Viagem Apostólica

Declaração Conjunta de Leão XIV e Bartolomeu I: a meta da unidade cristã

Na celebração dos 1700 anos do Concílio de Niceia, o Papa Leão XIV e o Patriarca Bartolomeu I assinaram uma Declaração Conjunta sobre os caminhos da unidade dos cristãos

Da redação, com Vatican News

Foto: Anadolu Agency via Reuters Connect

Em uma declaração conjunta, assinada na manhã deste sábado, 29, o Papa Leão XIV e o Patriarca Bartolomeu afirmaram, entre outras coisas, que os obstáculos à união dos cristãos devem ser enfrentados através do caminho do diálogo teológico, assim como a importância de reconhecer que o que nos une é a fé expressa no Credo de Niceia.

Com relação à celebração da Páscoa, ser uma data a todos os cristãos, espera-se um contínuo processo de explorar uma possível solução para celebrar juntos a Festa das Festas todos os anos.

Por fim, afirmaram que a meta da unidade cristã inclui o objetivo de contribuir de maneira fundamental e vivificante para a paz entre todos os povos, condenando o uso da religião e do nome de Deus para justificar a violência.

Leia abaixo o texto na íntegra:

Declaração Conjunta

“Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom, porque o seu amor é eterno” (Sl 106, 1)

Na véspera da festa de Santo André, o primeiro Apóstolo a ser chamado, irmão do Apóstolo Pedro e padroeiro do Patriarcado Ecuménico, nós, o Papa Leão XIV e o Patriarca Ecumênico Bartolomeu, agradecemos sinceramente a Deus, nosso Pai misericordioso, pela dádiva deste encontro fraterno. Seguindo o exemplo dos nossos veneráveis predecessores e obedecendo à vontade de nosso Senhor Jesus Cristo, continuamos a caminhar com firme determinação na via do diálogo, no amor e na verdade (cf. Ef 4, 15), rumo à tão esperada restauração da plena comunhão entre as nossas Igrejas irmãs. Conscientes de que a unidade cristã não é simplesmente o resultado de esforços humanos, mas um dom que vem do alto, convidamos todos os membros das nossas Igrejas – clero, monges, pessoas consagradas e fiéis leigos – a procurarem intensamente a realização da oração que Jesus Cristo dirigiu ao Pai: «para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti […] e o mundo creia que Tu me enviaste» (Jo 17, 21).

A comemoração do 1.700º aniversário do Primeiro Concílio Ecuménico de Niceia, celebrada na véspera do nosso encontro, foi um momento extraordinário de graça. O Concílio de Niceia, realizado em 325, foi um evento providencial de unidade. No entanto, o propósito de comemorar este evento não é apenas recordar a importância histórica do Concílio, mas estimular-nos a estar continuamente abertos ao mesmo Espírito Santo que falou através de Niceia, enquanto enfrentamos os muitos desafios do nosso tempo.

Estamos profundamente gratos a todos os líderes e delegados de outras Igrejas e comunidades eclesiais que se dispuseram a participar neste evento. Além de reconhecermos os obstáculos que impedem a restauração da plena comunhão entre todos os cristãos – obstáculos que procuramos enfrentar através do caminho do diálogo teológico –, devemos também reconhecer que o que nos une é a fé expressa no Credo de Niceia.

Esta é a fé salvadora na pessoa do Filho de Deus, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, homoousios com o Pai, que por nós e pela nossa salvação se encarnou e habitou entre nós, foi crucificado, morreu e foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, subiu ao céu e de novo há de vir para julgar os vivos e os mortos.

Através da vinda do Filho de Deus, somos iniciados no mistério da Santíssima Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo – e somos convidados a tornar-nos, em e através da pessoa de Cristo, filhos do Pai e coerdeiros com Cristo pela graça do Espírito Santo. Dotados desta confissão comum, podemos enfrentar juntos os desafios partilhados no testemunho da fé professada em Niceia, com respeito mútuo, e trabalhar em conjunto em vista de soluções concretas, com esperança genuína.

Estamos convencidos de que a comemoração deste importante aniversário pode inspirar novos e corajosos passos no caminho rumo à unidade. Entre as suas decisões, o Primeiro Concílio de Niceia também estabeleceu os critérios para determinar a data da Páscoa, comum a todos os cristãos. Somos gratos à divina providência por este ano, em que todo o mundo cristão celebrou a Páscoa no mesmo dia. É nosso desejo comum continuar o processo de explorar uma possível solução para celebrarmos juntos a Festa das Festas todos os anos. Esperamos e oramos para que todos os cristãos, «com toda a sabedoria e inteligência espiritual» (Cl 1, 9), comprometam-se com o processo de chegar a uma celebração comum da gloriosa ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo.

