Discurso em Paris

Papa na Unesco: educação para vencer medos e ciência a serviço da vida

Durante visita à Unesco, Papa refletiu sobre os desafios da inteligência artificial e destacou educação e ciência como caminhos para a paz

Julia Beck
Da Redação

Papa durante visita à Unesco, em Paris, nesta sexta-feira, 25 /Foto: Mustafa Yalcin / Anadolu

A defesa da dignidade humana, a construção da paz e os desafios impostos pelas novas tecnologias estiveram no centro do discurso do Papa Leão XIV durante sua visita à sede da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em Paris, nesta sexta-feira, 25. Este foi o segundo compromisso oficial do primeiro dia da viagem apostólica do Pontífice à França, que segue até segunda-feira, 28.

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Diante de representantes da organização, Leão XIV recordou que em 2027 é celebrado o 75º aniversário da presença da Santa Sé na Unesco. Na sequência, destacou que educação, ciência e cultura não podem ser separadas da promoção da pessoa humana. Ao recordar o discurso feito por São João Paulo II na Unesco, em 1980, o Papa afirmou que nenhuma educação pode ser considerada completa se não enfrentar a questão do sentido da existência. “Mesmo no século XXI, não podemos dar por garantido que sabemos quem é a pessoa humana ou o que significa viver como ser humano”, advertiu.

Segundo o Santo Padre, reconhecer a humanidade comum significa compreender que a vida é um dom e que cada pessoa está ligada às demais por uma responsabilidade compartilhada. O Pontífice chamou atenção especialmente para os mais vulneráveis, que sofrem quando a vida humana passa a ser tratada segundo critérios de utilidade ou produtividade.

Ciência e educação a serviço da paz

Ao abordar a responsabilidade da educação, da ciência e da cultura diante dos conflitos atuais, o Papa recordou o preâmbulo da Constituição da Unesco, elaborado após a Segunda Guerra Mundial, segundo o qual, se as guerras começam na mente dos homens, é também nela que devem ser construídas as defesas da paz.

Para Leão XIV, a experiência histórica demonstrou que o progresso científico, quando separado da sabedoria, pode se transformar em instrumento de destruição; da mesma forma, a cultura submetida à ideologia pode se tornar propaganda e a educação, quando abandona a verdade, pode servir à manipulação das consciências.

O Pontífice ressaltou que acordos e tratados são necessários, mas não suficientes para garantir a paz. “A paz é verdadeira quando brota da virtude da justiça, mais do que de um mero contrato; de uma retidão de vontade, mais do que de um equilíbrio instável de interesses”, afirmou.

Nesse contexto, Leão XIV apontou a guerra como a mais terrível das “obras humanas”, sobretudo quando o conhecimento científico é colocado a serviço da destruição e da morte.

Inteligência artificial e risco de desumanização

Um dos principais temas abordados pelo Papa foi o avanço tecnológico. O Santo Padre defendeu que as novas tecnologias permaneçam a serviço da pessoa e não sejam transformadas em instrumentos de domínio e injustiça.

Ao tratar especificamente da inteligência artificial, o Pontífice chamou atenção para um paradoxo contemporâneo: enquanto sistemas computacionais recebem o nome de “inteligência”, a sociedade encontra dificuldades para reconhecer a dignidade inalienável de cada ser humano.

Para o Papa, a dignidade humana não pode ser medida pela eficiência ou produtividade e permanece intacta diante da doença, da fragilidade, da dor e da proximidade da morte.

Leão XIV também destacou os limites da inteligência artificial diante das questões fundamentais da existência. Embora sistemas tecnológicos sejam capazes de estabelecer correlações entre dados, sublinhou o Santo Padre, eles não conseguem responder às perguntas sobre o sentido da vida, que estão enraizadas na experiência humana. “Os seres humanos não podem viver sem sentido. O sentido é o oxigênio da mente”, declarou.

Verdade e proteção das novas gerações

A rapidez da comunicação e a abundância de informações também foram objeto de reflexão. Segundo o Papa, estar mais conectado não significa necessariamente comunicar-se melhor ou ter acesso à verdade.

“A comunicação tornou-se muito mais rápida, mas não necessariamente mais verdadeira; a informação é abundante, mas não corresponde à sabedoria”, observou.

Neste cenário, Leão XIV destacou a importância da educação para o uso responsável dos meios de comunicação e das ferramentas digitais e elogiou o programa de Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.

O Pontífice fez ainda um apelo específico pela proteção de crianças e jovens no ambiente digital. Segundo ele, a vulnerabilidade das novas gerações não pode se transformar em oportunidade de exploração. As tecnologias, afirmou, devem favorecer o crescimento, a formação e as relações, preservando a liberdade de pensar e discernir.

“Babel” e “Pentecostes”

Para refletir sobre os caminhos possíveis para a humanidade, Leão XIV recorreu às imagens bíblicas da Torre de Babel e de Pentecostes. A primeira, explicou, representa uma unidade imposta pelo domínio, enquanto Pentecostes apresenta uma comunhão capaz de preservar e valorizar as diferenças.

Segundo o Papa, a “tentação de Babel” reaparece atualmente em formas de globalização sem fraternidade, no que chamou de “colonialismo financeiro”, nas imposições ideológicas e nas relações que transformam a vida humana em comércio.

Pentecostes, por outro lado, aponta para uma unidade que não elimina a diversidade. “Não é a prepotência de Babel, mas a paz de Pentecostes que possibilita essa comunhão entre os povos”, observou.

Cuidado com os mais vulneráveis

No final do discurso, o Santo Padre relacionou a proteção da dignidade humana ao cuidado com a criação. Ao recordar o conceito de “ecologia da pessoa humana”, abordado por Bento XVI, e a “ecologia integral”, desenvolvida por Francisco, o Papa afirmou que a defesa dos mais vulneráveis deve servir como critério para avaliar o compromisso da sociedade com a dignidade humana.

Entre eles, citou crianças ainda no ventre materno e aquelas que vivem em cenários de guerra, pessoas com deficiências físicas e intelectuais, idosos, migrantes e refugiados.

O Papa também chamou atenção para a crise enfrentada pelas instituições internacionais. De acordo com ele, embora sejam necessárias para responder a desafios que nenhum país consegue enfrentar sozinho, essas instituições convivem com uma crise de eficiência e de confiança no diálogo.

Leão XIV defendeu, contudo, a perseverança no diálogo e na cooperação internacional. “Não se trata de pregar um otimismo ingênuo que ignore as dificuldades, mas sim de perseverar na esperança de que o bem é sempre possível”, afirmou.

Ao concluir, o Pontífice incentivou a Unesco a continuar promovendo o entendimento entre as nações por meio do diálogo entre as culturas e reiterou a confiança na educação e na ciência como instrumentos para a construção da paz.

“Acreditamos que a educação seja o instrumento para superar medos recíprocos e que a ciência possa servir a vida de cada ser humano, semeando no presente a boa colheita do futuro. Esta confiança alimenta a nossa esperança na caridade, ou seja, no serviço ao bem do próximo: dedicando-nos todos com coerência à nossa magnífica humanidade, a paz poderá finalmente florescer”, concluiu.

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