Dilexi Te

Bispo sobre 1º ano de Leão XIV: fé em diálogo com as feridas do mundo

Exortação Dilexi Te antecipou eixo teológico e pastoral que marca primeiro ano do pontificado de Leão XIV; bispos e religioso frisam relevância do documento

Julia Beck
Da Redação

Foto: Rocco Spaziani/Mondadori Portfolio/Sipa USA via Reuters Connect

“Eu te amei.” Esta é a tradução de Dilexi Te, título da primeira Exortação Apostólica do Papa Leão XIV, dedicada ao amor para com os pobres — como destacou a Santa Sé. Mas o que a “Dilexi Te” revela sobre Leão XIV?

Para o bispo da Diocese de Livramento de Nossa Senhora (BA), Dom Vicente de Paula Ferreira, o Santo Padre evidencia, na exortação, uma atenção particular às vulnerabilidades do nosso tempo. A paz — primeira palavra pronunciada pelo Pontífice ao se apresentar após a eleição — converge com esse eixo. “A recorrência das temáticas da pobreza e da paz revela não apenas uma preocupação social, mas uma leitura teológica atenta da realidade, com um olhar que parte do amor de Deus pelos mais pequeninos”, destaca.

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.: Íntegra da exortação apostólica Dilexi te

Dom Vicente reforça que, no texto, o Papa retoma as palavras de Jesus — “Sempre que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40) — para afirmar que o encontro com os que não têm poder nem reconhecimento é um caminho privilegiado de encontro com o Senhor da história (DT, n. 5). “Lutar pela dignidade de toda pessoa humana é uma escolha de fé. Por isso, considero que o pontificado de Leão XIV se inicia com forte densidade teológica, unida a um compromisso pastoral, recolocando os pobres no centro da vida e da missão da Igreja, que é anunciar o Reino de Deus — reinado de paz e justiça”, afirma.

Nome “Leão”

A escolha do nome “Leão”, feita pelo Cardeal Robert Prevost, já indicava que a dimensão social seria uma das marcas do novo pontificado. Quem analisa é o diretor-secretário da Ação Social Franciscana (Sefras), Frei Gabriel Vargas Dias Alves (OFM). Ele explica que a referência remete diretamente ao legado de Leão XIII, autor da encíclica Rerum Novarum, cujo conteúdo permanece atual ao defender o bem comum e a dignidade humana como fins da organização social.

Para o franciscano, a “Dilexi Te” resgata a identidade samaritana da Igreja, desde a ação de Cristo até os dias atuais. “É visível que o Papa tem relembrado continuamente a atenção aos pobres como elemento constitutivo da Igreja, ao mesmo tempo em que denuncia estruturas que geram e perpetuam a pobreza. Ele também tem recorrido a gestos simbólicos que tornam essas realidades visíveis — justamente aquilo que, muitas vezes, se tenta esconder”, observa. Frei Gabriel também destaca a postura firme do Pontífice diante de conflitos internacionais, sobretudo em relação às guerras, mesmo diante de pressões e ameaças.

Igreja e os mais pobres

A atenção aos pobres, pontua Dom Vicente, manifesta-se na articulação entre dimensões espiritual, ética, social e ecológica. Segundo ele, Leão XIV não reduz a pobreza a um fenômeno casual, mas a compreende como uma realidade histórica, fruto de uma sociedade marcada pela ganância e por práticas extrativistas que ferem tanto o ser humano quanto o planeta.

Frei Gabriel acrescenta que a multiplicação das formas de pobreza compromete direitos e dignidade, sendo muitas vezes interpretada de forma equivocada como responsabilidade individual. “A maior pobreza é a pobreza de amor. É ela que nos impede de reconhecer o outro como irmão e sustenta todas as demais formas de pobreza”, afirma.

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Dom Vicente observa ainda que a perspectiva do Papa conduz a uma crítica contundente às desigualdades contemporâneas, ao denunciar que “num mundo onde os pobres são cada vez mais numerosos, vemos crescer, paradoxalmente, algumas elites ricas […] quase num mundo à parte” (DT, n. 11). Nesse sentido, o pontificado articula caridade e justiça, convocando não apenas à assistência imediata, mas à transformação das estruturas que geram exclusão.

Mais do que categorias ideológicas, ressalta Frei Gabriel, a opção preferencial da Igreja pelos pobres tem fundamento evangélico. “Cristo nunca ignorou aqueles que eram invisibilizados pelas estruturas econômicas e até religiosas. O Evangelho é a Boa Nova anunciada, sobretudo, aos últimos — que, aos olhos de Deus, são os primeiros”, diz.

O religioso também recorda que práticas como o jejum, a oração e a caridade evidenciam que a fé não é superficial, mas atravessa todas as dimensões da vida. “Nossa relação com Deus é inseparável da relação com os irmãos. Não se pode viver uma fé restrita ao espaço sagrado da Igreja sem tocar o sagrado da vida. ‘Eis o que é preciso praticar, sem omitir aquilo’ (cf. Mt 23,23)”, sublinha.

Pontificados de Francisco e Leão XIV

O presidente da Comissão para a Ação Sociotransformadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e bispo de Brejo (MA), Dom José Valdeci Santos Mendes, avalia que a atenção aos pobres no pontificado de Leão XIV se alinha à de seu antecessor, Papa Francisco, especialmente no compromisso com a paz e a solidariedade.

Segundo o bispo, a atitude missionária do atual sucessor de Pedro — marcada pela coragem no anúncio de Jesus Cristo — também dialoga com o magistério de Francisco. “Leão XIV inspira os católicos a um compromisso concreto com os marginalizados e descartados, promovendo uma Igreja profética e solidária. Sua primeira exortação resgata a Doutrina Social da Igreja e aponta para uma fé vivida a partir do testemunho do Evangelho”, afirma.

Rosto de Cristo

Para Frei Gabriel, documentos como a “Dilexi Te” provocam as instituições a refletirem sobre sua própria razão de existir. “Cuidar dos pobres não pode ser um negócio nem uma bandeira ideológica. Fazemos isso porque reconhecemos neles o rosto de Cristo, que se fez pequeno para nos resgatar”, explica.

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Ele recorda ainda a espiritualidade de São Francisco de Assis, destacando que não há “romantização da pobreza”, mas uma identificação com o caminho de Cristo. “Francisco não escolhe a pobreza por si mesma, mas porque esse foi o caminho escolhido por Cristo para nos salvar”, afirma.

Por fim, o franciscano ressalta que a cátedra de Pedro mantém sua missão de unidade e serviço. “Ali não se senta para ser servido, mas para discernir como lavar os pés que cada tempo exige. E esse testemunho recorda que Eucaristia e lava-pés são inseparáveis”, conclui.

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