Este ano, comemoramos também o 60º aniversário da histórica Declaração Conjunta dos nossos veneráveis predecessores, o Papa Paulo VI e o Patriarca Ecuménico Atenágoras, que pôs fim à troca das excomunhões de 1054.

Damos graças a Deus porque aquele gesto profético fez com que as nossas Igrejas buscassem «num espírito de confiança, estima e caridade mútua o diálogo que, com a ajuda de Deus, conduzirá a uma nova convivência, para o bem maior das almas e a vinda do reino de Deus, naquela plena comunhão de fé, concórdia fraterna e vida sacramental que existiu entre elas durante os primeiros mil anos da vida da Igreja» (Declaração Conjunta do Papa Paulo VI e do Patriarca Ecumênico Atenágoras, 7 de dezembro de 1965).

Ao mesmo tempo, exortamos aqueles que ainda hesitam, perante qualquer forma de diálogo, a ouvirem o que o Espírito diz às Igrejas (cf. Ap 2, 29) urgindo-nos, nas circunstâncias atuais da história, a apresentar ao mundo um testemunho renovado de paz, reconciliação e unidade.

Convencidos da importância do diálogo, expressamos o nosso apoio contínuo ao trabalho da Comissão Mista Internacional para o Diálogo Teológico entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa, que na sua fase atual está a examinar questões que historicamente têm sido consideradas causas de divisão.

Paralelamente ao papel insubstituível que o diálogo teológico desempenha no processo de aproximação entre as nossas Igrejas, reconhecemos também os outros elementos necessários a este processo, incluindo os encontros fraternos, a oração e o trabalho partilhado em todas as áreas onde a cooperação já é possível. Exortamos veementemente todos os fiéis das nossas Igrejas, e especialmente o clero e os teólogos, a acolherem com alegria os frutos alcançados até agora e a trabalharem para o seu contínuo crescimento.

A meta da unidade cristã inclui o objetivo de contribuir de maneira fundamental e vivificante para a paz entre todos os povos. Juntos, levantamos fervorosamente as nossas vozes para invocar o dom da paz de Deus sobre o nosso mundo. Tragicamente, em muitas regiões do nosso planeta, conflitos e violência continuam a destruir as vidas de tantas pessoas. Apelamos àqueles que têm responsabilidades civis e políticas para que façam tudo o que for possível para garantir que a tragédia da guerra cesse imediatamente, e pedimos a todas as pessoas de boa vontade que apoiem o nosso apelo.

Em particular, rejeitamos qualquer uso da religião e do nome de Deus para justificar a violência. Acreditamos que o diálogo inter-religioso autêntico, longe de ser causa de sincretismo e confusão, é essencial para a coexistência de povos de diferentes tradições e culturas. Tendo em mente o 60º aniversário da declaração Nostra Aetate, exortamos todos os homens e mulheres de boa vontade a trabalharem juntos para construir um mundo mais justo e solidário e a cuidarem da criação, que nos foi confiada por Deus. Só assim a família humana poderá superar a indiferença, o desejo de domínio, a ganância pelo lucro e a xenofobia.

Embora estejamos profundamente alarmados com a atual situação internacional, não perdemos a esperança. Deus não abandonará a humanidade. O Pai enviou o seu Filho Unigênito para nos salvar, e o Filho de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, concedeu-nos o Espírito Santo, para nos tornar participantes da sua vida divina, preservando e protegendo a sacralidade da pessoa humana.

Pelo Espírito Santo, sabemos e experimentamos que Deus está conosco. Por isso, em nossa oração, confiamos a Deus todos os seres humanos, de modo particular aqueles que padecem necessidade, os que passam fome, solidão ou doença. Invocamos sobre cada membro da família humana todas as graças e bênçãos «para que tenham ânimo nos seus corações, vivendo bem unidos no amor, e assim atinjam toda a riqueza, que é a plena compreensão, o conhecimento do mistério de Deus» (Cl 2, 2): nosso Senhor Jesus Cristo.

Fanar, 29 de novembro de 2025

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