Há um mês, Leão XIV lançava um documento que ajuda a desenhar os caminhos do seu pontificado. Na encíclica Magnifica Humanitas, o Papa faz um alerta sobre os riscos da inteligência artificial e reforça a defesa da dignidade humana
Reportagem de Catarina Jatoba e Genilson Pacetti
A humanidade magnífica. Este dado criação de Deus foi ressaltado na primeira encíclica do Papa Leão XIV, que trouxe à tona uma discussão necessária e muito atual na sociedade. A ética no uso da inteligência artificial para preservar a dignidade da pessoa humana.
“A inteligência artificial que é a maior revolução cibernética de todos os tempos. ligar isso com a dignidade humana, porque realmente a gente sabe que a inteligência artificial ela tem coisas maravilhosas, pode ajudar muito a vida humana, mas também se for mal usada pode atrapalhar muito, pode ferir a dignidade humana, pode priorizar mais ainda aqueles que já estão bem e em detrimento daqueles que já estão mais excluídos na sociedade. Então essa é a preocupação do Papa”, ressaltou o teólogo e professor Felipe Aquino.
A primeira encíclica de um papa é considerada a síntese do seu programa de governo e indica as prioridades pastorais e os desafios que devem ser enfrentados naqueles anos de pontificado. “Os próprios cardeais que o elegem sabem a situação da Igreja, sabem a situação do mundo. Então eles procuram encontrar exatamente um cardeal para ser eleito o Papa que tenha condições de enfrentar a situação atual. Por exemplo, quando o Papa João Paulo II foi eleito, todo mundo sabia daquela questão do comunismo. Nós vivíamos a Guerra Fria entre a Rússia e os Estados Unidos. Então, veio um Papa que ajudou a resolver muito.
Depois nós tivemos um tempo de muito paganismo, e ateísmo. Aí vem Bento XVI, que vem falar da ditadura do relativismo. Colocou isso como um tema central. E agora a gente vê exatamente a questão dessa maior revolução industrial que nós já tivemos, que foi a inteligência artificial, que até hoje nem nós entendemos direito até onde isso pode chegar”, afirmou o professor.
A Magnífica Humanitas foi simbolicamente assinada no dia 15 de maio, data do aniversário da encíclica Inovar e traz uma preocupação semelhante à de Leão XIII, que fez frente aos impactos causados pela revolução industrial na sociedade. “O mundo sofreu uma grande mudança por causa da revolução industrial. Surgiram as máquinas até então tudo era manufaturado. Com o advento das máquinas, o que aconteceu? O povo veio do campo para cidade de emprego e aí criou-se um caos social. Então, povo vivendo muito mal, trabalhando 13 horas por dia, não havia lei trabalhista, nem nada. Surgiram, então, duas propostas para resolver o social, o marxismo e o comunismo. E aí o Papa lançou a regra renovada. Ou seja, qual é a solução de Cristo do Evangelho para a justiça social? Aí nasceu a Doutrina Social da Igreja, praticamente.
Os princípios da Doutrina Social da Igreja também foram resgatados pelo Papa Leão XIV na encíclica diante da nova revolução industrial da história, que é a inteligência artificial. Todos os papas deram continuidade à Doutrina Social por quê? Porque o que é a Doutrina Social da Igreja? É a proposta do Evangelho para resolver o problema social que influencia tudo, a indústria, o comércio, as guerras. Ou seja, então ele diz, vamos de novo, a Igreja precisa apresentar para resolver o problema social hoje. Então, é preciso lançar”, confirmou o estudioso.
Uma das grandes preocupações de Leão XIV apontada na encíclica é que a inteligência artificial se concentre nas mãos das grandes corporações e das potências mundiais e assim seja usada numa lógica capitalista.
Sem desprezar o uso positivo da IA, o Papa Leão XIV defende que a inteligência artificial deve ser uma ferramenta para ajudar a humanidade, mas que nunca deve substituir o pensamento crítico e o coração humano.
Quando isso acontece, as decisões são delegadas apenas ao algoritmo que se baseia na lógica da eficiência e tira totalmente o foco da pessoa humana.
Mesmo quando as máquinas se destacam em produtividade, o centro da história continua sendo o rosto humano que pede para ser olhado.
“O homem é criado à imagem e semelhança de Deus, então ele tem uma dignidade inalienável que não pode ser ferida. Então a maior preocupação do Papa na encíclica é exatamente defender a dignidade humana”, completou o professor.
Disponível no site do Vaticano, a encíclica é uma riqueza que nos faz um convite à leitura. O que não podemos é ficar alheios a esta transformação histórica que veio para ficar.




