Artigo - Doutrina Social

A praga da corrupção, que mina a vida pessoal e social

A Doutrina Social da Igreja afirma que a corrupção política é uma das mais graves deformações do sistema democrático

Padre Antonio Aparecido Alves*

Corrupção política distorce na raiz a função das instituições representativas / Foto: PeopleImages by Getty Images

A praga da corrupção

A corrupção é uma praga que corrói a sociedade brasileira há décadas, mas que nos últimos anos está sendo desmantelada pela atuação do Ministério Público a partir da delação premiada de empresários, políticos e operadores financeiros presos pela Polícia Federal, de um modo especial através da operação conhecida como “Lava-jato”.

É inegável sua contribuição ultimamente para a moralização da gestão pública em nosso país, que historicamente sempre foi marcada pela confusão entre o público e o privado, gerando a busca de interesses pessoais ou o favorecimento de empresas, partidos, grupos e pessoas.

A corrupção deforma a democracia e desmoraliza as instituições do Estado

A Doutrina Social da Igreja afirma em seu Compêndio que, “entre as deformações do sistema democrático, a corrupção política é uma das mais graves porque trai, ao mesmo tempo, os princípios da moral e as normas da justiça social” (n. 411).

Infelizmente a lentidão dos processos que se arrastam por anos, bem como o foro privilegiado que serve de abrigo jurídico para políticos corruptos, favorecem a impunidade e estimulam à apropriação privada dos recursos públicos. Como se não bastasse isto, os corruptores vivem em uma espécie de corporativismo para se protegerem mutuamente, dificultando ou retardando ações que possam efetivamente puni-los.

Afirma, ainda, o Compêndio da Doutrina Social da Igreja que “a corrupção política introduz uma crescente desconfiança em relação à política e aos seus representantes, com o consequente enfraquecimento das instituições” (idem). Com isto, as pessoas acabam por nivelar por baixo aqueles que atuam no mundo da política, com afirmações do tipo “todo político é ladrão”.

O aparelhamento do Estado

O Compêndio da Doutrina Social da Igreja afirma também que a corrupção política distorce na raiz a função das instituições representativas, porque as usa como terreno de barganha (n. 411). Deste modo, a classe política favorece determinadas empresas enquanto essas, em contrapartida, oferecem ajuda para eleição via caixa dois ou propina.

Afirma, ainda, o Compêndio que, deste modo, “as opções políticas favorecem os objetivos restritos de quantos possuem os meios para influenciá-las e impedem a realização do bem comum de todos os cidadãos” (n. 412).

Deste modo, a relação de algumas empresas com o Estado se torna uma relação clientelista, isto é, elas vão buscar nos órgãos estatais o que necessitam e pagam por isto, com dinheiro que é lavado de diversos modos ou depositado em paraísos fiscais. Isto vai na contramão da missão do Estado, que é zelar pelo bem de todos os cidadãos e administrar aquilo que é público em prol de todos.

O chamado à conversão

Na Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia Misericordiae Vultus (n. 19) o Santo Padre Papa Francisco dirigiu um apelo de conversão aos que estão longe da graça de Deus pela sua conduta de vida, nomeando dois grupos: os que pertencem a quadrilhas criminosas e aos praticantes ou cúmplices da corrupção.

O Pontífice afirma, dirigindo-se aos segundos, que a corrupção é uma “praga putrefata da sociedade, um pecado grave que brada aos céus, porque mina as próprias bases da vida pessoal e social” e que essa “pretende substituir Deus com a ilusão do dinheiro como forma de poder. É uma obra das trevas, alimentada pela suspeita e a intriga, esmagando a vida dos pobres”.

Dirigindo-se a ambos os grupos, o Papa diz que “basta acolher o convite à conversão e submeter-se à justiça, enquanto a Igreja oferece a misericórdia”. Por fim, diz o Santo Padre que para se acabar com a corrupção “são necessárias prudência, vigilância, lealdade, transparência, juntamente com a coragem da denúncia” (idem). Eis o grande desafio para os cristãos e todas as pessoas de boa vontade.

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*Padre Antonio Aparecido Alves é Mestre em Ciências Sociais com especialização em Doutrina Social da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e Doutor em Teologia pela PUC-Rio. Professor na Faculdade Católica de São José dos Campos e Pároco na Paróquia São Benedito do Alto da Ponte em São José dos Campos (SP). Para conhecer mais sobre Doutrina Social visite o Blog: www.caminhosevidas.com.br

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