Verdade, trabalho e liberdade

Padre sobre a Magnifica Humanitas: colocar a pessoa acima da tecnologia

No 4º capítulo da encíclica, padre Francisco Galvão indica que Leão XIV reflete sobre como preservar a pessoa diante das transformações tecnológicas

Julia Beck
Da Redação

Close do olhar de uma pessoa voltado para o horizonte ao pôr do sol, com a luz dourada iluminando os cílios e o rosto, simbolizando reflexão, esperança e futuro.

Olhar voltado para o horizonte, para o futuro /Foto: Canva

Preservar o ser humano no centro do desenvolvimento tecnológico é a principal preocupação — e, ao mesmo tempo, uma exortação — do Papa Leão XIV no quarto capítulo de sua encíclica Magnifica Humanitas, intitulado “Salvaguardar o humano na transformação: verdade, trabalho e liberdade”. O Santo Padre destaca três pilares essenciais para proteger a dignidade humana em um tempo de rápidas mudanças: verdade, trabalho e liberdade.

O religioso paulino e doutor em Comunicação, padre Francisco Galvão, explica que “salvaguardar o humano” significa reconhecer que a tecnologia é fruto da inteligência dada por Deus, mas não pode substituir aquilo que constitui a essência das relações humanas.

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“Vivemos uma época marcada pela rapidez e pelo avanço da tecnologia. Isso é fruto da inteligência humana e, portanto, dom de Deus. Contudo, o excesso de conectividade traz consigo uma série de desafios. O principal deles está relacionado ao encontro efetivo com o outro”, afirma.

As mídias sociais, prossegue o sacerdote, podem criar uma falsa sensação de proximidade, enquanto os relacionamentos concretos se enfraquecem. “Às vezes, preferimos o afeto ilusório de quem está longe a enfrentar os desafios do encontro com quem está ao nosso lado.”

Padre Francisco ressalta que salvaguardar o humano é olhar nos olhos e reconhecer-se na fragilidade do outro, tendo sempre em vista que “somos imagem e semelhança de Deus quando assumimos a nossa própria humanidade”.

A verdade como bem comum

Ao abordar a verdade, Leão XIV alerta para os riscos da desinformação, da manipulação digital e da perda da capacidade de discernimento. Em um ambiente marcado pelo excesso de informações, o documento recorda que a verdade é indispensável para a vida em sociedade e para a proteção da dignidade humana.

Esse desafio, de acordo com o presbítero, exige uma vida interior sólida. “Em tempos de distração e excesso de informação, não é fácil identificar a verdade. Quanto mais distraídos, mais dispersos nos tornamos. Quem ama o Senhor não se deixa enganar por falsas promessas ou falsas verdades. A verdade é fruto da intimidade”, ressalta.

O sacerdote paulino sublinha que, na perspectiva cristã apresentada pela encíclica, comunicar a verdade não significa apenas transmitir informações corretas, mas testemunhar uma vida alicerçada na paz que nasce da relação com Deus.

Trabalho a serviço da pessoa

O trabalho é outro aspecto desenvolvido pelo Papa neste capítulo. A encíclica reconhece os benefícios proporcionados pelas novas tecnologias, mas insiste que a inovação deve promover o bem da pessoa humana, e não reduzi-la a instrumento de produtividade ou lucro.

Padre Francisco destaca que a tecnologia encontra seu verdadeiro sentido quando fortalece os vínculos humanos. Nesse contexto, explica que ela deve estar a serviço da pessoa, fortalecendo as relações, os afetos e as amizades, e não o contrário. Segundo o presbítero, quando a tecnologia é utilizada apenas para ampliar poderes e riquezas individuais, o ser humano acaba ficando à margem.

O sacerdote acrescenta que o equilíbrio entre desenvolvimento tecnológico e valorização do trabalhador passa pelo conhecimento das potencialidades da tecnologia, da realidade humana e, sobretudo, dos valores do Evangelho.

Liberdade para viver plenamente

Ao refletir sobre a liberdade, Leão XIV chama a atenção para fenômenos como as dependências digitais, o controle social e a mercantilização da pessoa. O Pontífice alerta que a tecnologia jamais deve comprometer a liberdade interior nem transformar o ser humano em objeto.

Segundo o religioso paulino, a verdadeira liberdade nasce da relação com Deus. “Uma pessoa livre é alguém que aprendeu a pertencer a Deus. Existem diversas formas de aprisionamento no mundo digital: a mentira, a inveja, a hipocrisia, a pornografia e os vícios em geral.”

Ele acrescenta que a vida espiritual oferece critérios para enfrentar essas realidades. “Só gasta a vida em frente a uma tela quem não sabe qual é o sonho de Deus para sua vida. A vida espiritual nos dá a medida certa das coisas”, pondera.

Um chamado a despertar para o essencial

Ao reunir os temas da verdade, do trabalho e da liberdade, o quarto capítulo da Magnifica Humanitas reforça que a encíclica não é um documento sobre inteligência artificial, mas sobre a vocação e a dignidade da pessoa humana diante das transformações do mundo contemporâneo. Segundo padre Francisco Galvão, a mensagem do Papa pode ser resumida como um convite a recolocar o essencial no centro da vida:

“Sem verdade, a vida se torna uma grande ilusão. Sem trabalho, a vida se torna um tédio. Sem liberdade, a vida se torna um fardo. A encíclica é um grito do Papa dizendo-nos: acordem! A vida está passando. É preciso despertar para o encontro consigo mesmo, para a escuta do outro e para a intimidade com Deus. Eis o segredo de uma vida magnífica e plena de significado.”

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