LEÃO XIV NA FRANÇA

Cardeal Parolin: "que surja, da viagem do Papa, um dinamismo renovado"

Secretário de Estado do Vaticano falou sobre viagem apostólica de Leão XIV à França e destacou renovação de esforços na construção da paz

Da Redação, com Vatican News

Cardeal Pietro Parolin / Foto de arquivo: Daniel Xavier

Iniciada nesta sexta-feira, 25, a viagem apostólica do Papa Leão XIV à França foi comentada pelo secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, em entrevista.

Em meio à expectativa de como será o encontro entre o Pontífice e a Igreja no país, o cardeal destaca o desejo de que, desta viagem, surja um dinamismo renovado — “um grande canteiro de obras aberto de pensamento e ação, no qual crentes e não crentes possam caminhar e trabalhar juntos”.

A vida que o mundo precisa

Ao refletir sobre o lema da viagem, “Para que o mundo tenha vida”, Parolin destacou três dimensões da vida de que o mundo precisa. A primeira delas é a natural, na qual a mensagem que se deseja transmitir é o valor da vida humana, que deve ser acolhida, amada e cuidada, desde a concepção até a morte natural.

“O contexto atual, em muitos países, tende a introduzir e justificar práticas e até mesmo leis que não respeitam esse valor. No contexto da queda na taxa de natalidade na Europa, a viagem à França oferece a oportunidade de redescobrir a vida como um dom a ser acolhido com gratidão e responsabilidade”, afirmou Parolin.

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A segunda dimensão citada pelo cardeal é a espiritual. “A França é hoje um país que se destaca por um grande número de catecúmenos jovens e adultos. Isso oferece a oportunidade de destacar a sede de vida espiritual que marca o mundo atual”, observou.

Por fim, o secretário de Estado apontou que o trabalho realizado para a reconstrução da catedral de Notre-Dame destaca a obra artesanal e intelectual de que o homem é capaz hoje. “Em um mundo cada vez mais tecnológico e artificial, o lema da viagem a Paris permite chamar a atenção para a vitalidade criativa da pessoa humana”, sinalizou.

Promover a “cultura da negociação”

Em seguida, o cardeal refletiu sobre a necessidade de passar da “cultura do poder” para uma “cultura da negociação”, destacada pelo Papa Leão XIV na encíclica Magnifica Humanitas. Além do papel da política, que deve construir instituições justas, garantir os direitos e buscar, por meio da diplomacia, soluções para os conflitos, Parolin cita a cultura e a educação, capazes de formar pessoas que sabem reconhecer no outro um irmão na humanidade e não um inimigo.

A Igreja por sua vez, contribui para formar as consciências à luz do Evangelho, construir pontes, educar para o encontro e dar voz àqueles que correm o risco de não a ter. “A Igreja, por sua natureza, é chamada a ser um espaço no qual pessoas, povos e culturas diferentes aprendam a ouvir-se, a conhecer-se e a reconhecer-se na dignidade comum de filhos de Deus”, expressou o secretário de Estado.

Essa contribuição, que passa pela relação entre fé e razão, é impulsionada pelo mistério da Encarnação a repensar e a compreender novamente o ser humano à luz da Revelação. “Hoje é particularmente necessário, diante do sofrimento de tantos seres humanos e dos danos causados a ecossistemas inteiros, intensificar a reflexão, o diálogo social e a escuta da consciência. E para isso a Igreja deseja contribuir, mostrando como a fé e a razão se enriquecem mutuamente e têm como objetivo servir à vida”, declarou Parolin.

O diálogo, prosseguiu, tem sempre um terreno comum a ser reconhecido e no qual se encontrar, mesmo entre portadores de diferentes culturas e sensibilidades — e, no caso da Igreja, com aqueles que não creem. “Trata-se de um estilo no qual devemos amadurecer, como indivíduos e como comunidade, que nunca é adquirido de uma vez por todas e que, não raro, está sujeito a tensões que podem ferir e afastar”, reconheceu o cardeal.

Paz não pode se resumir a “equilíbrio de forças”

A Santa Sé, reiterou o secretário de Estado, não se cansa de reafirmar que a paz não pode se resumir a um mero jogo de equilíbrio de forças, nem a uma estabilidade precária garantida exclusivamente pela dissuasão e pela corrida armamentista. “Não se trata, evidentemente, de desconsiderar as legítimas necessidades de segurança; é preciso, antes, compreender que uma paz autêntica e duradoura nunca se constrói contra alguém, mas sempre com o outro”, sinalizou.

A França, assinalou Parolin, é chamada hoje a honrar sua missão, continuando a fazer resplandecer no mundo os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. “A Santa Sé confia, portanto, que a França saiba ser intérprete desse necessário ‘esforço criativo’ de harmonia, para que a Europa não se feche em seus próprios medos, mas se reafirme como um laboratório fecundo de solidariedade, acolhimento e integração autêntica”, expressou.

Visitas a Lourdes e Metz

Sobre as etapas da viagem, o cardeal indicou que a visita a Lourdes é um local onde fiéis católicos e também muitas outras pessoas vêm de todo o mundo para confiar suas dores, sofrimentos, esperanças e agradecimentos. “Nisso, Lourdes manifesta a unidade da humanidade, que reconhece em Maria uma figura materna que escuta e consola”, afirmou.

Quanto à etapa em Metz, o secretário de Estado destacou a “fraternidade cristã” presente nos textos de Robert Schuman. Tal conceito propõe, ao contrário, um profundo respeito pelo próximo, que cada um é chamado a amar como a si mesmo, em uma filiação que brota de um Pai comum.

Parolin frisou que os esforços pela paz exigem o reconhecimento por parte de todos de que só será possível enfrentar os desafios se amadurecer a ideia de que a Europa não é uma superestrutura, mas um verdadeiro corpo, no qual a multiplicidade dos membros é harmonizada por uma visão e uma vontade comuns no âmbito da política externa.

“A presença e a palavra do Santo Padre pretendem servir como uma semente de confiança e um convite para não se resignar às lógicas da fragmentação, da polarização e do individualismo. (…) Gostaríamos que desta viagem surgisse um dinamismo renovado: um grande canteiro de obras aberto de pensamento e ação, no qual crentes e não crentes possam caminhar e trabalhar juntos”, concluiu o cardeal.

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