Em audiência com participantes da plenária da Pontifícia Academia das Ciências, Leão XIV refletiu sobre desafios impostos por IA e mudanças climáticas
Da Redação, com Vatican News

Foto: Vatican Media/Catholic Press Photo/IPA/Sipa USA via Reuters
O Papa Leão XIV recebeu em audiência nesta quinta-feira, 24, os participantes da plenária da Pontifícia Academia das Ciências. O encontro com o Pontífice deu início a uma sessão de dois dias que pretende elaborar uma declaração com recomendações sobre as implicações éticas do progresso científico.
Citando sua encíclica Magnifica Humanitas, o Santo Padre iniciou seu discurso falando sobre a importância de avaliar a trajetória da ciência diante das grandes tendências contemporâneas, como a digitalização, a inteligência artificial (IA) e a robótica, com lucidez e responsabilidade.
“Embora seu impacto total permaneça incerto, essas ferramentas nos dão motivos para esperar um futuro mais luminoso para a humanidade”, pontuou Leão XIV. Entre as descobertas científicas fundamentais e as inovações tecnológicas, contudo, deve-se reconhecer os riscos que acompanham tais avanços.
Impactos da IA
Neste contexto, o Papa alertou que a IA pode ser utilizada para vigiar, manipular e discriminar. “Capacidades informáticas sofisticadas e armas autônomas podem, se desenvolvidas ou implantadas sem salvaguardas adequadas e sem supervisão humana, apresentar novos perigos à segurança e à paz internacional”, salientou.
“Quanto maior for o nosso poder de transformar o mundo, maior deve ser a nossa capacidade de discernir o que verdadeiramente serve à dignidade humana dada por Deus.”
— Papa Leão XIV
Além disso, como os sistemas de IA exigem enormes quantidades de energia e água, o impacto ambiental não pode ser subestimado. Segundo o Pontífice, o progresso tecnológico assume, assim, possibilidades e riscos que não devem contradizer o princípio fundamental da dignidade humana e a compreensão da sociedade.
“O progresso científico e tecnológico deve, portanto, ser acompanhado por um crescimento correspondente da responsabilidade”, ressaltou o Santo Padre. “Quanto maior for o nosso poder de transformar o mundo, maior deve ser a nossa capacidade de discernir o que verdadeiramente serve à dignidade humana dada por Deus, de governar com sabedoria e de cuidar daqueles que podem arcar com as maiores consequências das nossas escolhas”, acrescentou.
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Mudanças climáticas
Tal exigência de responsabilidade, continuou Leão XIV, é especialmente urgente diante das mudanças climáticas. Os registros cada vez mais frequentes e intensos de ondas de calor, secas, inundações, tempestades, incêndios florestais e outros desastres naturais recaem “com maior severidade sobre os pobres e as comunidades com menos recursos”.
“A questão climática não é meramente um desafio ambiental, mas é, fundamentalmente, uma questão de justiça, de dignidade humana e de solidariedade entre povos e gerações. Não podemos responder a esses desafios somente depois que o desastre já tiver ocorrido. Precisamos passar da resposta da emergência para a prevenção, da vulnerabilidade para a preparação e das medidas de curto prazo para uma visão sábia e de longo prazo para a humanidade”, declarou o Papa.
Segundo o Pontífice, esse cenário exige uma abordagem responsável e criteriosa da ciência que fortaleça a resiliência, comprometendo-se com a descoberta, mas também considerando, desde o início, as consequências que as escolhas científicas e tecnológicas podem ter para a humanidade e para a integridade da criação.
Com os desafios de um clima em transformação, a cooperação interdisciplinar é indispensável e exige a colaboração de cientistas, engenheiros, economistas, médicos e cientistas sociais, juntamente com as comunidades locais e os formuladores de políticas.
Ciência a serviço da paz
O Santo Padre concluiu sua fala agradecendo pelas iniciativas desenvolvidas no âmbito da resiliência climática, através de conferências nos últimos dois anos, de onde podem ser traduzidas em ações práticas.
“Rezo para que vocês possam promover uma cultura científica que seja ambiciosa, mas humilde; rigorosa, mas aberta ao diálogo; inovadora, mas responsável; cooperativa em nível global, mas inclusiva para com aqueles que estão em maior risco e mais necessitados. Dessa forma, a colaboração científica, como bem público a serviço da paz, poderá permanecer focada em salvaguardar a dignidade humana concedida por Deus, promovendo o bem comum e cuidando da criação”, finalizou Leão XIV.




