Diante de desafios como a perda de empatia no ambiente imersivo, encíclica do Papa defende acolhimento comunitário e vivência da caridade como princípios ativos
Thiago Coutinho
Da redação

Foto ilustrativa / Tinnakorn Jorruang de Getty Images via Canva
Nesta última matéria sobre a encíclica Magnifica humanitas, o foco é o quinto capítulo do documento do Papa Leão XIV: “A cultura do poder e a civilização do amor”. Em um cenário em que a lógica dos algoritmos parece cada vez mais ditar as regras — desde o que se veste até o que se fala, passando pelo comportamento e pela política —, há o risco iminente de a cultura do poder e do controle social sufocar a gratuidade evangélica.
“A lógica dos algoritmos funciona de uma forma que a gente acredita que tudo venha de fora para dentro. Que a gente não escolhe nada. Porém, somos nós que moldamos o nosso algoritmo, sem perceber”, explica Silvia Torreglossa, jornalista, professora universitária e Cooperadora Paulina, que atua no setor de Educomunicação da Signis Brasil.
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.: Encíclica Magnifica humanitas
A especialista explica que cada experiência em ambiente virtual, cada pesquisa respondida e cada interação contribui para a arquitetura dos algoritmos. “Somos nós que abrimos as portas. Por isso, quando falo sobre a nossa presença enquanto Igreja na internet, de forma geral, digo que temos que ocupar esse espaço. Porque, da mesma forma que os algoritmos de lojas e de marcas encontram as pessoas, o pensamento cristão, a lógica cristã, também tem que chegar a elas”, afirma.
Silvia, porém, ressalta que Igreja não tem que seguir modismos ou a prática do que vem sendo feito pela maioria. É exatamente o oposto que deve ser feito. “Nós temos que ocupar esse espaço de forma ética e inteligente para chegar às pessoas. Então, não é ‘surfar na onda’, mas compreender todo o processo de como tudo isso funciona e usarmos isso como ferramenta de comunicação”, pondera.
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Civilização do amor
O Santo Padre aborda neste último capítulo da Magnifica humanitas o conceito de civilização do amor. Trata-se, basicamente, de uma defesa que o Pontífice faz do amor e da caridade como princípios ativos para preservar a humanidade diante dos riscos do isolamento, da polarização e da normalização da guerra na era da Inteligência Artificial.
Esse conceito traz à tona um questionamento: há riscos de as ferramentas de IA anestesiarem a capacidade de empatia dos seres humanos? “Acredito que não há nenhuma profissão, nenhuma área que não tenha sido impactada pela inteligência artificial”, afirma Silvia. “Mas também vejo uma saturação disso tudo”, emenda. “Lembro-me de quando lançaram a realidade aumentada. Em pouco tempo aquilo cansou, saturou. Acredito que a inteligência artificial, enquanto ferramenta, tem um caminho longo. Ela vai auxiliar em muitos processos”, pontua.

A fé pode ser um farol em tempos de excesso de tecnologia e falta de empatia / Foto: Florian Olivo por Unsplash
A jornalista e professora, porém, desconfia que o uso da tecnologia pode “pasteurizar” as relações e o comportamento humano. “É como se pasteurizasse pessoas. Brinco que todas as vezes que peço auxílio à IA em relação a uma foto minha, ela junta meus dentes. Tenho um pequeno diastema entre os dentes da frente. Acho que, dentro da perspectiva da inteligência artificial que está me atendendo, dente com diastema não é bonito. Então, há essa questão de arrumar, de transformar. Acredito que essas imagens geradas pela inteligência artificial, no uso comum, vão acabar saturando”.
Sobre a influência na empatia humana, Silvia crê que a humanidade já vem caminhando nesse sentido há algum tempo. “É só ouvir o rádio e ler o jornal para ficar sabendo das coisas, da questão da violência. E a violência não vem só dos criminosos, mas de pessoas comuns que não conseguem lidar com determinadas frustrações. Então, acredito que a tecnologia digital, culminando na inteligência artificial, aumentou essa propulsão, mas não é a causa. Não acredito que seja a causa”, analisa.
A maior preocupação de Silvia em relação à inteligência artificial são as deepfakes — notícias falsas que manipulam áudio, vídeo e imagem com tamanho realismo que se passam por verdadeiras para as pessoas. “Nesse sentido, acredito que a inteligência artificial acaba dando condições para esses crimes acontecerem”, lamenta.
Concentração de poder e a fragilidade emocional
Outro ponto abordado pelo Pontífice nesta encíclica é a concentração de poder no mundo digital, frente aos quais os princípios da Doutrina Social se tornam critérios de avaliação desse novo cenário. O texto indica que a sociedade deve trabalhar para desvincular o controle dessas novas tecnologias dessa “cultura do poder” e colocá-las, de fato, a serviço da construção de comunidades mais fraternas e solidárias.
A inteligência artificial pode ajudar, mas a palavra final deve ser mantida pelos humanos. “Nós temos que manter o controle”, rebate Silvia. “E não há uma resposta fácil para isso. É um problema que enfrentamos e vai ficar cada vez pior. Quem trabalha com educação sabe como está difícil fazer com que os alunos produzam textos próprios. Os textos ficarão todos iguais”, lamenta.
Uma das facetas prejudiciais do ambiente digital imersivo são os altos índices de adoecimento psíquico, isolamento e desespero, sobretudo nos mais jovens. Neste quinto capítulo da encíclica, o Papa aponta que a “civilização do amor” pede foco no acolhimento, no pertencimento e na vida comunitária real, que se traduziriam em um antídoto ou caminho de cura para essa fragilidade emocional potencializada pela era da IA.
A espiritualidade, nesse contexto, pode ser uma ferramenta imprescindível para ajudar a escapar dessas armadilhas tecnológicas. “A espiritualidade, de forma geral, vem ao encontro para nos auxiliar a entender e a olhar para tudo isso”, aponta Silvia.
A especialista deixa claro que o lado espiritual não pode atuar sozinho: “Há muitas questões ali — psiquiátricas e psicológicas — que devem ser tratadas por profissionais e especialistas. Mas o jovem que tem uma vida espiritualizada tem um suporte melhor. A gente consegue enxergar a realidade de outra maneira. Conhecemos a vida de Jesus Cristo, entendemos a Palavra Dele, escutamos e temos esse momento das celebrações. A espiritualidade nos dá uma base melhor para entender a realidade”, finaliza.




