia

“O Anjo de Natal” e “Apóstolo da Caridade”. Estes foram os epítetos que tornaram o padre João Maria Cavalcanti de Brito muito querido e lembrado pelo povo potiguar. Sua biografia faz jus ao carinho que os fiéis do Rio Grande do Norte nutrem pelo sacerdote, um padre que dedicou sua vida ao cuidado dos mais pobres e ajudou a reconfigurar o papel da assistência social do século XIX. Agora, o padre está em processo de beatificação que tramita em fase romana.

“O padre João Maria Cavalcanti de Brito converteu a assistência aos pobres de gesto individual em ação organizada e de alcance público”, recorda o padre Bianor Francisco de Lima Júnior, pároco da Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes, da Arquidiocese de Natal (RN). “Na grande seca de 1889, a presidência da província confiou-lhe a distribuição dos socorros aos retirantes: junto ao consistório da matriz de Natal chegou a reunir-se uma multidão de cerca de três mil famintos, cena registrada pela Gazeta do Natal no artigo ‘A fome e seus horrores’. Não se tratava de esmola avulsa, mas do pároco tornado canal de confiança do poder público para gerir o socorro, amparado nas irmandades e associações leigas que cultivava; a ele coube ainda presidir a primeira entidade abolicionista da província, o que o inscreve entre os que combatiam as injustiças estruturais, e não apenas suas consequências”.

A prova maior do carinho de padre João Maria para com o povo de Natal viria em 1904, com a chegada de migrantes e da varíola, doença altamente contagiosa e que levaria à morte centenas de pessoas, inclusive o sacerdote, um ano depois. Esses fatos consolidaram sua imagem junto aos fiéis. “Não o heroísmo de um gesto excepcional, mas a perseverança cotidiana no bem levada até o dom da própria vida”, observa o padre Bianor Francisco.

O processo de beatificação

Diante da conclusão da fase diocesana e do envio dos autos ao Dicastério para as Causas dos Santos, existem alguns critérios históricos e relatos de graças necessários para fundamentar o processo e levar à beatificação. 

“Por não se tratar de martírio, a causa funda-se na prova da vida e das virtudes heroicas, acompanhada de duas realidades que a instrução Sanctorum Mater define com precisão: a fama de santidade — opinião difundida, espontânea, estável e contínua entre o povo de Deus sobre a integridade de vida e as virtudes em grau heroico — e a fama de sinais”, explica o sacerdote da Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes.

O processo foi, então, dividido em duas etapas: de um lado, o exame documental e testemunhal da vida, conduzido pela comissão histórica e pelos censores teólogos; de outro, o registro das graças alcançadas. “A devoção que sustentou a abertura formal do processo, em 2002, manteve-se sólida e ininterrupta, alimentada por numerosos testemunhos de curas e favores atribuídos à sua intercessão. Segundo a postulação, um dos principais fundamentos do processo foi o testemunho de inúmeras graças atribuídas à sua intercessão, entre as quais ganhou destaque o relato de cura de um homem equatoriano acometido de câncer, e as virtudes que mais se sobressaem em sua vida são a fé, a esperança e a caridade”, detalha o sacerdote.

O que resta são as distinções técnicas que estão previstas nas normas Normae servandae e Divinus perfectionis Magister. “As graças alimentam a fama de sinais, mas a beatificação exige a comprovação canônica de um milagre específico, examinado à parte por peritos médicos e teólogos, e apenas depois de reconhecidas as virtudes heroicas”, explica o padre Bianor.

Atualmente, a causa encontra-se na fase romana, uma vez que a etapa diocesana foi finalizada com uma sessão solene na Catedral Metropolitana de Natal, em 9 de outubro de 2024. Toda a documentação foi reunida pelo Tribunal Arquidiocesano e entregue ao Dicastério para as Causas dos Santos nos dias 16 e 17 de outubro de 2024 pelo postulador frei Jociel Gomes. “Caso o parecer das comissões vaticanas seja favorável, o primeiro reconhecimento será o de venerável, conferido a quem viveu as virtudes cristãs em grau heroico, exigindo-se depois a comprovação de um milagre para a beatificação. Quanto à conclusão, não há prazo previsível”, esclarece o sacerdote.

A inspiração social

Padre João Maria articulou o trabalho pastoral com a criação de instrumentos sociais, a exemplo da fundação da Escola São Vicente e do periódico Oito de Setembro. Seu traço mais característico, segundo o padre Bianor, foi articular o ministério religioso — altar, confessionário e pregação — a instrumentos de ação social e cultural.

“No campo da comunicação, fundou e dirigiu, a partir de 1897, o Oito de Setembro, primeiro periódico católico do Rio Grande do Norte, quinzenário ‘religioso e popular’ que se tornou o púlpito impresso de suas campanhas até o ano de sua morte. No campo educacional, respondeu ao avanço do ensino confessional protestante mobilizando a opinião pública com o artigo ‘Paróquias sem escolas paroquiais'”.

A presença política e espiritual do padre era tão forte e abrangente que, à época de sua morte, o jornal de vertente evangélica O Século lamentou e cobriu seu féretro. “Em pleno tempo de rivalidades entre católicos e protestantes”, exalta o padre Bianor. “Quem construíra pontes a vida inteira uniu, no próprio enterro, católicos e protestantes, autoridades e homens simples, ricos e pobres, reunião que se repetiria nas romarias comemorativas das décadas seguintes e ajudaria a explicar a permanência ininterrupta de sua devoção”, finaliza.

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