Testemunho de fé

Papa lembra que é possível crescer e amadurecer na doença, diz bispo

Bispo referencial para a Pastoral da Saúde e padre assistente eclesiástico dos hospitais de Lorena (SP) frisam testemunho silencioso de Francisco no enfretamento de enfermidade

Julia Beck
Da redação

Papa Francisco deixando o Hospital Gemelli no dia 23 de março, após alta médica /Foto: REUTERS Guglielmo Mangiapane

Aproximadamente quinze dias após a alta médica do Papa Francisco, a Igreja vai viver o Jubileu dos Enfermos e o Mundo da Saúde. O evento, considerado grande neste Ano Santo, terá início neste sábado, 5, e não contará com a presença do Santo Padre – que segue em tratamento em sua residência, a Casa Santa Marta. Foram 38 dias internado no Hospital Gemelli, em Roma, para tratar de um quadro clínico complexo, consequência de uma bronquite.

O bispo da Diocese de Campos (RJ) e referencial para a Pastoral da Saúde, Dom Roberto Ferrería Paz, sublinha o testemunho silencioso dado pelo Pontífice ao enfrentar este momento delicado de sua saúde. A fortaleza, entrega e confiança de Francisco foram considerados pelo bispo como fundamentais.

“Em nenhum momento ele negou o tratamento ou desanimou. Pelo contrário, ele se manteve sempre de bom humor e dócil. É importante falar do triângulo terapêutico configurado por Deus, o médico e o paciente. Temos que obedecer sim à providência divina e confiar-nos a ela, mas também devemos ser dóceis às terapias e à medicação”, lembra.

O pároco da Igreja Nossa Senhora Aparecida e Santo Expedito da Diocese de Lorena (SP) e assistente eclesiástico dos hospitais de Lorena (SP), padre Danilo José dos Santos Moraes, acrescenta que Francisco deu exemplo de como viver o verdadeiro valor do sofrimento unido à fé. “Seu silêncio, sua paciência e perseverança nos mostram que a dor quando acolhida com amor e fé pode se tornar uma oferta preciosa”, reflete.

A Graça Divina é sustento para os momentos de fragilidade e provação, frisa Dom Roberto. “Francisco demonstrou uma resiliência, uma fortaleza, que certamente é sobrenatural. Então, sempre uma doença é uma ocasião para santidade, para santificação. O Papa nos lembra isso, que podemos crescer e amadurecer muito numa doença”.

Dom Roberto Ferrería Paz/ Foto: Regional Leste 1 da CNBB

Ainda sobre a fé em meio à enfermidade, o bispo referencial para a Pastoral da Saúde destaca que é ela que “abre janelas para a eternidade” (por meio da morte, mas também da cura), ajuda a superar as “armadilhas da solidão, da depressão e da desolação, que não raro acontecem, inclusive, especialmente nos momentos de agonia, momentos mais críticos”. Apegar-se ou investir na fé é o conselho de Dom Roberto. “Uma fé confiante, uma fé obediente a Deus, que é amor, que é Pai, que não desiste de nós, que está conosco”.

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Depois, ele encoraja os enfermos a terem esperança. A doença, explica o bispo, tem uma dimensão pascal de transformação, então a esperança faz todos verem que mesmo na doença, estão caminhando para o Pai. “Não de uma forma definitiva, (…) mas estamos justamente indo para Ele, porque de alguma forma estamos caminhando, estamos fazendo um caminho espiritual, de desapego, de confiança, de purificação”.  O amor de Deus, explica o bispo da Diocese de Campos, não é só remédio, mas cura.

Padre Danilo sublinha que a enfermidade do Santo Padre revela que os líderes espirituais não estão “isentos da dor”, mas podem enfrentá-la com confiança em Deus.

Uma passagem profundamente consoladora, destacada pelo sacerdote, é Isaías 41,10: “Não temas, porque eu estou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça”.

