Saúde mental e espiritual são complementares e fortalecem o propósito
Uma pesquisa no Brasil mostra que mais de 90% dos psicólogos acreditam em Deus. O dado aponta uma aproximação crescente entre espiritualidade e saúde mental, e ajuda a romper preconceitos sobre a busca por terapia.
Reportagem de Vanessa Anício e Daniel Camargo
Durante muito tempo, o cuidar da saúde emocional foi visto por alguns como sinal de fraqueza na fé. “Tinha muito medo da terapia me afastar do lado espiritual ou não ser condizente com os meus valores espirituais como católica”, contou a consultora empresarial, Bruna Soares.
Mas esse olhar tem mudado. Hoje a psicologia tem sido reconhecida como uma importante aliada no enfrentamento das dores, dos traumas e dos desafios da vida, inclusive entre os cristãos. “Quando fui formador, tive muita dificuldade de inserir psicólogos naquele processo. Mas hoje é um ponto pacífico. Não se entende um processo de formação de um padre sem o auxílio de um profissional”, lembrou o bispo auxiliar da Arquidiocese de BH, Dom José Otácio Guedes.
Ao mesmo tempo, a própria psicologia tem ampliado o olhar, considerando cada vez mais a dimensão espiritual como um auxílio no cuidado com a saúde mental. Um estudo realizado pelo Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde da Universidade Federal de Juiz de Fora entre os anos de 2016 e 2018, com psicólogos brasileiros, revelou que cerca de 91% dos profissionais entrevistados acreditam em Deus. O estudo buscou mostrar a relação entre espiritualidade e saúde mental e apontou que fé e ciência não são caminhos opostos.
“O que os resultados mostraram, foi que a religiosidade está bastante presente entre os psicólogos brasileiros. A gente viu que a maioria possui uma filiação religiosa. A gente tem cerca de 91% que afirmavam crer em Deus e 62% que acreditam que a religião pode ter influência positiva na saúde mental”, apontou a psicóloga clínica e pesquisadora, Pedrita Reis Vargas.
Na prática, essa integração pode trazer mais acolhimento ao paciente, respeitando sua história, seus valores e também sua fé. “Então, a gente já sabe que crenças religiosas e espirituais muitas vezes organizam o sentido da vida, orientam decisões, influenciam a forma da gente lidar com sofrimento. E por isso a proposta é contribuir para uma formação em que os profissionais estejam preparados para escolher essa dimensão quando ela aparece no contexto terapêutico”, ressaltou ela.
“A boa abordagem da fé, ela sabe que há outras dimensões de de que para ter acesso a este ser humano, quando bem assessorada por uma boa ciência, para que ela seja aquela coisa genuína”, reforçou o bispo.
Para a Igreja, fé e cuidado com a saúde mental não apenas podem, como devem caminhar juntos. Reconhecer limites, buscar ajuda e cuidar das emoções também fazem parte de uma vida equilibrada. “Saber dar nomes ao meu sentimento, àquilo que eu tô sentindo, independente da situação que eu tô vivendo, e saber coligar isso com com o lado espiritual, com os meus valores e tendo essa clareza de direcionamento”, concluiu Bruna.