“Essa palavra revela que Deus não se ausenta diante da dor. Pelo contrário, Ele se faz ainda mais próximo. O doente pode sentir-se sozinho, frágil ou até mesmo inútil, mas essa promessa de Deus reacende a confiança: Ele sustenta, Ele fortalece, Ele está presente”, indica.

Milagre

O médico e diretor da equipe que acompanhou o Papa durante sua hospitalização, Sergio Alfieri, em entrevista recente ao jornal italiano Corriere della Sera falou em “milagre” ao comentar o período em que Francisco esteve internado. O especialista ainda afirmou que o Papa correu risco de vida por duas vezes, além de ressaltar a decisão do Santo Padre em seguir com o tratamento, mesmo diante da alta possibilidade de danificar outros órgãos.

Dom Roberto afirma que, diante de uma enfermidade, muitos têm a graça de, assim como o Papa, viver milagres de cura e restabelecimento da saúde. No entanto, o bispo frisa que há milagres vividos que não são “extraordinários ou rompantes”, mas são milagres de aceitação, que dão vida nova, fazem descobrir a misericórdia de Deus. “Os sinais são, digamos, a serenidade, a calma que nos traz. (…) Esse estar num estado de aquiescência, de perfeita entrega e harmonia com Deus (…). Isso não é nada, digamos assim, para ‘super santos’”.

Bom humor

Padre Danilo José /Foto: Facebook Paróquia Nossa Senhora Aparecida e Santo Expedito

Durante o tratamento, a Santa Sé emitiu por diversas vezes o boletim sobre a saúde do Papa. Na maior parte deles foi citado o “bom humor” com que o Santo Padre enfrentou a internação. Padre Danilo afirma que, quando alguém vive a enfermidade com fé, há uma serenidade que transparece nos olhos, uma paz que não se explica pelas circunstâncias.

“Já vi muitos pacientes que, mesmo diante da dor, confortavam os próprios familiares e profissionais de saúde. O bom humor, o sorriso sincero, a confiança no cuidado divino, a aceitação sem revolta — tudo isso são sinais da graça agindo”, frisa.

Oração

Os enfermos católicos costumam pedir orações, assim como parentes e amigos costumam fazê-las na intenção deles. É um gesto de fé comum dentro do catolicismo e abrange também o Papa Francisco.

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“Quando rezamos, colocamos nossa fragilidade nas mãos de Deus e reconhecemos que Ele caminha conosco. No caso do Papa, a oração não apenas o sustentou interiormente, mas também uniu toda a Igreja ao seu sofrimento. A oração é, de fato, a fonte da esperança: ela não promete uma cura imediata, mas garante que nunca estaremos sozinhos, e que a cruz pode ser caminho de ressurreição”, salienta padre Danilo.

Dom Roberto comenta que os cristãos de Jerusalém, quando estavam passando pela provação da prisão de Pedro, não duvidavam da necessidade de estar em comunhão plena com o Papa e isso se dava em forma de oração.

Deste modo, padre Danilo indica que rezar pelo Papa é um ato de comunhão e amor. “Ele, como pastor da Igreja universal, precisa do sustento espiritual de seu povo. Além disso, cremos firmemente no poder da intercessão: quando a Igreja reza unida, o Céu se abre. O próprio Jesus nos ensinou que onde dois ou mais estiverem reunidos em oração, Ele estará presente”, garante.

As orações dos irmãos não são apenas consolo emocional, prossegue o sacerdote, elas movem o coração de Deus, fortalecem quem sofre e criam uma corrente de solidariedade espiritual que sustenta o corpo e a alma. Por isso, o presbítero sublinha que continuar rezando pelo Papa é um dever de amor e uma expressão concreta da fé que une a Igreja.

Por fim, Dom Roberto recorda que o Papa é sinal de unidade com Deus. “Jesus fala através dele. Ele é um sinal da presença de Cristo que não deixa sozinha a sua Igreja, que deixa um porta-voz, deixa alguém que tem a doce face de Cristo na Terra, alguém que lembra a Cristo”.

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